Deiam-lhes o poder para ver o que fazem- David Mendes

 


“Se a UNITA chegar ao poder será um terror”. Esta afirmação do advogado David Mendes precipitou uma série de reacções, algumas das quais a tocar o insulto, o que para muitos não faz sentido num ambiente democrático. E os insultos a demonstrar intolerância política vieram sobretudo de sectores afectos à UNITA, rotulando-o de “advogado do diabo”, uns, ou “vendido ao regime”, outros, só para falar destes.


Contra estas ‘atoardas’ surgiram vozes a dar razão à saída de David Mendes, concordando que se a UNITA sem poder já assim se comporta, tendo o leme da nação em mãos pode fazer o pior.


“Se, ainda na oposição, todos os dirigentes da UNITA revelam intolerância à crítica, apesar do reiterado discurso democrático, impõe-se uma inquietante reflexão: se sem o poder já escasseia a tolerância, que destino poderá ter a crítica, caso o poder lhes seja confiado?”, a observação é de um internauta que colheu vários apoios nas redes sociais. A mesma intervenção conclui que “haja paz”.

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O que disse o advogado?


O advogado David Mendes lançou um alerta contundente sobre os riscos que, na sua avaliação, poderão surgir caso a UNITA assuma o poder em Angola, advertindo para a possibilidade de instalação de um ambiente político marcado pela intolerância e pela perseguição aos que não partilhem dos ideais do partido.


A declaração foi proferida durante um debate na Rádio Correio da Kianda, onde o advogado não poupou palavras ao descrever o cenário que considera preocupante. “Se a UNITA chegar ao poder será um terror”, afirmou.


David Mendes indo ainda mais longe ao sustentar que, num eventual cenário de governação da UNITA, a defesa dos ideais do partido poderia transformar-se numa espécie de teste de patriotismo, colocando em causa a liberdade de pensamento e de posicionamento político dos cidadãos. “Quem não defender os ideais da UNITA não será patriota. Será crucificado!”, indicou.


Para o advogado, a sociedade angolana deve estar atenta aos sinais que, segundo entende, podem antecipar comportamentos políticos de intolerância. “Precisamos começar a ler os sinais”, acrescentou.


Estas declarações colocam no centro do debate a questão da alternância política em Angola e, sobretudo, os receios em torno da forma como diferentes forças políticas poderiam exercer o poder caso chegassem à Presidência da República. A advertência de David Mendes surge num momento em que o país se aproxima de um novo ciclo político, com os principais partidos a intensificarem o debate sobre o futuro de Angola e a prepararem-se para a disputa eleitoral de 2027.


Mais do que uma crítica à UNITA, as palavras do advogado levantam uma questão de fundo: até que ponto a alternância política poderá representar uma verdadeira mudança na relação entre o poder e os cidadãos, sem que a troca de protagonistas seja acompanhada por novas formas de exclusão, intolerância ou perseguição política?


A declaração promete alimentar a discussão política nos próximos dias, sobretudo entre aqueles que defendem a alternância como instrumento de consolidação democrática e os que alertam para os riscos de uma eventual mudança de poder sem garantias suficientes de pluralismo e respeito pelas diferenças políticas.


Outros casos


Não é, contudo, a primeira vez que círculos ligados ao maior partido da oposição em Angola se declaram intolerantes.


Em Outubro do ano passado, o jurista Eugénio Clemente também veio a ser atacado com insultos quando disse que com a UNITA no poder o país registaria um retrocesso no seu desenvolvimento, justificando com a insuficiência de quadros e falta de visão estratégica. Na altura, este jurista que é comentador da TPA disse que com o Gato Negro o país observaria um ‘andar às apalpadelas’ e até descobrir como operacionalizar o Orçamento Geral do Estado, ou descobrir o funcionamento de uma entidade como a Sonangol, já o mandato estaria vencido.


Os alertas de que com a UNITA as coisas não funcionariam bem vieram também de um antigo quadro deste partido, indignado com a postura da direcção que permite, por exemplo, que no Parlamento, a UNITA tenha na bancada pai, mãe e filho, como se não tivéssemos mais quadros. Ele referia-se ao deputado Abel Sapingala. Isso permite-lhe duvidar da capacidade de gestão de meios e homens da UNITA. “Dêem-lhes o poder e de seguida verão o que farão deste país”, alertou o político com uma larga folha de serviço no partido fundado por Jonas Savimbi.

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