Um excerto sobre uma zaragata local no Cuito Cuanavale, desses que costumam nascer e morrer no mesmo quarteirão digital, ganhou uma vida própria e circula agora, com espantosa facilidade, de telemóvel em telemóvel. A peça gira em torno de um senhor Chissola, responsável por um gabinete da comissão eleitoral na vila, que se vê alvo de uma campanha de cartazes onde se repete, com a insistência mecânica do insulto, que ele não devia estar ali por pertencer à UNITA. No vídeo, o homem, encostado às palavras como quem se encosta a uma parede para não cair, jura ser MPLA até ao tutano e sugere, com azedume mal disfarçado, que a animosidade não nasce tanto do partido quanto do mapa: vem da região de onde ele veio, como se a origem fosse um delito sem prescrição.
É aqui que o episódio, já feio, se torna inquietante. Descobre-se que o mesmo Chissola é senhorio, tem duas propriedades, e que uma delas está arrendada a um empreendedor maliano. Há, portanto, lugar para o estrangeiro que chega com capital e paciência; há lugar para o chinês que monta negócio e finca estacas; há lugar para o mundo que entra pela porta do comércio. E, no entanto, parece não haver lugar para um cidadão de outra região que entra pela porta da função pública. A vila, que devia reconhecer em cada compatriota uma parcela do mesmo país, escolhe antes o velho vício da exclusão, e fá-lo com a serenidade de quem acredita que a filiação política e a geografia do berço valem mais do que a lei, mais do que a decência, mais do que a própria ideia de comunidade.
Esta contradição não é exclusiva de Angola. Quando era criança na Zâmbia, passei algum tempo em Mwinilunga, uma vila remota onde a vida parecia caber num punhado de rotinas e num punhado de estradas. Havia, talvez, cinco carros em toda a terra. Hoje há engarrafamentos. Naquele tempo não existia um único restaurante; agora há vários, com uma cozinha variada que inclui sabores da África Oriental, como se a vila tivesse aberto janelas para um continente inteiro. A certa altura, Mwinilunga atraiu gente de toda a África à procura de ouro. Os habitantes, em grande parte da etnia Lunda, acolheram-nos: receberam o forasteiro como se o movimento fosse uma forma natural de destino, e não uma ameaça. O lugar cresceu porque soube distinguir o que o estranho trazia do que imaginava que o estranho ameaçava.
Nem sempre é assim. A paisagem moral das pequenas localidades muda com a mesma velocidade com que muda a paisagem económica, e nem sempre no mesmo sentido. Há lugares onde a chegada de “outros” acaba por ser lida como competição; e a competição, quando não é regulada por instituições robustas, converte-se, com frequência, em narrativa. As elites locais, sobretudo em zonas afastadas, desconfiam de quem possa disputar clientelas, rendas, influência, prestígio. Fecham-se numa bolha autossuficiente, uma espécie de Bíblia privada, escrita em coro, onde as frases circulam como versículos: os de fora não têm valores; são rudes, maus, gananciosos, egoístas. E, como acontece com todos os catecismos de aldeia, depressa se chega aos mitos de sempre, carregados de veneno íntimo: “vêm buscar as nossas mulheres”, “vêm corromper os nossos filhos”, “vêm mandar”. A repetição faz o resto. Cria um efeito de estufa: o ar aquece, a suspeita torna-se clima, e qualquer incidente passa a provar aquilo que já estava decidido antes de ser visto.
O paradoxo é que os mesmos comerciantes estrangeiros que a retórica da exclusão demoniza são, muitas vezes, os melhores professores disponíveis. Há uma lição prática escondida no movimento que hoje se vê em Mwinilunga, e que muitos pequenos comerciantes angolanos fariam bem em observar com atenção. Em mercados onde a sobrevivência depende de disciplina, certos hábitos comuns entre comerciantes da África Oriental funcionam como vantagem silenciosa: a atenção metódica à informação, a capacidade de activar redes, a gestão rigorosa do dinheiro. Não é magia, nem “esperteza” de folclore. É comparar preços em mais de um ponto antes de comprar mercadoria; especializar-se sem ignorar a cadeia inteira; registar vendas, margens e stock, num caderno ou no telemóvel, para não confundir movimento com lucro. É poupar em grupos rotativos com regras claras, à maneira das chamas, para transformar pequenas contribuições em capital real; e separar o dinheiro do negócio do dinheiro do consumo, para que o stock não seja devorado pela pressa do dia. É construir relações de confiança com fornecedores e transportadores, pagar a tempo, cumprir a palavra, usar a reputação como forma de crédito; e dizer não a clientes cronicamente atrasados, porque a compaixão mal colocada arruína mais negócios do que a concorrência. É preferir a rotação rápida e constante ao golpe grande e raro; partilhar risco em rotas difíceis; aprender as regras mínimas do Estado e das fronteiras para reduzir multas e humilhações; e tratar o comércio como profissão, com horários, registos e aprendizagem colectiva.
No fundo, a economia ensina aquilo que a política teima em esquecer: os lugares que prosperam são os que transformam o movimento em regra e o estranho em parceiro possível, sem exigir juramentos de pureza, sem fabricar inimigos para proteger pequenas rendas. Quando uma vila troca esta lição por cartazes e exclusões, não está apenas a escolher um lado num conflito menor. Está a escolher um tipo de futuro.
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