Lembro-me de estar nos Estados Unidos e de sentir uma discreta satisfação africana ao ouvi-la, na National Public Radio, analisar a política do continente. Havia naquela voz uma combinação rara de autoridade intelectual e clareza. Não era apenas alguém que conhecia os factos. A Sizaltina Cutaia parecia compreender os mecanismos invisíveis que empurram os factos de um lugar para outro, como correntes submarinas que raramente aparecem nos mapas.
Neste fim-de-semana, o meu amigo, o grande escritor Nigeriano Adewale Maja-Pearce, e eu tivemos o privilégio de almoçar em sua casa. Foi uma dessas ocasiões felizes em que uma reputação elevada não apenas resiste ao contacto com a realidade, como sai reforçada.
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O que mais me impressionou não foi a elegância do seu inglês, embora esse seja de uma precisão capaz de desencorajar muitos profissionais da vírgula. Foi, sobretudo, a amplitude do seu pensamento. Há pessoas que acumulam conhecimento como quem acumula mobiliário. A casa fica cheia, mas nem sempre habitável. Sizaltina pertence a uma categoria diferente: a daqueles que transformam experiência em compreensão.
Enquanto ela e Adewale percorriam temas como o patriarcado, a natureza do poder, a emancipação das mulheres, os estilos de liderança e os dilemas da governação africana, tive, por momentos, a sensação de assistir a uma conversa entre veteranos de campanhas longas e difíceis. Não campanhas militares, evidentemente. As guerras do pensamento deixam menos monumentos e mais cicatrizes invisíveis.
Percebia-se que Sizaltina não falava a partir da teoria pura. Falava como alguém que já atravessou numerosos campos de batalha institucionais; alguém que viu grandes projectos naufragarem ao primeiro contacto com a realidade; alguém que assistiu a carreiras promissoras serem destruídas por pequenas vaidades; alguém que carregou feridos quando organizações inteiras perderam o rumo; alguém que passou anos diante dos grandes modelos conceptuais da governação e da prestação de serviços públicos, tentando compreender por que razão aquilo que funciona tão bem num PowerPoint raramente funciona com igual elegância numa aldeia sem electricidade ou numa repartição sem papel.
Uma das qualidades mais impressionantes dos verdadeiros especialistas é a ausência de necessidade de exibir a sua especialização. Os inseguros recordam-nos constantemente aquilo que sabem. Os verdadeiramente experientes falam com a serenidade de quem já não tem nada a provar.
Foi precisamente essa serenidade que encontrei nela.
À medida que a conversa avançava, ocorreu-me que algumas pessoas passam a vida a estudar o poder. Outras passam a vida a exercê-lo. Poucas conseguem observá-lo de perto o suficiente para compreender, simultaneamente, as suas promessas, as suas ilusões e os seus perigos.
Sizaltina pertence a esse grupo raro.
Há, contudo, uma questão que me parece importante introduzir neste relato.
Depois de tantos parágrafos dedicados ao poder, ao patriarcado, à governação, à liderança e às complexidades da condição humana, talvez os leitores me perdoem se descer, por instantes, das alturas da teoria para uma matéria muito mais terrena.
Refiro-me ao almoço.
Confesso que raramente provei frango tão saboroso como o que nos foi servido naquele dia.
E aqui encontramos mais uma das pequenas injustiças da vida.
Não basta a algumas pessoas serem intelectualmente brilhantes. Não basta dominarem os grandes debates do seu tempo. Não basta compreenderem as subtilezas da política africana, os dilemas do desenvolvimento e as intricadas relações entre Estado, sociedade e poder.
Não.
Algumas dessas pessoas decidem ainda cozinhar extraordinariamente bem.
O almoço tinha sido preparado pela própria Sizaltina.
Era um espectáculo curioso. De um lado da cozinha surgiam panelas, aromas e travessas. Do outro continuavam a surgir reflexões sobre África, geopolítica, liderança, instituições e mudança social. Enquanto o frango se aproximava de níveis dificilmente compatíveis com a humildade cristã, a conversa navegava entre capitais africanas, organizações internacionais, crises políticas e possibilidades de futuro.
Nem sempre encontramos uma combinação tão harmoniosa entre o alimento do corpo e o alimento da mente.
Foi um privilégio assistir a ambos.
Quando finalmente nos sentámos à mesa, o resultado confirmou aquilo que os aromas já anunciavam. O frango era simplesmente excepcional.
Não possuo vocabulário gastronómico suficientemente sofisticado para o descrever. Posso apenas testemunhar que desapareceu com uma rapidez que teria despertado o interesse de observadores independentes.
No final da refeição restaram apenas duas peças no recipiente colocado ao centro da mesa.
Ainda hoje me recordo delas.
Olhei para as duas peças.
As duas peças olharam para mim.
Estabeleceu-se entre nós uma breve, mas intensa, relação diplomática.
Durante alguns segundos considerei seriamente avançar.
Infelizmente, décadas de educação familiar, socialização e convivência civilizada acabaram por prevalecer. Algures dentro de mim, uma voz insistia que devorar os últimos vestígios de um almoço memorável perante os restantes convivas talvez não constituísse a mais refinada demonstração de autocontrolo.
Foi uma vitória da etiqueta sobre o instinto.
Não estou inteiramente convencido de que tenha sido a decisão correcta.
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