Se Higino Ganhar Não Vou Estranhar

 


O Congresso que vai eleger o novo presidente do MPLA está marcado para Dezembro. Por se tratar de um acontecimento de grande interesse público, deve ser acompanhado com atenção até sair o fumo branco.  


Tudo indica que a disputa será renhida entre os dois pesos pesados: De um lado, João Lourenço procura garantir a continuidade do seu projecto; do outro, Higino Carneiro apresenta-se como rosto da mudança dentro do Partido: missão difícil, mas possível.  


Inspirado pelo pai, que, ao dar-lhe o nome de Higino, em homenagem à visita a Angola, em Fevereiro de 1955, do então Presidente da República Portuguesa, Francisco Higino Craveiro Lopes, terá profetizado que um dia o seu filho viria a ser Presidente da República, Higino Carneiro parece determinado a transformar esse sonho em realidade.  

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E é legítimo que o procure fazer. Afinal, nada o impede. Tem currículo próprio. Foi militar, negociador da paz, exerceu funções governativas e acumulou experiência política ao longo de vários anos. Falta-lhe apenas concretizar o sonho do seu pai. Para isso, precisa primeiro de vencer as eleições internas do MPLA.  


É neste contexto que tenho acompanhado com bastante interesse o seu percurso político nos últimos anos, sobretudo desde o lançamento do seu livro O Soldado da Pátria.  


A curiosidade foi tanta que passei a prestar maior atenção aos seus pronunciamentos públicos e às suas intervenções cívicas. Foi assim que, em 2024, participei numa palestra promovida pela Associação de Estudantes de Luanda, realizada na antiga escola Mutu-ya-Kevela, ex-Liceu Salvador Correia.  


A sua intervenção foi rica e amplamente ovacionada. Deixou vários conselhos à juventude e, no momento reservado às perguntas, esteve igualmente à altura das expectativas: respondeu com mestria até às questões mais incómodas, feitas a queima‑roupa.  


Desta vez, ao anunciar a sua pretensão de candidatura, HC, também conhecido como o “General 4x4”, demonstrou não estar satisfeito com o rumo que o MPLA tomou. Não esconde a sua insatisfação em relação ao estado actual da economia. E, por ter estado ligado às grandes decisões nacionais ao longo de vários anos, sabe que é possível fazer diferente para inverter o actual quadro social e económico.  


Provavelmente apelaria àqueles que mantêm fortunas depositadas no estrangeiro para que as repatriassem voluntariamente, sem receio de as perder. HC parece compreender que a perseguição dificilmente resolverá os problemas estruturais do país. Compreende igualmente que todos são necessários para corrigir o que está mal.  


Tem demonstrado que é possível coexistir com a oposição política. Para ele, o convívio e o diálogo sincero entre as forças vivas da nação constituem o melhor caminho para a construção de uma Angola de todos.  


A verdade é uma: ganhando ou perdendo, HC continuará a ser militante do MPLA, o partido do seu coração. O máximo que poderá fazer é rezar, como eu, para que volte a existir eleição para Presidente da República separada das legislativas, como em 1992.  


Até lá, resta saber se o sonho de um pai se tornará realidade.  


Luanda, 10 de Maio de 2026

Gerson Prata

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