Oito anos passaram, e o nome de Jaka Jamba continua a atravessar a casa como outrora a atravessava, com aquela gravidade de presença que endireitava a espinha até de quem nada tinha a esconder. Primeiro, houve o estrondo da ausência. Vieram depois as manhãs de chumbo, os rostos anuviados, as vozes quebradas a meio da frase, como se a dor lhes houvesse posto a mão na garganta. Durante muito tempo, a sua memória apareceu-nos assim: cercada de pranto, quase submersa no assombro de sabermos que um homem tão inteiro podia, afinal, ser entregue ao silêncio.
Mas o luto, quando amadurece, muda de ofício. Deixa de ser apenas ferida e começa a fazer-se claridade. Então, o morto regressa-nos já não no tumulto da perda, mas nas coisas em que pousou a mão, nas salas que habitou, nos gestos a que deu forma sem sequer o saber. É aí que o meu irmão reaparece com maior nitidez.
Vejo-o numa casa do Huambo, defronte do que hoje é o p no we just get the boots I will send the money today restaurante da Dona Gigi. Na minha lembrança, a casa permanece intacta. Havia ali um quarto onde os discos se alinhavam como se obedecessem a uma ordem própria, severa e sedutora. Eu entrava às escondidas, impelido por essa coragem clandestina que só as crianças conhecem em toda a sua pureza, e punha a girar aqueles mundos luzidios. Primeiro, o leve rumor da agulha. Depois, de súbito, uma respiração chegada de longe. Eu não sabia então que nome lhe dar; sabia apenas que o som que subia daqueles sulcos era diferente de tudo o que existia lá fora: mais largo, mais antigo, como se viesse de um lugar onde o tempo se movesse de outra maneira. Só mais tarde aprenderia os nomes: Manu Dibango, Coltrane, Nicolas Kasanda, Bonga. A música espalhava-se pelo quarto e parecia tocar a própria luz, como se as paredes recuassem um pouco para dar passagem a geografias mais vastas.
No Bom Pastor, em nossa casa, as estantes guardavam volumes que, para mim, tinham a solenidade de um altar doméstico. Ali estavam Tolstói, Gogol, Camilo Castelo Branco e outros nomes que, antes de eu os compreender, já me impressionavam como impressiona uma criança não tanto o que se diz, mas o modo como uma presença ocupa o espaço. A casa tinha, por causa deles, uma espécie de densidade moral. Mesmo quem não lesse sentia que ali havia qualquer coisa a resguardar. Eram os livros do Mano, ele que estudara em Portugal e que, num desses movimentos em que uma geração inteira se partiu ao meio, deixara Lisboa para se juntar à resistência anticolonial. Havia nisso uma tensão que eu levaria anos a nomear: os livros de Camilo na estante, e o homem que os trouxera a combater o Portugal que os produzira.
Numa manhã, porém, no Bom Pastor, a polícia entrou. Não entrou como entram as visitas. Entrou com o peso seco do Estado quando decide mostrar a sua face de ferro. Vieram buscar o meu irmão Augusto para a prisão, em Luanda, e os livros do Mano, que o Estado via como indícios de uma outra ordem possível, foram levados de volta para Katchilengue. O Mano estava longe; mas a sua presença, que dera à casa parte da sua arquitectura moral, foi a primeira coisa a ser confiscada. Ainda hoje essa cena se ergue diante de mim com uma claridade cruel: o movimento apressado, a brusca interrupção da ordem doméstica, o mundo infantil a perceber, sem ainda dispor das palavras necessárias, que há dias em que a autoridade não bate à porta: arromba-a. As estantes esvaziaram-se, e o vazio que deixaram não era apenas o do papel retirado. Era o som de uma infância a perder, de repente, uma parte do seu abrigo.
É por isso que, quando penso no Mano Jaka, não o vejo reduzido aos títulos com que a vida pública o vestiu. Vejo-lhe antes os gestos. A mão que escolhia um disco. O olhar que se demorava sobre um livro. Foi professor de Filosofia, e quase se adivinha esse labor nas estantes, nesse comércio silencioso com ideias que não servem para adornar uma vida, mas para a aprofundar. Foi político, foi homem de praça pública; mas o que ficou foi outra coisa: o pai que provê, o irmão cuja simples presença dá à família uma certa arquitectura, o amigo em cuja lealdade se podia depor o peso do dia. A integridade, nele, não era palavra de discurso. Era hábito do corpo.
Há uma imagem que me regressa com frequência e que ainda não sei bem que fazer dela. O Mano sentado, o livro pousado sobre o colo, a olhar pela janela para o pátio onde os mais novos brincávamos. Não lia naquele instante, nem nos vigiava; estava apenas presente, suspenso num pensamento que não partilhava. Era a quietude de um homem que habitava os seus próprios interiores com uma seriedade que não precisava de assistência. Naquele silêncio havia qualquer coisa que eu, criança, recebia sem entender: que um homem pode ser pleno sem fazer ruído; que a inteligência, quando não se converte em vaidade, se torna uma forma de elegância moral.
Talvez seja isso o que fica dos que foram verdadeiramente vivos. Não o retrato oficial, não a biografia enumerada, mas a temperatura que deixaram nas divisões por onde passaram. O meu irmão permanece assim. Quieto. Nítido. Inteiro.
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