TRÊS NOMES, UMA HISTÓRIA E UM DESENTENDIMENTO EVITÁVEL- Rui Kandove



Era uma vez três nomes, três amigos e três figuras de peso da política angolana.

Apesar de percursos distintos, havia entre eles um denominador comum: a política.

William Tonet, filho do nacionalista Guilherme Tonet, fez da política uma parte central da sua vida. Ainda muito jovem, acompanhou o pai nas matas durante a luta de libertação, tendo vivido a experiência de soldado-criança. Mais tarde integrou as FAPLA, onde conviveu com o então comandante Nito Alves. Independentemente das simpatias ou antipatias que desperta, é inegável a sua longa ligação ao MPLA.

Abel Chivukuvuku é, para muitos, um dos mais destacados políticos angolanos da sua geração. A sua trajetória na UNITA marcou uma época, antes de seguir um percurso político próprio, que culminou na liderança do PRA-JA Servir Angola.



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Lindo Bernardo Tito, por sua vez, destacou-se como um jovem líder da bancada parlamentar do PRS, conquistando notoriedade pela sua irreverência e pela defesa firme dos interesses dos angolanos, em particular das populações do Leste.

Ao analisar estas três figuras, percebe-se que todas acumularam um capital político considerável. Ao lado do Almirante André Mendes de Carvalho “Miau”, foram protagonistas do desempenho expressivo da coligação CASA-CE, sobretudo nas eleições gerais de 2012, quando a organização se afirmou como uma das principais novidades do panorama político nacional.

Entretanto, a convergência política e a amizade que pareciam uni-los acabaram por se desfazer. William Tonet foi um dos primeiros a afastar-se da CASA-CE. Mais tarde, Abel Chivukuvuku também abandonou o projeto político, sendo acompanhado por Bernardo Tito. Posteriormente, o próprio Almirante “Miau” viria igualmente a deixar a coligação que ajudou a construir.

Hoje, um novo episódio reaviva antigas divergências. William Tonet afirma que a CASA-CE lhe deve valores correspondentes ao arrendamento, entre 2013 e 2020, de um apartamento situado na Rua Maria Nguambi, rés-do-chão, imóvel de sua propriedade. Segundo o jornalista e político, existem contratos e outros documentos que comprovam a relação contratual e a dívida que reclama, sustentando que nunca recebeu os montantes em causa.

Em defesa de Abel Chivukuvuku, Bernardo Tito elevou o tom do debate público. Entre as declarações que fez, afirmou que Abel Chivukuvuku teria sido uma das primeiras pessoas a confortar pessoalmente William Tonet após o trágico acidente que vitimou o seu filho. Posteriormente, a direção do PRA-JA Servir Angola divulgou uma posição pública contestando essa versão.

Bernardo Tito desafiou igualmente William Tonet a apresentar provas da alegada dívida. Em resposta, Tonet tornou públicos documentos que, segundo afirma, comprovam a existência do contrato e dos valores reclamados. Caberá às partes e, se necessário, às instâncias competentes determinar o alcance e a validade desses documentos. Ainda assim, a divulgação da documentação deslocou o debate do plano estritamente político para o plano da prova documental, aumentando a intensidade da controvérsia pública.

No final, fica a sensação de que esta é uma polémica que dificilmente beneficia qualquer das partes. Entre antigos companheiros de luta política, um diálogo reservado poderia, eventualmente, ter produzido resultados mais construtivos do que a troca pública de acusações.

Na política, a memória raramente desaparece. Os documentos permanecem, as palavras deixam marcas e os conflitos do passado tendem a ressurgir quando menos se espera.

Este episódio suscita ainda uma reflexão mais profunda: até que ponto a unidade que outrora aproximou estas figuras foi construída sobre convicções sólidas ou sobre circunstâncias e interesses conjunturais? Se a intriga foi, em algum momento, um instrumento de coesão, não surpreende que, mais tarde, também se tenha transformado num fator de desagregação.

A política ensina que alianças sustentadas mais pela conveniência do que pela confiança dificilmente resistem à prova do tempo. Quando a confiança se rompe, documentos, memórias e palavras passam, muitas vezes, a ocupar o centro do confronto político. E, nesses momentos, preservar o respeito institucional e o compromisso com a verdade torna-se tão importante quanto vencer o debate público.

Na condição de político experiente e de uma das principais figuras que aproximou William Tonet e Bernardo Tito no projeto da CASA-CE, seria legítimo esperar de Abel Chivukuvuku um papel mais ativo na promoção do diálogo e da conciliação entre antigos companheiros. Muitas vezes, espera-se dos líderes mais experientes precisamente essa capacidade de impedir que divergências políticas evoluam para inimizades pessoais.

É impossível afirmar se uma intervenção sua teria evitado a atual polémica. Contudo, este episódio recorda que a grandeza de um líder não se mede apenas pela capacidade de mobilizar apoios ou conquistar votos, mas também pela habilidade de construir pontes, reconciliar interesses e preservar relações políticas. Afinal, os mais velhos ocupam, tradicionalmente, esse lugar de equilíbrio e de mediação.

Talvez seja precisamente essa dimensão da liderança — a capacidade de manter unidas pessoas com percursos, personalidades e interesses distintos — um dos maiores desafios da vida política. Quando essa mediação falha, todos perdem: os protagonistas, os projetos políticos e, sobretudo, a qualidade do debate público.

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