Na Espanha, já muito doente, o Mano Victorino Hossi falou-me da morte. Ou, mais exactamente, recusou-se a falar dela como eu esperava. Disse-me que não tinha medo de morrer. O que o atormentava era outra coisa: a companheira que o acompanhava aos tratamentos e assistia, impotente, à degradação do corpo. Estava ele próprio diante da morte e preocupava-se com a dor de quem ficaria. Nunca mais esqueci isso.
Há homens cuja bondade se manifesta nas grandes causas, nas instituições, nos discursos. E há uma bondade mais funda, quase clandestina, que só se revela quando já não há público, nem vantagem, nem futuro. Talvez seja essa a prova decisiva: reparar na dor de outra pessoa quando a nossa própria já ocupa todo o horizonte.
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Foi assim que me despedi, sem saber que me despedia, do Dr. Victorino Hossi. Para nós, simplesmente, Mano Hossi.
Depois da morte de certas pessoas ocorre um fenómeno estranho. Primeiro chegam os títulos, como se a sociedade, embaraçada, tentasse organizar o morto num currículo: ministro do Comércio, membro do Tribunal Constitucional, jurista, intelectual. Tudo verdadeiro. Tudo insuficiente.
O homem era maior do que a enumeração.
Possuía uma sofisticação rara; não a que se compra em aeroportos e alfaiatarias, e que por vezes se resume a um sotaque novo e a uma pequena intolerância pelos próprios parentes. A sua vinha de outro lugar; era disciplina interior. Lia, escutava, interrogava-se; herdeiro dos bons seminários católicos, onde a fé séria nunca foi máquina de certezas, mas maneira exigente de conviver com perguntas.
Não exibia cultura; habitava-a.
Talvez por isso pudesse citar latim sem produzir no resto da sala a sensação de estarmos a ser examinados.
Quando lancei o meu livro em Luanda, apareceu apesar da doença, vestido num fato impecável. Não me pareceu vaidade. Pareceu-me cortesia. Alguns homens vestem-se bem para serem vistos. Outros vestem-se bem porque consideram os outros dignos do esforço.
Falou. A certa altura citou uma frase em latim. Já não consigo reconstruí-la palavra por palavra. Ficou-me apenas o sentido: como é bom estarmos reunidos entre amigos.
Na altura achei bonito.
Hoje parece-me profético.
Porque o Mano Hossi sabia ser amigo numa época em que a palavra amizade se tornou extraordinariamente barata. Chamamos amigos a pessoas cujo aniversário é um algoritmo que nos recorda e cuja vida conhecemos sobretudo através de fotografias. Com ele era diferente.
Estive várias vezes no apartamento do Kinaxixi. Havia jantares, música, vinho, argumentos, gargalhadas. Recebia-nos com uma alegria generosa. Não nos oferecia apenas comida; dava-nos atenção. Isso é muito mais raro.
Mais tarde, foi nesse apartamento que encontraram o seu corpo sem vida.
A morte tem esta crueldade administrativa: muda retrospectivamente a função das coisas. Uma cadeira deixa de ser uma cadeira. Uma mesa passa a ser o lugar onde alguém se sentava. Uma sala torna-se depósito de vozes. Um copo sobrevivente adquire uma importância que nunca pediu.
Mas recuso-me a deixar que aquele apartamento seja dominado pela morte. Prefiro lembrar os jantares, o som das conversas, o Mano Hossi vivo. E, sobretudo, prefiro a música.
Partilhávamos o amor pela música clássica e, de maneira especial, por Jean Sibelius: dois africanos do Planalto Central de Angola fascinados por uma música nascida entre lagos, florestas, neve e silêncio.
À primeira vista, Hämeenlinna fica muito longe do Huambo: geograficamente, talvez; musicalmente, nem sempre.
Há em Sibelius uma vastidão que me fazia pensar no interior de Angola, nos grandes céus e nas colinas do Planalto Central. Há também uma melancolia austera, sem sentimentalismo fácil, uma tristeza que aprendeu a transformar-se em forma.
O Mano Hossi compreendia isso.
Falávamos em fazer uma peregrinação a Hämeenlinna, onde Sibelius nascera. Chamávamos-lhe peregrinação deliberadamente: turismo seria demasiado pouco.
Nunca fomos.
Agora Hämeenlinna tornou-se uma das cidades que conheço sem ter visitado.
Mas a ligação dele à terra vinha de mais longe do que a música: de Tchicala Tcholoanga, da Missão do Cuando, do seminário do Quipeio; do próprio Planalto Central, que nele permanecia vivo. Movia-se entre instituições e salas formais sem a doença peculiar de certas ascensões sociais: a necessidade de provar que já não pertencemos ao lugar de onde viemos.
Sabia de onde vinha; e precisamente por isso podia ir longe. Havia nisso uma elegância moral.
Talvez fosse por isso que nos entendíamos em Sibelius: a grande música não exige que abandonemos a nossa terra; o finlandês não nos afastava do Planalto, devolvia-nos a ele por outro caminho.
Agora penso frequentemente na viagem que não fizemos.
Durante algum tempo imaginei-a com tristeza: nós dois em Hämeenlinna, talvez diante da casa onde nasceu Sibelius, provavelmente a discutir uma sinfonia, seguramente a discordar de algum detalhe absolutamente inútil e, por isso mesmo, essencial.
Mas começo a pensar que a viagem não ficou inteiramente por fazer.
Fizemo-la nas conversas, nos jantares, naquela tarde em que ele apareceu no lançamento do meu livro, impecavelmente vestido, citou latim e falou da felicidade de estarmos reunidos. E fizemo-la, sobretudo, naquela última conversa em Espanha.
O homem sabia que estava a morrer. Poderia ter falado da sua angústia, da injustiça, do tempo perdido. Em vez disso, falou-me da companheira ao seu lado e do sofrimento dela.
É difícil imaginar definição mais precisa de bondade.
A morte retirou-nos o Mano Victorino Hossi. Levou o ministro, o magistrado, o intelectual, o anfitrião, o amigo. Levou também a possibilidade daquela viagem ao norte da Europa.
Mas não conseguiu levar aquilo que realmente importava.
Quando voltar a ouvir Sibelius, sei exactamente o que acontecerá.
Algures entre a música da Finlândia e as colinas do Planalto Central, Mano Hossi voltará a entrar na sala.
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