A África do Sul anunciou uma operação de repatriamento dos restos mortais de militantes anti-apartheid que morreram no exílio. As equipas de investigação sul-africanas identificaram em Angola 89 sepulturas e cerca de 400 locais destinados a escavações. Segundo Pretória, foi em Angola, então mergulhada numa guerra civil, que morreu o maior número de combatentes do ANC durante o regime do apartheid. Porque se deslocavam até Angola? Quais eram os seus laços com o MPLA, que então travava uma guerra contra a UNITA? Para que serviam estes campos de treino? Uma análise desta página da história.
Mais de 1 000 activistas anti-apartheid morreram no exílio, na Europa e em Cuba, e em vários países africanos, como a Tanzânia, o Zimbabué ou Angola, segundo Pretória. Após os motins de Soweto, em 1976, e a repressão do regime do apartheid que se seguiu, milhares de jovens sul-africanos fugiram do seu país. Muitos deles dirigiram-se então para Angola, recentemente independente (1975), que se tornou um país marxista-leninista da chamada "linha da frente", empenhado em apoiar a luta contra o apartheid, tal como as guerrilhas independentistas de outros Estados da África Austral (Zimbabué, Namíbia).
Na mesma altura, a guerra civil assolava Angola, opondo o MPLA marxista-leninista, apoiado por Cuba e pela URSS, à UNITA de Jonas Savimbi, apoiada pelos Estados Unidos e pela África do Sul do apartheid.
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O MPLA angolano, marxista-leninista e apoiante da luta contra o apartheid, acolheu dirigentes do ANC no seu território. Em contrapartida, embora de forma não oficial, esperava-se do movimento sul-africano uma cooperação na guerra civil angolana, ao lado do MPLA, como relata Justin Pearce, investigador da Stellenbosch University e especialista nos movimentos de libertação de Angola e Moçambique.
Os dirigentes do ANC no exílio começaram então a organizar campos militares para acolher os jovens que fugiam do regime do apartheid, com o objectivo de os politizar e formar para o combate. Mas uma parte deles "não tinha qualquer vontade de combater", salienta Didier Péclard, director do mestrado em Estudos Africanos da Universidade de Genebra. "Há sempre um debate sobre se a sua presença nas linhas da frente angolanas era voluntária ou imposta".
Além disso, salienta Didier Péclard, a direcção do MPLA era acusada de recrutar jovens para as FAPLA, o seu braço armado. Alguns combatentes sul-africanos não viam, por isso, por que razão deveriam eles próprios combater.
Motins e rebeliões
"Havia descontentamento, motins e rebeliões por parte dos militantes contra os seus dirigentes", observa Justin Pearce. Para ele, este aspecto da história do ANC continua pouco conhecido, tendo em conta os abusos cometidos durante o período do exílio. "Uma grande parte dos militantes do ANC exilados em Angola morreu nas prisões do movimento, depois de se ter rebelado contra os seus dirigentes".
Os membros do Mkhonto we Sizwe, braço armado do ANC, "queriam ser enviados para a África do Sul para combater as forças de segurança do apartheid, em vez de lutarem contra um inimigo longe de casa", corrobora o investigador sul-africano Luvuyo Zantsi.
Num artigo dedicado aos motins nos campos do ANC em Angola, publicado em 2019 na revista Journal of Global Faultlines, escreve que estes episódios constituíram "uma das ameaças mais graves que o ANC teve de enfrentar durante os seus anos de exílio". Os líderes destas tentativas de rebelião foram detidos e encarcerados.
No seu artigo, o investigador Luvuyo Zantsi relata alguns exemplos: "quatro camaradas de um mesmo campo foram detidos pelos serviços de segurança do ANC e pelas FAPLA, depois de terem percorrido cerca de 200 km a pé até à sede, em Luanda, para expressarem a sua frustração". Outros morreram de doença, enquanto outros ainda morreram na linha da frente da guerra civil angolana. Segundo Justin Pearce, os sul-africanos realizavam "missões de reconhecimento", por vezes fatais, e "participavam por vezes directamente nos combates contra a UNITA".
As forças de Jonas Savimbi eram, aliás, descritas pelo MPLA e o ANC como "o braço armado do exército sul-africano". As duas facções sul-africanas — o exército regular, que apoiava a UNITA, por um lado, e os militantes do ANC, que apoiavam o MPLA, por outro — acabavam, assim, por se enfrentar em terreno angolano.
Foi no sul de Angola que se situaram os primeiros campos do ANC, junto à fronteira com a Namíbia, na altura sob administração sul-africana. Mas isso criou um problema, explica Justin Pearce, uma vez que os aviões sul-africanos podiam facilmente sobrevoá-los e bombardeá-los. Posteriormente, a partir de 1979, foram construídos outros campos no centro e no norte de Angola, nomeadamente nas províncias de Malanje, Caxito e Zaire.
Para além de uma aliança de circunstância que levou uns a participar na guerra dos outros, os dois movimentos de libertação, angolano e sul-africano, partilhavam uma mesma ideologia. "A liderança dos dois movimentos provém do mesmo universo ideológico", explica Didier Péclard. "São socialistas, identificam-se com a luta contra o imperialismo americano, obtêm apoio quer da URSS, quer de Cuba durante a Guerra Fria. Existe uma proximidade ideológica muito clara".
Além disso, Angola participou na luta pela libertação da África do Sul. O seu papel foi inicialmente indirecto: a partir da década de 1980, Angola, Moçambique e o Zimbabué faziam parte dos "países da linha da frente" que se opunham ao governo sul-africano do apartheid, liderado por Willem Botha.
O facto de estes países se terem tornado marxistas-leninistas e de se oporem aos Estados Unidos durante a Guerra Fria contribuiu, segundo Didier Péclard, para reforçar a pressão internacional contra o regime do apartheid na África do Sul.
A batalha do Cuito Canavale precipita o fim do apartheid sul-africano
Em 1988, a Batalha do Cuito Cuanavale acelera o fim do apartheid e a independência da Namíbia. "É uma grande batalha terrestre e aérea, a mais importante em África desde 1942 (Batalha de El Alamein). Não se trata, portanto, de uma simples guerra de guerrilha", afirma Didier Péclard.
Há várias semanas que as tropas da UNITA, apoiadas pela África do Sul, enfrentam as forças do MPLA, apoiadas por Cuba. Segundo o analista político, os historiadores consideram que não houve um vencedor claro. No entanto, o facto de a UNITA e as forças sul-africanas não terem conseguido vencer teve consequências importantes.
É então alcançado um acordo: as tropas cubanas retiram-se de Angola, enquanto as forças sul-africanas abandonam a Namíbia, que obtém posteriormente a independência. Ao mesmo tempo, salienta Didier Péclard, o contexto político evolui na África do Sul: Frederik de Klerk chega ao poder, liberta Nelson Mandela e inicia o processo que conduz ao fim do apartheid.
Mais de 30 anos após o fim do apartheid, Pretória está a levar a cabo a sua segunda operação de repatriamento dos restos mortais de militantes do ANC exilados. Em 2024, os restos mortais de 49 sul-africanos foram repatriados da Zâmbia e do Zimbabué. "A história do ANC em Angola sempre foi difícil. Durante vários anos, o governo do ANC não quis confrontar-se com ela", conclui Justin Pearce.
Três décadas mais tarde, o ANC no poder pretende "honrar o papel dos combatentes exilados na luta pela libertação" e "restituir a dignidade àqueles que tudo sacrificaram pela liberdade de que [os sul-africanos] gozam hoje".
RFI
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