De tempos a tempos, Angola oferece às suas províncias um milagre administrativo. Uns chegam em sacos de adubo; outros, em viaturas de vidros fumados; outros ainda, em despachos redigidos em Luanda com a serenidade de quem semeia destinos à distância. O milagre desta estação desabrochou no Huambo sob a forma mais leve e mais fotogénica possível: uma de Chefe do Departmento da Agricultura e Flora do Gabinete do Departmento da Agricultura da provincia do Huambo com vinte e quatro anos. A notícia espalhou-se com a rapidez de uma praga de gafanhotos e desencadeou aquele velho teatro nacional em que a indignação entra primeiro, a reflexão chega tarde e a ironia, quando enfim aparece, já encontra a sala cheia.
Convém, porém, pousar o copo do dramatismo sobre a mesa. A direcção provincial não é o lugar onde se decide a agricultura do Huambo. O que ali se move não são tractores, rebanhos nem sistemas de irrigação, mas ofícios, relatórios e frases disciplinadas. A verdadeira agricultura administrativa angolana germina em Luanda, entre gabinetes refrigerados e consultorias bem pagas, a uma distância prudente da poeira. No Huambo, resta o ritual da execução simbólica: assinar, receber, encaminhar, representar. Não se lavra a terra; lavra-se o papel.
Digo-o sem crueldade, porque vi alguma coisa desse mundo. No interior do Huambo, acompanhei de perto o labor dos pequenos produtores e a inteligência concreta com que lidavam com a terra. Vi camponeses perceber, pela cor do solo e pela tristeza da planta, que o fertilizante vendido com a solenidade da modernidade estava a matar o campo em vez de o fortalecer.
Voltaram-se para o estrume de vaca, para o esterco de galinha, para formas de cultivo mais orgânicas, não porque algum plano genial lhes tivesse descido da província, mas porque a necessidade os obrigou a pensar e a experiência lhes ensinou a desconfiar. Vi também como a simples arte de puxar água de uma nascente e conduzi-la, com engenho e teimosia, a um pequeno sistema de irrigação podia alterar a qualidade de uma colheita e o humor de uma família inteira. Em Mánico, a minha aldeia, lembro-me de pessoas retomarem o cultivo do café consultando os mais velhos, resgatando técnicas antigas, confiando menos no brilho dos discursos e mais na memória viva de quem sabia escutar a terra.
Era precisamente aí que se revelava a ironia maior. A estratégia formal da direcção provincial de Agricultura, no quotidiano desses mundos, era quase inexistente. A sua presença tornava-se visível sobretudo em ocasiões ritualizadas, como a distribuição de kits agrícolas a militantes do partido governante, os quais depois, obedecendo ao espírito empreendedor que o regime tanto aprecia, os revendiam a preços irrisórios aos verdadeiros agricultores. Tratava-se de uma economia política de opereta: o Estado fazia de benfeitor, o aparelho partidário fazia de intermediário, o camponês fazia de destinatário agradecido e a terra, como sempre, fazia de juíza severa.
Lembro-me também de um projecto pecuário em que trabalhámos com estudantes de Agricultura vindos da Huíla. Eram jovens aplicados, alguns até brilhantes. Mas nenhum de nós, com um mínimo de seriedade, lhes entregaria a gestão integral da operação apenas porque traziam o diploma ainda quente. Havia nesse projecto um velho consultor português, frágil de corpo, vagaroso de gesto, mas dotado daquela autoridade que só nasce do convívio paciente com as estações, os animais e os erros repetidos. Falava da rotação das pastagens e dos ciclos de reprodução com a calma de quem não precisa de se adornar de importância para ser ouvido.
Os políticos, quando apareciam, escutavam com expressão grave, acenavam como se tivessem compreendido o essencial e regressavam à liturgia do discurso pronto, escrito algures longe dali. Entre o saber que nasce da prática e a palavra que chega empacotada do centro, Angola escolheu demasiadas vezes a embalagem.
É por isso que a nomeação deveria provocar menos escândalo e mais compreensão da natureza do sistema.
O problema não é a idade da directora, embora a idade, em certos ofícios, conte mais do que os panegiristas da renovação gostam de admitir. O problema está, antes, na função simbólica que lhe é atribuída. Ela serve para ilustrar uma narrativa de rejuvenescimento no interior de uma estrutura que desconfia profundamente de qualquer renovação real. É a velha astúcia do poder: muda-se o rosto para que nada de substantivo mude por dentro. A juventude entra pela porta da frente, sorridente e impecavelmente engomada, enquanto as decisões verdadeiras continuam sentadas na sala ao lado, em cadeiras mais antigas.
Ninguém deveria, portanto, perder o sono com o milagre agrícola do Huambo. O milho continuará a obedecer mais à chuva do que aos comunicados; o gado responderá melhor à disciplina do curral do que aos entusiasmos do gabinete; e os rios, indiferentes ao léxico da governação, seguirão o seu curso antigo. A terra angolana conserva uma soberania silenciosa. Escuta pouco. Tolera menos. E continua a responder, com uma franqueza quase insultuosa na sua nudez, apenas àquilo que conta: conhecimento, trabalho, tempo, água e memória.
O resto é cerimónia.
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