As trágicas cheias que, mais uma vez, assolaram Benguela recentemente, com o transbordo do rio Cavaco, o rompimento de diques, milhares de famílias desalojadas e bairros inteiros submersos, não são um castigo divino nem uma fatalidade inevitável.
São, acima de tudo, o resultado previsível da falta de planeamento, de manutenção e de vontade política.
Há mais de uma década que a academia portuguesa e angolana alerta para este problema.
Em 2012, na Universidade de Coimbra, o estudo de Júlio Tonecas analisou as inundações nas bacias hidrográficas dos rios Catumbela e Cavaco, destacando a urgência de sistemas de previsão e alerta.
Dois anos depois, em 2014, Ana Cristina Barreira Rodrigues, na Universidade Nova de Lisboa, apresentou a sua dissertação de mestrado “Simulação Hidrológica de Cheias na Bacia do rio Cavaco em Angola”, um trabalho sério e rigoroso que modela o comportamento do rio, identifica zonas de risco e propõe soluções técnicas concretas, como bacias de retenção e melhorias no escoamento.
Estes não são os únicos estudos.
Existem conhecimentos científicos acumulados, dados hidrológicos, modelos matemáticos e recomendações técnicas que continuam guardados em prateleiras ou em arquivos digitais, enquanto a realidade se repete ano após ano com consequências trágicas.
Em Angola ora-se muito, e com fé sincera.
Mas a oração, por mais poderosa que seja para consolar as almas e fortalecer os espíritos, não constrói sistemas de drenagem eficientes, não limpa valas entupidas, não impede a ocupação desordenada de zonas de risco, nem desassoreia o leito do rio Cavaco.
Não substitui um planeamento urbano sério, nem a manutenção regular de infraestruturas.
O que realmente pode mudar esta situação é que os órgãos decisores as antigas “ordens superiores” tomem vergonha na cara e comecem, finalmente, a levar a sério o que se produz nas academias.
Que deixem de ignorar os estudos, os relatórios e as recomendações técnicas.
Que transformem conhecimento em ação: ordenamento do território, sistemas de alerta precoce, drenagem moderna, proibição efetiva de construções em áreas de risco e investimento contínuo na gestão dos recursos hídricos.
Enquanto o saber académico continuar a ser tratado como mera formalidade, as águas do Cavaco continuarão a cobrar, a cada estação chuvosa, um preço demasiado alto em vidas humanas e sofrimento.
Chegou o momento de passar da oração à ação responsável. A ciência já deu o diagnóstico e apontou caminhos. Falta apenas a coragem política de os seguir.
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