O escritor e jornalista angolano Sousa Jamba manifestou descontentamento com a União dos Escritores Angolanos (UEA), alegando que a instituição impediu, à última hora, a apresentação pública do seu mais recente livro, A Casa das Duas Bíblias e Outros Contos, prevista para decorrer na sua sede, em Luanda.
Segundo o autor, a UEA teria inicialmente aceite acolher o lançamento da obra, editada pela Mayamba Editora, mas a autorização acabou por não se concretizar. Sousa Jamba considera que a decisão teve motivações políticas, sugerindo que a sua ligação à UNITA poderá ter influenciado o desfecho.
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Perante a impossibilidade de realizar o evento na sede da UEA, a apresentação do livro decorreu no dia seguinte, no auditório das Irmãs Paulinas, instituição ligada à Igreja Católica. O escritor afirmou ter registado uma forte adesão do público e disse não compreender aquilo que classificou como um acto de intolerância política, observando que o evento contou com a presença de representantes do MPLA, membros do governo local e outras personalidades da sociedade angolana.
Durante a apresentação da obra, Sousa Jamba anunciou ainda a intenção de distribuir exemplares do livro em várias localidades do país, incluindo Dondo, Kibala, Huambo, Catchiungo, Caála, Kuito e Cazombo, durante uma viagem terrestre que prevê realizar em breve até à Zâmbia, país onde reside.
UEA rejeita acusações
Em resposta às declarações do escritor, o secretário-geral eleito da UEA, Lopito Feijó, rejeitou a existência de qualquer motivação política na decisão e atribuiu o incidente a um problema de coordenação relacionado com a editora responsável pela obra.
Lopito Feijó afirmou que tomou conhecimento do caso apesar de não se encontrar em Luanda na altura dos acontecimentos e considerou infundadas as acusações de discriminação política. Segundo o dirigente, a UEA integra escritores com diferentes sensibilidades políticas, citando como exemplos os escritores Nelson Pestana “Bonavena” e Rui Augusto.
De acordo com a sua versão, a Mayamba Editora terá divulgado a data do lançamento antes da obtenção da autorização formal da instituição. Feijó explicou que as quartas-feiras são tradicionalmente reservadas para actividades próprias da UEA, nomeadamente debates e eventos destinados aos seus membros, pelo que outras datas estariam disponíveis para acolher a apresentação do livro.
O dirigente acrescentou que uma comunicação prévia entre os organizadores do evento e a direcção da instituição poderia ter evitado o mal-entendido. Na sua opinião, o caso não deve ser interpretado como um episódio de intolerância política, mas sim como uma falha de coordenação administrativa.
Debate sobre liberdade e pluralismo cultural
O episódio gerou debate nas redes sociais e entre sectores do meio literário angolano, com alguns observadores a levantarem questões sobre a abertura das instituições culturais à diversidade de opiniões políticas e outros a defenderem que o caso resulta apenas de procedimentos internos e problemas de comunicação.
Até ao momento, não foram divulgados documentos públicos que comprovem as alegações de discriminação política apresentadas por Sousa Jamba, nem a UEA anunciou a realização de qualquer averiguação formal sobre o sucedido.
Salas Neto
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