A Odisseia de Voltar para Casa (Capítulo II)- Ademar Rangel



Depois da aventura épica proporcionada pela TAAG a caminho da Huíla, eis que chega o momento de regressar a Luanda.


Ou pelo menos tentar.


Chegámos ao Aeroporto de Ondjiva às 08h20.


Logo à entrada, um agente da Polícia, simpático e eficiente — uma espécie de animal em vias de extinção em alguns serviços públicos — verificou os nossos Bilhetes de Identidade e cartões de embarque e indicou-nos o caminho para o drop-off de bagagem.


Tudo parecia correr normalmente.


Foi então que surgiu uma figura imponente, envergando um casaco onde se lia a palavra “Alfândega” em letras suficientemente grandes para dispensarem apresentações.


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Sem grande cerimónia, mandou os meus colegas avançarem para uma pequena estrutura metálica que parecia uma mistura entre contentor e sala de interrogatórios de filme de baixo orçamento.


Quando tentei segui-los, o braço do homem aterrou no meu peito como se estivesse a proteger os segredos nucleares da República.


A porta fechou.


Lá dentro, uma funcionária devidamente uniformizada da AGT interrogava a minha colega sobre a quantidade de perfumes que transportava para Luanda.


Perfumes.


Não diamantes.


Não barras de ouro.


Perfumes.


Após alguns minutos, os meus colegas foram libertados.


Chegou a minha vez.


O senhor do casaco aproximou-se com uma energia que sugeria estar prestes a desmantelar uma rede internacional de contrabando.


— Vêm de onde?


Confesso que durante um segundo passaram-me várias respostas pela cabeça.


Uma delas envolvia uma reflexão filosófica sobre a livre circulação de pessoas e bens dentro do território nacional.


Outra envolvia perguntar se Angola tinha sido discretamente dividida em vários países durante a noite.


Mas respirei fundo.


A idade ensina-nos que certas batalhas produzem mais dores de cabeça do que vitórias.


— Venho do Cuvelai.


Milagrosamente, a tensão desapareceu.


O homem baixou a guarda, virou-se para a colega e disse:


— Pode avançar.


E assim terminou a investigação.


Sem revista.


Sem perguntas adicionais.


Sem descoberta de qualquer rede criminosa internacional.


Aparentemente, o Cuvelai continua a ser um excelente álibi.


Deixei a bagagem, passei para a sala de embarque e sentei-me à espera do voo DT471, programado para as 10h20.


Às 10h55 surgiu um pequeno detalhe.


O avião ainda nem sequer tinha saído de Luanda.


O pessoal da TAAG não sabia o que se passava.


Os passageiros não sabiam o que se passava.


Provavelmente o avião também não sabia o que se passava.


O único elemento consistente em toda a operação era a ausência de informação.


Mais uma vez.


Começo a suspeitar que a TAAG não é uma companhia aérea.


É uma experiência espiritual.


Um exercício de desapego.


Compramos um bilhete, entregamos as malas, fazemos planos, organizamos a agenda familiar e depois aprendemos a aceitar que o universo tem outros planos para nós.


Às 11h20, exactamente uma hora depois da hora prevista para o embarque, fomos finalmente informados de que o voo estava atrasado.


Uma informação que, para ser honesto, já tinha sido descoberta pelos passageiros há bastante tempo.


Entretanto, consultei a aplicação de rastreamento de voos.


Foi aí que obtive aquilo que a tecnologia moderna consegue fornecer com mais eficiência do que algumas companhias aéreas: respostas.


O avião acabava de descolar de Luanda.


Segundo a aplicação, levaria cerca de 1 hora e 28 minutos para chegar a Ondjiva.


Pela primeira vez naquela manhã, surgiu uma luz ao fundo do túnel.


Não era uma actualização da TAAG.


Era apenas matemática.


Fazendo as contas, tudo indica que hoje, afinal, durmo em casa.


O que, tratando-se da TAAG, já não é um plano.


É uma ambição.


Uma esperança.


Um acto de fé.


Mas pelo menos, desta vez, parece que a fé tem radar de voo. 

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