Há notícias que não provocam indignação. Provocam perplexidade. E a perplexidade é, talvez, a forma mais honesta de patriotismo, pois ainda permite pensar antes de aplaudir.
A intenção de construir um bairro exclusivo para artistas de Kuduro pertence a essa categoria. Não é uma decisão administrativa; é uma janela aberta sobre a imaginação do poder. E, como sucede com as janelas, o que se vê através delas costuma ser mais interessante do que aquilo que se pretendia mostrar: uma curiosa escala de valores, ou, em linguagem menos decorativa, uma lista de quem o Estado julga digno de casa.
O Kuduro é, sem dúvida, uma das mais extraordinárias criações da Angola contemporânea. Nasceu sem ministério, sem consultor estrangeiro, sem seminário internacional e, o que talvez explique o seu vigor, sem comissão de acompanhamento. Saiu dos musseques de Luanda, atravessou fronteiras, ocupou pistas de dança em Lisboa, Paris e São Paulo, onde muitos talvez não saibam localizar Angola no mapa, mas reconhecem uma batida de Kuduro antes de o intérprete abrir a boca.
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Mas poucos géneros musicais demonstraram tanta aptidão para gravitar em torno do poder. Há artistas que perseguem a inspiração; há outros que descobrem, com admirável rapidez, que a inspiração tem gabinete, viatura oficial e protocolo. Alguns kuduristas tornaram-se presença quase litúrgica nas cerimónias oficiais, e a espontaneidade, quando se aproxima do Estado, adquire sempre um notável sentido de disciplina.
Daí a pergunta inevitável: porquê o Kuduro, e porquê agora? As coincidências têm o hábito pouco inocente de aparecer precisamente quando deixam de o ser.
Angola não cabe num único ritmo. É um país de Semba, Kizomba, Gospel, música tradicional, batuques e guitarras rurais; reduzi-la a um género seria como retratar o país inteiro com a fotografia de um cruzamento de Luanda.
O Gospel sustenta milhões de angolanos num plano íntimo e espiritual; nas igrejas monumentais e nas capelas de zinco, canta-se para suportar o desemprego, o luto e a vasta colecção de desilusões que a vida nacional distribui sem exigir inscrição prévia. Não merecerão também as cantoras gospel um bairro, com avenidas baptizadas com nomes de salmos e praças dedicadas às bem-aventuranças? Talvez os vizinhos começassem o dia desejando sinceramente a paz uns aos outros; o que já seria uma notável inovação urbana.
E os cantores que travam guerra incansável contra feiticeiros, mentirosos e mulherengos, lembrando aos infiéis que os aguarda a desconfortável companhia dos cães no Reino dos Céus; também eles não prestam serviço público? Poder-se-ia erguer-lhes um condomínio onde a única infidelidade permitida fosse desafinar durante o coro.
Depois há a Kizomba, talvez a mais bem-sucedida exportação cultural angolana: há estrangeiros que ignoram o Cuito Cuanavale e a Serra da Leba, mas sabem dançar Kizomba de cor. Há países que exportam tratados diplomáticos; Angola exportou uma maneira de dançar. Ainda assim, ninguém fala de um bairro para os seus músicos. O Semba, guardião da memória urbana do país, pode continuar a cantá-la, desde que não espere encontrá-la traduzida em metros quadrados.
É nestes pequenos gestos que os governos revelam a sua verdadeira filosofia. Os discursos pertencem à retórica; os orçamentos pertencem às convicções. Construir um bairro para um grupo específico não é apenas erguer casas: é erguer um símbolo. E os símbolos, como sói acontecer, custam sempre mais do que o cimento.
Noutros países, as prioridades assumem outras formas. A Finlândia colocou os professores no centro do desenvolvimento nacional, formados com seriedade e apoiados com salário decente, lógica quase embaraçosamente simples: quem forma inteligências deve ser tratado como recurso estratégico. Em Angola, proposta semelhante seria recebida com o sorriso paternal reservado às ideias nobres de mais para serem práticas.
Há ainda uma ironia que escapou aos arquitectos deste entusiasmo: o Kuduro celebra o sucesso individual, o carro novo, a roupa de marca, a ascensão social. Quem, então, habitará o bairro? Os artistas que já venceram já constroem as suas próprias vivendas; sobrariam, portanto, os que ainda esperam alcançar o triunfo que as suas próprias canções anunciam. Teremos assim criado uma curiosidade sociológica: um hino à independência económica, representado por um condomínio pago pelo Estado. É quase uma parábola nacional; e quem pagará o concerto de inauguração senão o contribuinte, convidado a comprar bilhete para aplaudir a generosidade que ele próprio financiou?
A dificuldade destas distinções é que nunca sabem onde parar. Os cantores gospel pedirão as suas casas; os intérpretes de Kizomba invocarão o prestígio internacional; os professores, enfermeiros e escritores recordarão, com menos ruído, a sua contribuição. O favoritismo possui extraordinária capacidade para despertar vocações igualitárias.
Não se trata de negar apoio aos artistas de Kuduro, que merecem oportunidades e protecção autoral, mas de exigir critérios claros e universais: a cultura não deve tornar-se extensão imobiliária da política. A primeira produz criação; a segunda produz clientela; e a clientela, ao contrário da arte, tem o desagradável hábito de regressar sempre à porta do Tesouro. As cidades constroem-se com tijolos. As clientelas constroem-se com favores. As nações constroem-se com prioridades. E uma prioridade mal escolhida pode durar muito mais do que uma casa.
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