No final do livro O Reino das Casuarinas, de minha autoria, publicado em 2014 pela Editorial CAMINHO, constam oito desenhos a esferográfica, que retratam os personagens fundadores do reino na Ilha de Luanda (Primitivo, Povo do Volvo, Razões de Cruz Vermelha, Eutanásia, a rainha, Pam, Katchimbamba, Profeta e o gato Stravinski.
Quem é o personagem Primitivo?
Primitivo é o cognome que atribuí ao meu companheiro de caserna, durante a passagem pelas FAPLA. O livro é uma homenagem a esse companheiro, de sua graça Artur Lucas Fernandes.
Artur Fernandes era uma mente brilhante, devoradora de livros, um intelectual que poderia ter dado um valioso contributo para Angola e os angolanos.
Lucas, como o chamávamos, entrou para as FAPLA como voluntário, pouco antes da Independência, no mês de Outubro de 1975. Encaminhado para o CIR Resistência Popular, no Grafanil. Ali, encontrou um comissário político, Gilo Santiago, com o qual teve acesas discordâncias político-ideológicas, porque Lucas era trotskista e o comissário era maoísta e adepto da corrente de Nito Alves. Sofreu muito devido a essa discordância, desde ginástica de aplicação militar forçada (GAM) durante uma manhã inteira, até prisão. Acabada a recruta, Lucas é integrado nos Serviços de Tropas (ST), em Luanda.
Quando ocorreu o levantamento do 27 de Maio de 1977, Lucas é preso, ele que tinha divergências acérrimas com um dos defensores da ala de Nito Alves! Levado para um campo de trabalho no Kwanza-Sul, ali permaneceu dois anos, até que Agostinho Neto decretou a amnistia em 1979.
Mas o Artur Lucas Fernandes amnistiado em 1979 já não era a mesma pessoa que havia entrado para as FAPLA em 1975. Se o ambiente pesado da recruta e depois o do quartel dos ST havia deixado nele traumas profundos e depressões, a detenção no campo de trabalho arrasou por completo a consciência vital de Artur Lucas Fernandes.
Saído da prisão, fui visitá-lo na sua casa no bairro Nelito Soares, nas famosas Bês. Ajudei-o a voltar e estudar, tendo ingressado na Faculdade de Direito da UAN, nos anos 90. Ali estudou até ao quarto ano, tendo sido um dos mais brilhantes alunos. Porém, as sequelas da catastrófica independência do nosso país foram irreversíveis para ele. Mesmo com tratamentos médicos, Lucas não conseguiu terminar os estudos. Andava meio perdido. Nos últimos anos da sua vida, Artur Fernandes deambulava pela cidade capital a pedir dinheiro e tabaco aos transeuntes.
Anos depois, saiu a triste notícia: o Lucas morreu.
Foi assim que escrevi O Reino das Casuarinas em memória desse meu companheiro e de todos os meus companheiros da tropa. Está ali, logo no Prólogo do livro, a sua imagem magnética, sofisticada, surreal. Lucas foi uma vítima imortal do 27 de Maio de 1977. A sequelas do pós-27 de Maio ainda precisam de ser bem estudadas. Não produziu apenas vítimas mortais. Houve angolanos traumatizados, abalados profundamente na sua psique. Alguns ainda vivem. O que deve o Estado angolano fazer com estas outras vítimas?
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