Quem tem padrinho na cozinha não morre de fome. Quem tem amigo ganha acesso. Quem tem compadre ganha influência. Isaac Francisco Lucas Somaquesenje tem 44 anos. É o trigésimo sétimo soberano do Reino do Bailundo. O seu título tradicional é Ekuikui VI Tchongolola Tchongonga. Foi uma figura importante para a CIVICOP. Acompanhou as buscas por ossadas de vítimas do conflito armado. As operações decorreram em várias zonas do seu reino.
Fernando Garcia Miala, director do SINSE e um dos responsáveis da CIVICOP, comandava os trabalhos. Os dois passavam muito tempo juntos. Conversavam durante horas. O Rei fazia-se acompanhar da sua consorte, Albertina Lucas. Estava grávida. Conta-se que Fernando Garcia Miala se ofereceu para padrinho da criança ainda antes do nascimento. O príncipe nasceu. Tem hoje três anos. Chama-se Fernando Lucas. O nome Fernando terá sido escolhido em homenagem ao padrinho. Em casa tratam-no por Fernandinho.
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A proximidade entre as duas famílias era evidente. Eram tempos de grande sintonia. Só se ouviam elogios. Só se ouviam bênçãos. Depois vieram tempos mais frios. As relações arrefeceram. Agora, segundo várias fontes, voltaram a aquecer. Há poucos dias, a Subcomissão de Candidaturas reprovou a candidatura de Higino Carneiro. Alegou várias irregularidades. Quarenta e oito horas depois, Higino reagiu. Fê-lo através de um áudio. Afirmou que o Rei do Bailundo e familiares seus assinaram fichas de apoio à sua candidatura. Isaac Somaquesenje não respondeu de imediato.
Fontes próximas do processo garantem que, antes de quebrar o silêncio, o Rei do Bailundo foi chamado a Luanda. Terá mantido longas conversas com o compadre Fernando Garcia Miala. Depois regressou ao Bailundo. Dias mais tarde, foi organizada uma conferência de imprensa. Nessa ocasião, o soberano desmentiu Higino Carneiro. A sequência dos acontecimentos não passou despercebida aos observadores mais atentos.
Se alguém disser que a declaração do Rei foi induzida, haverá quem concorde. Se alguém admitir que o soberano falou com o compadre antes de falar com os jornalistas, também não faltarão adeptos dessa tese. Daí ao surgimento de especulações sobre o papel de Fernando Garcia Miala nesta fase pré-congressual foi apenas um passo. A política alimenta-se de percepções. E as percepções alimentam-se de coincidências. Nesta quarta-feira, um batalhão de jornalistas ouviu o soberano do Bailundo. Falou o pai de Fernandinho. Falou o compadre de Fernando Garcia Miala. O Rei quebrou o silêncio. Desmentiu Higino Carneiro.
Silêncio mediático. Fontes geralmente bem informadas garantem que os órgãos públicos de comunicação social foram orientados a não noticiar a notificação do Tribunal Constitucional à Comissão Nacional Preparatória do IX Congresso Ordinário do MPLA. A providência cautelar foi apresentada por Higino Carneiro. No MPLA de hoje, até os silêncios têm filiação. Têm amigos. E têm compadres. O Rei do Bailundo que o diga.
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