A Conversão do Mano Abel- Sousa Jamba



Em 1992, muitos de nós, formados no ventre espiritual da Igreja Evangélica e Congregacional de Angola, atravessámos uma autêntica crise de consciência. Não se tratava de uma simples mudança de confissão, dessas que a vida regista e logo arruma nas suas margens discretas. Tratava-se de Mano Abel Epalanga Chivukuvuku, filho do Dondi, homem saído da mesma paisagem moral, histórica e afectiva que nos moldara, a entrar na Igreja Católica. Para alguns, essa passagem feriu mais fundo do que o seu afastamento da UNITA. A política ainda pertencia ao domínio das circunstâncias; a igreja, essa, tocava a substância, o nervo antigo da pertença, a forma íntima por que uma comunidade se reconhece a si mesma.


A IECA não era, para nós, um simples lugar de culto. Era memória, disciplina, hino, parentesco e destino. Quem nela crescia não aprendia apenas a rezar; aprendia uma maneira de habitar o mundo. A família de Mano Abel, aliás, parecia saída do ideal que, em 1914, o missionário Dr Charles Napier sonhava formar: uma elite africana instruída, numerosa, firme na fé e capaz de a irradiar. O pai, o Tio Pedro, era professor reputado, músico de nome, ancião respeitado; e os filhos brilhavam em vários campos, como se naquela casa o talento tivesse encontrado morada duradoura. Com raízes reais, como tantas famílias que ganharam relevo no universo da IECA, os Chivukuvuku ocupavam um lugar de evidência quase natural. Não por acaso, também Jesse Chiula Chipenda, o primeiro Secretário-Geral negro da IECA, era filho de um chefe reputado de Lomanda, perto do Bailundo.


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É verdade que essa fronteira nunca foi absolutamente estanque. Muitas famílias protestantes, desejosas de ascensão social, não recusavam escolas ou instituições católicas. Havia ali disciplina, prestígio, método. Mas uma coisa era aproveitar a escola; outra, muito diversa, era entregar a alma. O fundo protestante permanecia severo. Tinham-nos ensinado que nenhum padre, nenhuma autoridade religiosa, nenhum mediador de carne e voz podia interpor-se entre a criatura e Deus. Bastavam a Escritura, a consciência e a faculdade de ler. Um homem alfabetizado, diziam-nos, podia abrir o Evangelho e encontrar ali a verdade necessária. A insistência católica na Virgem, nas imagens, nas procissões, na visibilidade da Igreja, tudo isso nos era apresentado como excesso, desvio, quase recaída num culto de objectos. O nosso protestantismo prezava a simplicidade, a sobriedade, uma pureza sem ornato. Também por isso olhávamos os católicos com desconfiança. Pareciam-nos menos rigorosos, menos puros, menos fiéis à nudez do texto sagrado.


Foi nesse quadro que a conversão de Mano Abel caiu sobre nós como uma deslocação simbólica. Não parecia afastar-se sozinho. Levava consigo um feixe de memórias, de fidelidades e de promessas. Mas a história não permaneceu no plano da doutrina. Veio a violência de 1992. Vieram os dias de sangue que se seguiram aos resultados disputados das primeiras eleições. E Mano Abel, único sobrevivente do carro em que seguiam também Salupeto Pena e Jeremias Chitunda, então Vice-Presidente da UNITA, apareceu-nos no hospital com o rosto de quem regressara das vizinhanças da morte.


Os meses seguintes, feitos de detenção, doença e incerteza, deixaram nele uma marca profunda. E foi então que se tornou visível a diferença entre o princípio proclamado e a caridade vivida. A nossa igreja protestante, tomada pelo medo, recuou. Os seus dirigentes recearam ser associados à UNITA. Houve distância, hesitação, silêncio. A Igreja Católica fez o contrário. Aproximou-se. Cuidou dele. Permaneceu junto do seu leito quando ele estava quase desfeito, sem força, sem tribuna, sem protecção. Onde nós vimos risco, eles viram sofrimento. Onde nós calculámos consequências, eles exerceram misericórdia.


Quem somos nós para julgar levianamente a profundidade de uma experiência assim? Um homem ferido, humilhado, quase esmagado pela história, encontrou no catolicismo não um aparato, mas braços que o ampararam. Mano Abel tornou-se, depois disso, um católico devoto e falou sempre com gratidão do que a Igreja Católica fizera por ele. Talvez resida aí uma lição incómoda para nós, protestantes. Não basta a firmeza dos princípios, se esses princípios tremem diante do medo. Uma igreja mede-se também pela coragem com que permanece ao lado do ferido quando a tempestade engrossa. No fim de tudo, a pergunta decisiva é simples: quem esteve junto do homem caído? E a resposta, por mais desconfortável que seja, obriga-nos à humildade. Acima do cálculo, deve prevalecer a caridade.


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