Em Angola, há um reflexo antigo que raramente nos honra: o de vigiar o outro antes de o compreender. Entre os dois grandes partidos, a UNITA e o MPLA, esse reflexo enraizou-se até adquirir a consistência de uma cultura. Em vez de escuta, caricatura; em vez de interpretação, suspeita; em vez do esforço de perceber o universo moral e simbólico do adversário, uma prontidão quase mecânica para o reduzir ao grotesco ou ao ameaçador.
O mais triste é que esse vício não se limita às franjas mais inflamadas da militância. Também alguns dos que se apresentam como intelectuais, homens e mulheres que deveriam elevar o debate e abrir espaço à complexidade, descem muitas vezes ao mesmo terreno empobrecido. Uns por ambição de relevância, outros por cálculo político, outros ainda por uma espécie de vaidade apressada que toma a simplificação por lucidez. E assim, em vez de ajudarem o país a traduzir-se a si mesmo, engrossam o coro das más leituras.
Foi isso que se viu, de forma quase exemplar, quando, numa actividade pública, jovens apoiantes da UNITA apareceram envergando trajes associados ao passado histórico do movimento: o verde dos uniformes, o vermelho da boina. Bastou essa imagem para que, em certos círculos, se instalasse um alarme desproporcionado, como se o país estivesse diante de um ensaio de remilitarização, de uma reconstituição clandestina de capacidades bélicas, de uma ameaça latente pronta a sair das sombras.
Mas quem conhece, ainda que minimamente, a história íntima da UNITA sabe que essa leitura é preguiçosa. Movimentos com a longevidade da UNITA, com seis décadas de existência, não vivem apenas de programas políticos, congressos e palavras de ordem. Vivem também de símbolos, de rituais, de memória encenada, de uma certa gramática do espectáculo que faz parte da sua identidade profunda. Há, naquele universo, uma tradição do teatral, do visual e do evocativo que não pode ser lida literalmente por quem deseje compreendê-la com seriedade.
Recordo-me de 1974. A minha falecida mãe vestia calças feitas de bandeiras da UNITA. Não era um gesto de militarismo. Era um gesto de pertença, de entusiasmo, de inserção afectiva numa causa que também se exprimia através do pano, da cor, da pose, da encenação pública da esperança. A política, nesses contextos, não se limitava ao discurso: fazia-se corpo, fazia-se indumentária, fazia-se imagem.
Essa inclinação para o teatral não nasceu do nada. Vinha também de um fundo protestante, no qual a representação sempre desempenhou um papel importante na pedagogia da fé. Em muitos desses meios, ensinavam-se passagens bíblicas encenando-as; a memória transmitia-se pela dramatização; o sagrado ganhava carne em vozes, roupas, gestos e cenas reconstituídas. Quando esse hábito de representação encontrou a cultura política de um movimento de libertação e de resistência, com a sua dramaturgia de massas e a sua crença no canto, na marcha e no gesto colectivo como formas de consolidar pertença, o resultado foi uma estética própria, uma forma particular de celebrar, recordar e mobilizar.
Lembro-me, por isso, com nitidez, do que via em Jamba e que me fascinava. Havia encenações do começo da luta. Surgiam homens de calções, botas gastas, roupas improvisadas; alguns traziam lanças, outros arcos e flechas, outros ainda instrumentos rudimentares de combate. A ideia era clara: mostrar o ponto de partida, a precariedade inicial, a nudez quase bíblica dos primeiros passos, para depois tornar visível a transformação do movimento ao longo do tempo. Era uma narrativa dramatizada da evolução: dos combatentes quase descalços aos homens treinados, organizados, equipados, capazes de operar com meios muito mais sofisticados.
E convém dizê-lo sem evasivas: durante a guerra, a UNITA teve, de facto, várias formações e agrupamentos destinados ao esforço militar, alguns deles pouco conhecidos do grande público. Houve unidades especializadas, houve comandos, houve, inclusivamente, uma componente paraquedista. Eram estruturas próprias de um movimento em guerra, obrigado a adaptar-se ao terreno, ao inimigo e à necessidade de sobrevivência. Isso existiu. Não é delírio, não é fantasia. Mas, precisamente por isso, importa distinguir com rigor: com a constituição das Forças Armadas Angolanas unificadas, extinguiu-se qualquer braço armado autónomo da UNITA. O que existia enquanto estrutura militar separada deixou de existir. O que hoje se vê, em ocasiões como aquela que provocou tanto ruído, não é o ressurgimento de uma força bélica escondida. É reconstituição. É memória organizada. É evocação cénica. É aquilo a que, durante muito tempo, se chamou grupo de agitação.
Por isso, quando hoje se vêem certos trajes, certas marchas, certas encenações, o mínimo que se exige de um observador sério é prudência. Não é legítimo saltar da imagem para a acusação, do símbolo para o pânico, da memória para a fantasia conspirativa. O que ali se mostra é menos uma capacidade militar do que uma memória dramatizada do passado; menos uma ameaça presente do que uma linguagem herdada; menos um gesto de guerra do que uma coreografia identitária que sobreviveu ao tempo. E quem se julga intelectualmente mais apetrechado tem uma responsabilidade acrescida: perguntar primeiro, escutar, procurar contexto, tentar entender por dentro aquilo que, visto de fora e à pressa, facilmente se deforma.
Há, nesse comentário apressado, uma superioridade quase sempre mal fundada, incapaz de respeitar as tradições simbólicas de movimentos históricos complexos. Movimentos que atravessaram sessenta anos acumulam camadas. Não são legíveis à superfície. Têm mitos, rituais, hábitos, teatralidades, gestos herdados, modos próprios de inscrever o passado no presente. Quem quiser compreendê-los terá de aceitar esse trabalho paciente e exigente de decifração. Sem ele, o que se produz não é análise: é condenação automática, especulação selvagem, pobreza de leitura disfarçada de clarividência.
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