Os Eritreus na Terra dos Chindondos- Sousa Jamba

 



Ontem, enquanto deambulava pelas aldeias do Planalto Central, fui dar a uma que todos apresentavam, com uma espécie de orgulho hereditário, como a terra dos Chindondos. Não era uma informação lançada ao acaso. Diziam-no com a solenidade de quem anuncia uma linhagem antiga, uma dessas famílias que parecem ter deixado não apenas descendentes, mas também uma maneira própria de ocupar o mundo.


Contei-lhes, então, que a minha madrinha, Marta Kuliposa, era Chindondo. O nome produziu imediatamente aquele pequeno estremecimento que percorre uma comunidade quando o passado, por instantes, deixa de ser passado. Conheciam-na. Os mais velhos, depois de remexerem nos arquivos da memória, lembraram-se também de Lourenço Chinyangwa, seu marido. Durante alguns minutos, senti-me menos um visitante do que um parente atrasado, finalmente chegado a uma conversa iniciada muitos anos antes.

Fisioterapia ao domicílio com a doctora Odeth, liga agora e faça o seu agendamento, 923593879 ou 923328762

A aldeia revelava prosperidade. Não a prosperidade ruidosa das cidades, sempre ansiosa por exibir recibos, telefones e paredes recém-pintadas, mas uma abundância mais discreta, pousada nas coisas úteis. Havia motorizadas por toda a parte. As mulheres deslocavam-se nos seus triciclos motorizados, os célebres kaleluyas, máquinas que transportam sacos, crianças, compras e, em certas ocasiões, talvez metade da economia familiar.


As casas erguiam-se entre árvores enormes. Abacateiros, mangueiras, goiabeiras e outras árvores de fruto estendiam os ramos sobre os quintais, como se a própria terra tivesse decidido oferecer sombra e sobremesa. Havia ali uma profusão vegetal que tornava cada casa semelhante a um pequeno reino agrícola, com frutos suspensos sobre os telhados e galinhas a circular por baixo, ocupadas nos seus assuntos de Estado.


As crianças pareciam bem cuidadas, robustas e tranquilas. Não traziam no rosto aquela expressão fatigada que, por vezes, se encontra em lugares onde a infância começa cedo demais a carregar as contas dos adultos. Corriam, observavam-nos, riam e regressavam às brincadeiras com a segurança de quem sabe que pertence inteiramente ao lugar.


Mas o que mais me impressionou foi a organização. A aldeia tinha latrinas e, para minha surpresa, as latrinas estavam limpas por dentro. Pode parecer uma observação modesta, quase indigna de literatura, mas há países inteiros onde os discursos sobre o progresso são muito mais asseados do que as instalações sanitárias. Ali, porém, a limpeza não parecia ter sido preparada para a visita de ninguém. Era um hábito. Uma disciplina antiga, talvez silenciosa, transmitida sem seminários, sem cartazes e sem consultores.


Ao longe, vi também algumas pessoas que, pelo porte, pelas feições e, talvez, pela maneira de se moverem, me pareceram claramente estrangeiras. Disseram-me que eram eritreus. A notícia agradou-me. Sou, por instinto, um pan-africanista talvez irremediável. Continuo a acreditar que um africano deveria poder viver onde entendesse dentro deste continente, sem que cada fronteira lhe exigisse um passaporte, um carimbo, uma fotografia, uma taxa e, por vezes, a humilhação adicional de provar que não veio perturbar a paz de ninguém.


Se um angolano quiser instalar-se na Eritreia, deveria poder fazê-lo. Se alguém do Mali quiser viver em Angola, trabalhar, abrir uma oficina, cultivar a terra ou vender mercadorias, deveria ser recebido como africano, e não examinado como se transportasse consigo uma calamidade internacional. Herdámos do colonialismo fronteiras traçadas por homens que conheciam melhor as mesas sobre as quais desenhavam os mapas do que os povos que separavam. E, no entanto, tratamos essas linhas como se tivessem sido gravadas por Deus nas montanhas.

Precisamos de circular livremente, de procurar trabalho, de criar negócios e de aprender uns com os outros. Mais do que isso, precisamos de celebrar a diversidade que transportamos: as línguas, as cozinhas, as músicas, as roupas, as religiões, os sotaques e as diferentes maneiras de organizar a vida. A força de África não nascerá de uma uniformidade inventada. Nascerá precisamente dessa variedade, desde que tenhamos inteligência suficiente para não confundir diferença com ameaça.


Mais tarde, disseram-me que, naquela aldeia, como noutras  da região, o solo fora abençoado com substâncias preciosas. A terra escondia riquezas que os habitantes sempre haviam pisado sem conhecer inteiramente o seu nome, o seu preço ou o interesse que despertavam muito para além das montanhas do Planalto. Os eritreus, segundo me explicaram, traziam experiência e a capacidade de reconhecer aquilo que, aos olhos dos outros, parecia apenas pedra, areia ou uma mancha diferente no chão.


Talvez devamos agradecer a esses irmãos por ajudarem a abrir os olhos das comunidades para as bênçãos escondidas debaixo dos seus próprios pés. Durante demasiado tempo, África exportou riquezas cujo valor só lhe era explicado depois de chegarem a Londres, Genebra ou Nova Iorque, de preferência já transformadas em acções, contratos e fortunas respeitáveis. No lugar de origem, ficavam frequentemente um buraco no chão, alguma poeira e um discurso oficial sobre o desenvolvimento.

A extracção dessas riquezas deve, evidentemente, ser feita com responsabilidade. O Governo precisa de abordar a questão com abertura, imaginação, seriedade e sofisticação. Não basta permitir que alguns espectadores, instalados em escritórios climatizados em Genebra ou Nova Iorque, carreguem em botões e vejam os números subir nos seus ecrãs. A riqueza do subsolo tem de melhorar a vida de quem mora por cima dele.


Isso significa escolas, centros de saúde, estradas, água, electricidade e oportunidades reais para os jovens. Significa também conhecimento. Se um eritreu é especialista em identificar minerais, deve poder transmitir essa experiência aos jovens angolanos. O verdadeiro investimento não consiste apenas em retirar pedras da terra. Consiste em deixar capacidade nas pessoas.


Talvez por isso a presença daqueles eritreus na terra dos Chindondos me tenha parecido, afinal, um bom sinal. Ali estavam eles, entre abacateiros, motorizadas, crianças e kaleluyas, trazendo consigo experiência, conhecimento e uma história africana diferente. Não vinham diminuir a aldeia. Podiam, pelo contrário, alargar-lhe o horizonte.

Lil Pasta News, nós não informamos, nós somos a informação 

Postar um comentário

0 Comentários