Amigos meus sabem que não partilho qualquer nostalgia da guerra em Angola, felizmente passada. Mas sou cultor de uma irrenunciável fidelidade, perante a memória dos melhores companheiros que fomos perdendo ao longo da caminhada. Começamos em 1975.
Publico hoje esta fotografia especial em jeito de uma homenagem serena, digna e profundamente humana, esperando que ela esteja à altura da vida que vivemos naqueles tempos involucrados nas entranhas escuras e húmidas das trincheiras.
Não foi fácil, mas teve de ser.
Na vida, muitos repórteres de fama mundial fizeram fotografias icônicas de conflitos que jamais envelhecem com o correr do tempo. No entanto, existem outros, que fizeram imagens que são elas próprias que nos envelhecem.
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Jamais partilho escritos e imagens que transmitam a doentia nostalgia da guerra como tal. Mas gozo da prerrogativa de nunca abdicar da fidelidade aos companheiros que ficaram pelo longo caminho. Quantos foram eles? Já não consigo contá-los, afinal foram mais de cinquenta anos de luta.
Publico uma fotografia resgatada do baú das recordações. Pretendo apenas render uma homenagem serena, digna e profundamente humana, à altura da vida que vivemos durante várias décadas.
A foto foi tirada precisamente em 1993. Tempos em que Angola escrevia o seu destino com tinta de pólvora, sangue e lágrimas.
O “click” foi dado pelo nosso inesquecível companheiro Kito Neves da Angop. Estou eu, de chapéu e com um abacaxi à cinta, o John Liebenberg, um extraordinário fotógrafo namibiano. Depois está o grande Onça Velosa, companheiro da Rádio Nacional de Angola e de inúmeras jornadas. Ao lado aparece o rosto de um menino da Ganda, cujo nome nem eu nem a História registamos, mas cujo olhar continua preso ao instante daquele instante de um dia no Mercado da Ganda, uma película com som de canhões e rebentamento de bombas.
Hoje, nesta bela noite de sexta-feira-feira, que Deus nos concede o privilégio de viver, olho com lágrimas para esta imagem e repentinamente descubro a existência de uma verdade silenciosa.
A trajectória de todos os adultos que ali estão grafados, incluindo o fotógrafo, apenas eu continuo a caminhar entre os vivos. Certo dia, John partiu para a eternidade num estupido acidente caseiro em sua casa, na Namíbia. Mais tarde, Onça partiu doente, no Cunene, onde tempos antes nos demos a derradeira despedida, após um pirão com molho de carne e promessas de breve reencontro. Eras tão novo, momano!
A morte do Kito, o autor da foto, no Huambo, foi um golpe devastador. Depois, vem aquela criança enigmática com a idade de um dos meus filhos… não sei quais caminhos Deus reservou a tão frágil ser.
No final das contas, simplesmente fiquei eu. Pobre e feio., para que conste nos arquivos.
Não publico essa foto religiosamente guardada para celebrar uma suposta e incrível sobrevivência. A História prova que ninguém vence verdadeiramente uma guerra.
Então, acredito que o meu Pai preservou-me para guardar memórias. Para testemunhar o calvário que vivemos. Pouparam-me para contar aos que vieram depois, que aqui existiram jornalistas de verdade, aqueles que trocaram voluntariamente o conforto dos seus lares para lutarem pela verdade. Homens que de peito aberto enfrentaram emboscadas, fome, minas, noites intermináveis nas trincheiras e o medo permanente, apenas para que o sofrimento de um povo generoso não morresse no silêncio.
Não tenho e nunca terei saudades da maldita guerra. Não, nem, nunca e jamais.
Tenho sim, saudades daqueles homens de rija têmpera, cujas trajetórias cruzaram com a minha, naqueles inolvidáveis tempos.
Nostalgia verdadeira dos grandes companheiros que dividiam com sorrisos largos um pedaço de pão, um gole de água, ou uma gargalhada improvável no meio do caos vigente.
Inesquecíveis repórteres que sabiam que uma máquina fotográfica ou um bloco de notas podiam ser tão perigosos quanto qualquer arma, porque a verdade sempre incomoda quem vive da mentira.
No que me toca, parece-me assaz estranho que tenha sobrevivido a tantos companheiros que passaram. Carrego assim, a responsabilidade que ninguém explicitamente me pediu, a de tornar-me depositário da memória dos que já não podem contar a sua versão dos factos.
Nessas circunstâncias, uma simples fotografia transforma-se num reencontro doloroso com o passado. Cada rosto estampado nesse modesto rectângulo, significa uma conversa interrompida sem aviso prévio no decurso da vida. O silêncio sepulcral dos caídos responde mais do que qualquer reportagem que alguma conseguimos escrever.
Acredito que Deus, na Sua insondável sabedoria, decidiu que eu continuasse por mais algum tempo. Não para esquecer, apenas para lembrar alguns mambos daqueles tempos.
Então, procuro sempre honrar os nomes conhecidos e também os anónimos, como aquele rapaz da fotografia, pessoas que viveram dias em que a infância e a guerra caminhavam na mesma estrada.
Entretanto meus cabelos vão embranquecendo, foi aqui, foi ali. Existem cicatrizes invisíveis permanecem no corpo e na alma como carraças em cão sarnento. Mas continuo a acreditar que o maior dever de um repórter não é procurar o perigo, mas impedir que a verdade seja sepultada com os mortos.
Esta fotografia não retrata uma geração que atravessou o inferno para que a História pudesse ser escrita com honestidade.
Enquanto Deus me der a graça de respirar, eles continuarão vivos nas minhas palavras. há mortos que nunca desaparecem. Eles viverão para sempre na memória daqueles que tiveram o privilégio de lhes chamar… companheiros.
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