Mais de metade da governação de João Lourenço entregue à coerção- Ana Jenário



De uns tempos para cá, os nossos "peritos na distribuição de chocolates e rebuçados" têm intensificado as suas calorosas actuações, procurando reforçar a repressão à desproporcionalidade. O panorama mantém-se caótico, com o terror a mudar apenas de motivação.


Apesar de, no tempo da "nova senhora", não se terem ouvido promessas directas que indicassem a mudança do status quo para coibir a coerção policial, o Governo de João Lourenço enfatizou a ideia de respeito geral pelos direitos humanos e pela legalidade. Só que, da teoria à prática, chegámos a quase dez anos caracterizados por puro cativeiro, com justificações disfarçadas de manutenção da ordem pública.


Do vandalismo ao desacato, da destruição de propriedade pública às tentativas de perturbação da segurança nacional, a actuacão dos "Bongos" mantém o foco naqueles que ousam hastear bandeiras de liberdade e ofuscar as cores do partido-Estado. No acerto de contas com os denominados "arruaceiros", nem os UNITAs com assento parlamentar ficam de fora.


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Depois de ter esgotado a simulação da intenção de "melhorar o que está bem e corrigir o que está mal" nos dois primeiros anos, 2019 marcou o fim do "período de tolerância".


Em 2020, começou o pânico. O terceiro ano de mandato ficou assinalado pela repressão de uma manifestação que exigia melhores condições de vida, precisamente no dia da celebração dos 45 anos da independência, resultando em mortos e feridos.


Em 2021, o massacre em Cafunfo destacou-se nos protestos da Lunda Norte, quando o Movimento Protetorado Lunda Tchokwe protagonizou uma manifestação para exigir melhores serviços públicos e autonomia regional. A resposta policial e militar descambou num massacre com dezenas de civis mortos.


Em 2023, uma revolta popular com uma onda de protestos contra a subida do preço da gasolina e da cesta básica abrangeu várias cidades, terminando em mais de uma centena de detenções.


Em 2024, a resistência contra um eventual terceiro mandato e a crise económica foram pretexto suficiente para a polícia dispersar marchas, espancar e deter cerca de 16 organizadores.


Em 2025, os motivos para a truculência policial foram os descontentamentos civis pelo aumento do gasóleo. A actuação policial e militar foi uma das maiores da história recente do país, resultando em pelo menos 30 mortes, segundo as suas próprias contas, apesar de outras contas apontarem para quase uma centena, e mais de mil e quinhentas detenções, com alguns presos a continuarem a desfrutar dos quartos do "Hotel Comarca".


Em 2026, começámos em grande, com os habituais actos de requintado sadismo por parte dos agentes da ordem. Já perto do fim do mandato, o clássico levou-nos às festividades que pretendiam manter viva a memória de Jonas Savimbi.


Ora! A UNITA decidiu marchar em "terras do bago vermelho" com uma celebração rija pelo nascimento do seu patriarca, mas foi forçada a reviver um cheirinho dos acontecimentos que culminaram na morte de "Man Mbimbi", com a ressalva de que, desta vez, os maninhos estavam indefesos perante a reprodução de uma emboscada feita por efetivos da Polícia de Intervenção.


Aqueceu! Panelas do pitéu pelo ar, mamãs da LIMA obrigadas a mostrar a sua "pulungunza" nas avenidas atléticas do Uíge, Nelito Ekuikui e a sua JURA dispersos, e Adalberto Costa Júnior simplesmente a evaporar-se, ou talvez se tenha perdido entre o gás lacrimogéneo e o leito da sua serenidade.


Aquilo a que o maior partido da oposição chama de invasão e falta de condições para garantir a integridade física dos participantes, numa actividade que culminou em mais de 30 feridos, a polícia classifica como um "mal-entendido".


Resumindo, mais de metade da governação de João Lourenço foi entregue à coerção. 


O que justifica a repetição destes confrontos?

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