Não sei como estamos agora, mas há anos, segundo alguns jornais, cada angolano devia mais de 600 dólares à China. Devo dizer que, dos milhares de dólares que devemos, beneficiámos muito pouco. A China não se importou com a forma como cada dólar seu era gasto, e hoje devemos, mas pouco temos. Nada me tira da cabeça que o Governo de José Eduardo preferiu a China porque era alérgico à fiscalização de toda a espécie, inclusive de direitos humanos e democracia”, lê-se numa mensagem partilhada na rede social WhatsApp, tendo o autor acrescentado, com convicção, que o FMI e outras entidades financeiras internacionais seriam uma mais-valia para Angola.
(https://poligrafoafrica.com/wp-content/uploads/sites/2/2026/04/710f3eb9-a248-4715-b7e2-9d7b15f45a0d.jpeg)Essa perspectiva, entretanto, está a ser defendida por diferentes figuras nacionais, entre conhecidas e anónimas. Por exemplo, num debate na Rádio Essencial, nesta semana, o activista e fundador da Friend of Angola – organização com sede nos EUA, Florindo Chivicute – sublinhou que a Administração Dos Santos preferiu a adopção de crédito chinês por este não estabelecer exigências em matéria de direitos fundamentais dos cidadãos.
“O Executivo do Presidente Dos Santos, e penso que também acontece com o actual, preferiu o investimento chinês ao invés do investimento do Fundo Monetário Internacional e do Banco Mundial, porque estas organizações tinham critérios de fiscalização, critérios de acompanhamento e de desenvolvimento, não apenas nos investimentos nas infra-estruturas, mas também investimento social para melhorar a vida dos angolanos, além da questão do respeito pelo ambiente, dos direitos humanos e da democracia. Os membros do Governo não gostaram destes pormenores e preferiram o da China, que não tem estes requisitos”, disse (https://www.facebook.com/watch/live/?ref=watch_permalink&v=1556359682134232)Chivicute.
Importa referir que os empréstimos da China, país também conhecido como ‘Dragão Vermelho’, têm, há muito, sido alvo de críticas, sobretudo por conta do colateral imposto, bem como por alegadamente não se importar com o modo como será aplicado o dinheiro, nem se o beneficiário tem compromisso com a boa governação e o respeito pelos seus cidadãos.
Em 2024, o Centro de Estudos para o Desenvolvimento Económico da África Austral (CEDESA), com sede em Lisboa, constatou (https://www.cedesa.pt/2024/02/19/a-necessidade-de-um-mecanismo-conjunto-da-uniao-africana-para-a-divida-africana-a-china/), num estudo, que a ausência de transparência nos empréstimos chineses aos países africanos contribuiu para a multiplicação de actos de corrupção no continente, incluindo em Angola.
Particularmente em relação ao empréstimo concedido a Angola, a entidade referiu existirem “nuvens cinzentas” nos acordos com a China, sublinhando que a dívida, “em certa parte, é polémica”, por ter havido “uma utilização muito questionável dos empréstimos”.
“Parte dessa dívida foi destinada a infra-estruturas descartáveis, como estádios e estradas que hoje estão em condições precárias. Além disso, uma parcela significativa desses empréstimos acabou apropriada privadamente por dirigentes angolanos, prejudicando a economia do país”, destacou o CEDESA.
Mas estará claro que Angola recorreu ao empréstimo chinês e não ao FMI por temer fiscalização política?
A resposta à questão é complexa. Os factos remontam a 2002, altura em que o Governo e a UNITA punham um ponto final à guerra fratricida de quase três décadas. Naquele ano, Angola era um país tomado por escombros. De acordo com o então Presidente José Eduardo dos Santos, na sua mensagem sobre o estado da Nação de 2010, mais de 70% da rede de estradas do país encontrava-se em estado avançado de degradação (https://a-patria.webnode.page/products/discurso%20do%20presidente%20sobre%20o%20estado%20da%20na%C3%A7%C3%A3o%20%20/), além de o país carecer de um sistema funcional de rede eléctrica, saúde e educação.
Claramente, Angola precisava de ajuda. O Presidente Dos Santos (falecido em 2022) expôs essa realidade às potências económicas e à Organização das Nações Unidas, tendo esta garantido a realização de uma Conferência Internacional de Doadores.
Porém, os anos foram passando e a conferência não teve lugar. Angola pressionou, mas não obteve resposta satisfatória. No Ocidente, falava-se da necessidade de se aprimorar a transparência na gestão dos recursos públicos por parte da governação de José Eduardo dos Santos, além de se condicionar o evento de angariação à assinatura de um acordo entre Angola e o Fundo Monetário Internacional (FMI).
Entretanto, questionado a propósito, numa entrevista concedida (https://www.publico.pt/2002/06/30/jornal/luanda-nao-ve-sinais-de-boa-vontade-dos-doadores-internacionais-172225) ao jornal “Público”, em 2002, o actual Presidente da República, João Lourenço, então na qualidade de secretário-geral do MPLA, afirmou que o bloco ocidental “nunca” lhes tinha dito, “de forma clara”, que a condição era a transparência, o respeito pelos direitos humanos e a democracia.
“Podiam ser mais honestos e dizer por que razão não estão a querer abrir os cordões à bolsa. Oficialmente, nunca essa justificação foi apresentada ao Governo. Aliás, lamentavelmente, o que tem acontecido é que têm vindo a ser postas, umas atrás das outras, condições a Angola. Antes das eleições de 1992, a condição era a realização de eleições multipartidárias. Depois, apesar de o perdedor das eleições ter pegado em armas, tínhamos que repartir o poder com ele. Isso, em certa medida, foi feito com a criação do Governo de Unidade e Reconciliação Nacional (GURN). As prometidas ajudas não vieram. Depois, disseram-nos que era preciso pôr fim à guerra. A guerra acabou há cerca de dois meses e não estamos a ver sinais de boa vontade da parte dos doadores”, sublinhou João Lourenço.
Na sequência do impasse, José Eduardo dos Santos virou baterias para a China, que, no início do presente século, começava a abrir-se ao mundo.
A primeira tranche…
De acordo com declarações (https://www.forumchinaplp.org.mo/pt/economic_trade/view/3724) proferidas, em 2016, pelo então ministro e chefe da Casa Civil do Presidente da República, Manuel da Cruz Neto, durante a cerimónia de abertura do Fórum de Investimento Angola-China, Pequim abriu os cordões pela primeira vez a Angola em 2004, numa altura em que o Governo de José Eduardo dos Santos ainda aguardava pela realização da Conferência de Doadores.
Ao todo, de 2004 a 2016, Pequim já havia disponibilizado a Luanda cerca de 15 mil milhões de dólares.
No início, a China desembolsou 2 mil milhões de dólares, um pacote que ascendeu para 7 mil milhões antes mesmo de José Eduardo dos Santos ter sido recebido, em 2008, pelo então homólogo (https://www.fmprc.gov.cn/eng/gjhdq_665435/2913_665441/2914_663834/2916_663838/202406/t20240607_11414948.html) chinês, Hu Jintao, no Grande Salão do Povo, em Pequim.
Portanto, até 2022, de acordo com os dados, o empréstimo (https://forbesafricalusofona.com/emprestimos-da-china-a-angola-atingiram-45-mil-milhoes-usd-entre-2000-e-2022/)chinês já havia ascendido a 45 mil milhões de dólares.
Agradecimentos do Governo angolano
(https://poligrafoafrica.com/wp-content/uploads/sites/2/2026/04/6e0cdb6a-800e-4502-a822-51d3273f61fd.jpeg)Em 2017, o poder em Angola mudou de mãos. João Lourenço, o novo inquilino da Cidade Alta, manteve a parceria com a China, embora tenha intensificado as relações com o Ocidente, sobretudo com os Estados Unidos da América.
Porém, tal facto não o inibiu de reconhecer o papel que Pequim desempenhou para a economia de Luanda. Em 2024, em visita à China, o Presidente João Lourenço agradeceu (https://cipra.gov.ao/noticias/1423/discurso/china/palavras-do-presidente-joao-lourenco-no-encontro-com-xi-jinping) ao seu homólogo, Xi Jinping, o que chamou de “atitude ímpar” do Governo chinês ao ter estendido a mão a Angola.
As palavras de agradecimento do estadista angolano foram uma repetição do que já havia dito ao primeiro-ministro do gigante asiático, antes de se encontrar com Xi.
Portanto, não é claro que Angola, logo após a guerra, tenha recorrido à China para financiar a sua economia pelo facto de este país não exigir critérios como democracia, dado que houve contactos das autoridades angolanas com o bloco ocidental, incluindo a ONU, visando a realização de uma Conferência de Doadores para a reconstrução do país.
Polígrafo África
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