Adventistas da Alemanha do Huambo…- Sousa Jamba

 


Enquanto preparo a partida do Huambo para Kitwe, na Zâmbia, a bordo do velho Land Cruiser, todos parecem empenhados numa delicada missão de engenharia: convencer o automóvel de que ainda lhe resta uma longa vida pela frente. Faltava-lhe uma peça, uma dessas pequenas criaturas metálicas que, enquanto estão no lugar, ninguém nota, mas que, uma vez desaparecidas, adquirem subitamente a dignidade de um órgão vital.


Passei, por isso, a tarde de sábado no Mercado Alemanha, no Huambo, à procura da peça. Quem nunca percorreu um mercado africano à procura de um componente automóvel talvez imagine que basta perguntar, encontrar e comprar. É uma visão ingénua. A procura de uma peça é menos um acto comercial do que uma peregrinação: anda-se de banca em banca, escutam-se diagnósticos gratuitos, recebem-se indicações contraditórias.


Sendo sábado, muitas bancas permaneciam fechadas. Pertenciam a membros da Igreja Adventista do Sétimo Dia, para quem aquele é dia de repouso e culto. Explicaram-me que os adventistas não são apenas presença marcante no mercado; são também proprietários de boa parte das carrinhas de transporte colectivo da cidade, e por isso, aos sábados, há menos táxis disponíveis;  muitos donos preferem perder um dia de receita a negociar com a própria consciência. Há qualquer coisa de admirável numa comunidade capaz de mandar o dinheiro esperar. Talvez seja essa uma das raras ocasiões em que o comércio obedece à religião, em vez de a religião aprender a fazer publicidade.

À medida que a conversa prosseguia, detectei, porém, um certo tom acusatório. Em Angola, o sucesso alheio raramente é recebido apenas com admiração; antes de se aceitar que alguém trabalhou bem, procura-se descobrir a que igreja pertence, quem lhe abriu a porta, que segredo duvidoso se esconde atrás da caixa registadora.


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Disseram-me, contudo, que os adventistas cuidam uns dos outros. Possuem redes de membros em Luanda e noutras partes do país; alguns viajam à China, compram mercadorias e enviam-nas a irmãos da igreja no Huambo, muitas vezes a crédito. O comerciante recebe, vende, e devolve o dinheiro com base apenas na palavra dada. Não há contratos extensos nem advogados de gravata triste. Há confiança;  e a confiança, quando funciona, é uma instituição financeira que não cobra comissão. É relativamente fácil acreditar na eternidade; mais difícil é acreditar que o primo, depois de vender vinte caixas de peças, não desaparecerá com a receita.


No nosso meio, essa confiança é mais rara do que a própria peça do Land Cruiser. Entrega-se mercadoria a um parente e começa imediatamente uma nova disciplina espiritual: a oração pelo regresso do dinheiro. Há parentes que interpretam confiança como doação, amigos que confundem sociedade comercial com assistência social, intermediários que consideram a comissão um direito humano fundamental.


Vi um pequeno exemplo disso no próprio mercado. Um homem acompanhava-me de banca em banca, com a generosidade aparente de quem desejava ajudar um viajante aflito. Ao aproximarmo-nos de outro vendedor, piscou-lhe o olho várias vezes: um rudimentar contrato comercial, que queria dizer «este homem precisa da peça — subamos o preço e dividimos a diferença». Quando finalmente apareceu um artigo semelhante, apresentaram-me um preço tão elevado que a peça parecia ter sido fabricada por engenheiros suíços, benzida em Roma e transportada no banco da frente de um avião. O vendedor não estava a vender metal. Estava a vender a minha urgência.


Compreendi então melhor o elogio feito aos adventistas: dentro das suas redes, a honestidade não é ornamento de sermão, é método de trabalho. Uma fraude não comprometeria apenas o indivíduo; mancharia a igreja, a família, toda a cadeia de confiança que permite às mercadorias circular sem que cada caixa precise de polícia, advogado e pastor.

Muitos adventistas, por observarem o sábado, encontraram dificuldades no emprego convencional, e acabaram por criar os próprios negócios. Um empregado recebe salário; um proprietário constrói património. Ao longo de vinte ou trinta anos, a diferença torna-se enorme;  e o resultado está à vista: lojas, oficinas, frotas de carrinhas, ligações comerciais. A prosperidade, em Angola, costuma provocar duas reacções simultâneas: admiração em voz baixa e suspeita em voz alta, pois reconhecer disciplina e cooperação seria demasiado simples e, sobretudo, demasiado incómodo.


Disseram-me ainda que os adventistas tendem a casar entre si. Durante muito tempo, quem desejasse casar com dinheiro em Angola procurava famílias ligadas ao poder político; hoje existe outro pólo de prosperidade, construído em mercados, armazéns e redes comerciais, ao qual não se acede apenas com um bom fato ou um apelido conveniente; é preciso partilhar hábitos, crenças, e a disponibilidade para acordar cedo ao domingo, depois de descansar no sábado.


Talvez seja essa a verdadeira vantagem: não um milagre financeiro, nem uma conspiração, mas a descoberta aparentemente revolucionária de que a honestidade dá lucro. Um trapaceiro faz um excelente negócio uma vez; um homem digno faz negócios durante vinte anos. Os adventistas parecem ter compreendido uma verdade que muitos cursos de gestão conseguem obscurecer com gráficos: o carácter também é capital. A confiança, ao contrário do Land Cruiser, não precisa de peça sobressalente. Mas, quando se estraga, é muito mais difícil encontrá-la no Mercado Alemanha.

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