Margareth de Menezes no Bailundo- Sousa Jamba



Num dos momentos mais discretos, e por isso mesmo mais eloquentes, da visita da Ministra da Cultura do Brasil, Margareth Menezes, à corte do Reino do Bailundo, ocorreu um episódio que quase ninguém pareceu notar. A atenção dispersava-se pelo movimento incessante dos agentes de segurança, dos responsáveis pelo protocolo, dos fotógrafos e daquela curiosa espécie humana que nunca perde a oportunidade de se aproximar de alguém a quem a fama já escolheu. No meio dessa pequena tempestade de diligências, um gesto antigo passou quase despercebido; e foi precisamente aí, no que escapou às câmaras, que residiu o essencial.


Para chegar à presença do Rei, a Ministra atravessou um recinto formado por troncos de bananeiras acabados de cortar. Para muitos, seria apenas ornamento. Para quem conhece a gramática silenciosa da cultura umbundu, porém, aquele espaço continha uma mensagem bem mais funda: na tradição umbundu, são as noivas que atravessam recintos semelhantes ao iniciarem uma nova etapa da vida. As bananeiras frescas não delimitam apenas um caminho; falam de fertilidade, de continuidade, de prosperidade e de acolhimento; representam a passagem entre aquilo que se deixa para trás e aquilo que começa a nascer.


Em redor, as mulheres vestiam panos negros salpicados de pequenas árvores brancas, tão delicadas que, vistas à distância, pareciam flores. Chama-se a esse tecido onanga yo mbololo, e tornou-se uma das marcas visuais mais reconhecíveis da identidade umbundu: não roupa de cerimónia apenas, mas declaração de pertença, feita sem discursos e ainda assim compreendida por todos. As pessoas mostravam uma alegria genuína por se encontrarem ali; os telemóveis erguiam-se por toda a parte, ocupados em gravar cada gesto, cada cântico, cada pormenor. Durante muito tempo, a tradição viveu apenas na memória e na palavra; agora cabe também nos pequenos ecrãs, viaja pelas redes sociais e regressa às aldeias sob a forma de imagem.


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Houve danças vindas de diferentes pontos do Planalto Central, cada grupo trazendo consigo um modo próprio de ocupar o espaço, marcar o ritmo e contar a sua história; destacou-se, entre elas, uma extraordinária formação de Benguela, cuja energia parecia alargar os próprios limites do recinto. Um grupo de mulheres apresentou ainda uma comovente composição teatral, quase sem necessidade de palavras, em que o corpo, o gesto e o silêncio bastavam para representar o sofrimento do povo angolano. Foi um daqueles raros momentos em que o espectáculo deixa de ser entretenimento e se converte em memória pública.

A Ministra fez um discurso contido, sóbrio, directo: falou, com a serenidade de quem apresenta factos e não promessas, dos acordos e protocolos celebrados entre o Brasil e Angola durante a sua passagem por Luanda, sem ornamentar as palavras, sublinhando antes a vontade de aprofundar uma relação com raízes anteriores aos próprios Estados modernos. O Rei, por seu lado, escolheu outro registo: onde ela foi institucional, ele tornou-se poético. Falou dos filhos desta terra levados acorrentados, em tempos sombrios, para o outro lado do Atlântico; falou da violência da partida, da longa distância, do regresso simbólico dos descendentes. Na sua voz, a visita deixava de ser encontro cultural ou diplomático para se tornar forma de reconciliação com a história. Disse-lhe que deveria sentir-se inteiramente em casa, pois não era estrangeira em visita, mas filha que regressava à terra-mãe, à terra dos antepassados — imagem que encontrou lugar imediato entre os presentes, não como fórmula protocolar, mas como aquilo que muitos sentiam sem saber exprimir com igual beleza.


Todo o mérito deve ser reconhecido ao Rei Tchongolola Tchongonga Ekuikui VI pela organização da corte, que não possui a frieza de um edifício protocolar, antes se assemelha a uma propriedade rural cuidadosamente tratada: árvores em flor, jardins cuidados, canteiros onde crescem legumes, uma autoridade que não parece separada da terra, mas que brota dela. Confesso ter ficado verdadeiramente impressionado com o rigor da organização; tudo decorreu conforme previsto, sem a agitação desordenada que tantas vezes acompanha as grandes cerimónias, quando metade dos responsáveis procura a outra metade e ninguém sabe quem deu a última instrução. Este profissionalismo não surpreende inteiramente: antes de subir ao trono, o Rei foi empresário, conheceu o mundo em que as ideias exigem calendários e os erros aparecem nas contas; fala inglês fluentemente, viveu no estrangeiro, e essa experiência nota-se tanto na língua como no modo de organizar o próprio espaço; os seus aposentos privados assemelham-se mais ao gabinete de um professor do que à câmara de um soberano.


A visita às akokoto, onde repousam as cabeças dos antigos reis ovimbundu, transforma-se em verdadeira viagem pela história: estruturas modestas cujo silêncio pesa mais do que qualquer mármore, lembrando que a memória de um povo nem sempre habita palácios, mas por vezes uma cabana protegida pela terra e pelo respeito dos vivos. O soberano insiste numa ideia essencial: o Reino pertence a todos quantos desejem conhecer a cultura, e não apenas aos descendentes ou iniciados — visão que faz dele não apenas rei, mas guardião de uma herança que precisa de ser vivida para não se converter em peça de museu. Uma cultura atrás de vitrina pode ser admirada, mas já não respira; no Bailundo, ela ainda caminha, dança, planta, canta, cozinha e organiza o futuro.


Talvez ninguém tivesse planeado todos os significados daquele dia; os símbolos mais duradouros raramente obedecem a protocolo, e surgem como se a própria cultura insistisse em lembrar que possui memória mais antiga do que qualquer programa oficial. E assim, sem proclamações solenes, a Ministra brasileira atravessou um espaço reservado, aos olhos da tradição, ao universo das noivas, para depois ouvir um rei dizer-lhe que regressava à terra dos seus antepassados. À sua volta dançava-se, filmava-se, recordava-se, comia-se. Há coincidências que apenas divertem; outras sugerem que a história possui um delicado sentido de ironia. Esta pertence, sem dúvida, à segunda categoria.

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