Em 2011, eu estava no Luena quando chegaram as notícias de que, no Kazombo, as comunidades Luvale e Lunda Ndembu voltavam a entrar em conflito. Para muitos, tratava-se apenas de mais uma disputa entre duas comunidades vizinhas. Mas, para quem conhece minimamente a história daquela região, o problema era muito mais profundo. Ali estavam em disputa memórias, territórios, autoridades tradicionais e, cada vez mais, identidades políticas.
Naquele período, as autoridades angolanas decidiram deter Chinuke, uma das principais autoridades tradicionais do povo Lunda Ndembu. A decisão não ficou circunscrita ao Kazombo. A autoridade tradicional foi transferida para o Luena, a cerca de 700 quilómetros de distância, numa medida que provocou uma forte reacção da população Lunda Ndembu.
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O episódio tornou-se um dos momentos mais marcantes da memória colectiva daquela comunidade. Segundo relatos que ouvi na época, grupos de Lunda Ndembu percorreram a pé a longa distância entre o Kazombo e o Luena para exigir a libertação da sua autoridade tradicional. Ao chegarem à cidade, concentraram-se nas proximidades da cadeia onde Chinuke se encontrava detido e cercaram o local.
A tensão era enorme. A população exigia que a autoridade fosse libertada e transmitia uma mensagem inequívoca às autoridades: caso o rei morresse na prisão, haveria uma reacção de grandes proporções. Nas palavras que ficaram registadas na memória daqueles acontecimentos, diziam que, se o rei morresse na prisão, seriam capazes de “transformar o Luena em cinzas”.
Mais do que uma ameaça isolada, aquela declaração revelava o grau de mobilização e de identificação da comunidade com a sua autoridade tradicional. A distância de centenas de quilómetros não impediu a população de se deslocar até ao Luena. Pelo contrário, a própria caminhada tornou-se uma demonstração de força, solidariedade e lealdade ao soberano.
Foi também nessa altura que comecei a ouvir, com maior atenção, as histórias contadas pelo meu avô. Ele dizia-me que aquela não era a primeira vez que Luvale e Lunda Ndembu entravam em conflito. A disputa era antiga e girava, essencialmente, em torno de uma pergunta aparentemente simples, mas politicamente explosiva: quem manda no Kazombo?
Os Luvale reivindicam o Alto Zambeze como parte do seu território histórico. Os Lunda Ndembu, por outro lado, sustentam que já estavam naquela região antes da chegada dos Luvale, vindos de zonas como Lumeje e Luacano. Assim, cada comunidade possui a sua própria memória sobre a ocupação do território e sobre a legitimidade das suas autoridades.
Mas a história do Kazombo não é feita apenas de disputas territoriais. A política angolana também deixou marcas profundas naquela região.
Durante a luta anticolonial, os Luvale acolheram militantes do MPLA nas matas de Karipande. Agostinho Neto e Lúcio Lara são algumas das figuras frequentemente associadas a essa memória histórica. Desde o final da década de 1960, foram sendo construídos laços entre sectores da comunidade Luvale e o MPLA.
A história do Reino Lunda Ndembu seguiu um caminho diferente. A sua principal autoridade tradicional teve uma trajectória ligada à UNITA e é conhecida pela sua passagem activa nas estruturas político-militares do movimento, onde chegou a exercer funções de chefia. Ao longo dos anos, essas diferentes experiências históricas ajudaram a criar uma associação, ainda que não absoluta, entre identidade étnica e identificação partidária.
Em 2004, essa realidade manifestou-se de forma particularmente violenta. Após o fim da guerra civil, a direcção da UNITA enviou uma delegação ao Kazombo para abrir um comité municipal. A recepção foi hostil. A delegação acabou por ser atacada por sectores da população e as viaturas da comitiva foram apedrejadas e danificadas.
Naquele tempo, seria difícil imaginar que, alguns anos mais tarde, a UNITA cresceria significativamente no Kazombo.
Mas a vida política, como a própria vida, dá muitas voltas.
Com o passar dos anos, o sentimento de exclusão social e política de sectores da população Lunda Ndembu foi crescendo. Uma parte importante dessa comunidade passou a olhar para a UNITA como um instrumento de representação e esperança. Para muitos, a possibilidade de uma mudança das condições de vida passou também a estar associada à possibilidade de alternância política.
Visitei o Kazombo duas vezes na minha vida. E, nas conversas com familiares e amigos, percebi que existe uma fronteira invisível que, em determinados momentos, separa a população. Muitas vezes, a identidade étnica aparece associada à identificação partidária: o Luvale é visto como próximo do MPLA e o Lunda Ndembu como próximo da UNITA.
Naturalmente, a realidade não é tão simples.
Existem excepções que demonstram que ninguém está condenado politicamente pela sua origem étnica. O actual segundo secretário da UNITA no Moxico Leste, por exemplo, é Luvale e participa igualmente em iniciativas associativas ligadas à sua comunidade. A sua presença política demonstra que as identidades são mais complexas do que as divisões simplistas que, muitas vezes, se fazem entre etnia e partido.
Quando estive no Kazombo, em 2024, morreu uma autoridade tradicional do lado Luvale. Naquele momento, já era possível sentir um ambiente de tensão. Havia receios de que a morte e as cerimónias tradicionais pudessem desencadear novos confrontos entre as comunidades.
Por isso, quando chegou a notícia da morte de Chinuke, autoridade máxima do povo Lunda Ndembu, pensei imediatamente que o Kazombo poderia voltar a viver dias difíceis.
As primeiras informações que circularam nas redes sociais falavam de um descontentamento em torno da forma como a direcção do MPLA se envolveu nas cerimónias fúnebres. Surgiram relatos sobre a remoção de bandeiras partidárias e, posteriormente, divergências em relação ao local onde o soberano deveria ser sepultado.
A tensão aumentou.
E, mais uma vez, o Kazombo voltou a ser palco de confrontos e de intervenção policial, com o uso de gás lacrimogéneo contra a população.
Quem observa o conflito à distância pode ser tentado a reduzi-lo a uma simples disputa entre Luvale e Lunda Ndembu. Mas o Kazombo é muito mais complexo do que isso. Ali cruzam-se histórias antigas de ocupação territorial, disputas pela legitimidade das autoridades tradicionais, memórias da luta anticolonial, heranças da guerra civil, exclusão social e competição partidária.
No Kazombo, a etnia não explica tudo. Mas também não pode ser ignorada.
A política não criou todas as divisões. Mas aprendeu, ao longo do tempo, a conviver com elas, a explorá-las e, por vezes, a aprofundá-las.
Talvez seja essa a maior tragédia daquele território: quando uma disputa pela memória e pela autoridade se transforma numa fronteira política, qualquer morte de uma autoridade tradicional, qualquer bandeira removida ou qualquer decisão sobre um local de sepultamento pode deixar de ser apenas um acontecimento comunitário.
Pode transformar-se numa questão de poder.
E, no Kazombo, como a história tem demonstrado, as questões de poder raramente terminam apenas onde começaram.
Por Hitler Samussuku
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