Circula um vídeo do administrador do Mungo, o senhor Kalupeteka, num discurso de considerável violência verbal contra a UNITA. Como orador, há que reconhecê-lo, é impressionante. Quem domina o umbundu sentirá a força da cadência, o domínio da língua e a eficácia quase teatral da invectiva. Mas o problema começa precisamente onde termina o talento retórico.
Há aqui uma lei que a política ensina e teima em esquecer: um adversário atacado com excesso de zelo pode acabar promovido pela própria fúria de quem o combate.
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Tenho escrito que os adversários mais formidáveis que a UNITA enfrenta no Planalto Central não são os homens que mais gritam contra ela. São, pelo contrário, figuras como o governador do Huambo, Pereira Alfredo, e o administrador do Bailundo, Dr. Celestino Piedade Chikela: homens que não insultam, não humilham, não procuram o confronto e que, sobretudo, fazem coisas.
Numa política habituada a medir a força pelo volume da voz, há algo de silenciosamente perigoso num homem que fala baixo e apresenta resultados. É por isso que homens assim conquistam respeito. E o respeito, em política, é uma moeda muito mais difícil de cunhar do que o medo.
Compreende-se a pressão que pesa sobre alguns dignitários ovimbundu dentro do MPLA: a necessidade, consciente ou apenas atmosférica, de provar que não conservam qualquer simpatia residual pelos seus conterrâneos que apoiam a UNITA. Mas essa pressão produz um efeito perverso. Na ânsia de demonstrarem lealdade, alguns tornam-se mais severos, mais ferozes e mais humilhantes do que a própria direcção do partido alguma vez lhes pediu que fossem. O subordinado canta tão alto para agradar ao coro que acaba por sair do tom e descobre, demasiado tarde, que o mestre nunca lhe pediu semelhante serenata.
Chegamos, assim, ao verdadeiro nó do problema, que é lógico antes de ser moral: qual é, afinal, o objectivo? Deseja o MPLA humilhar as populações ovimbundu ou deseja conquistá-las? Quer que antigos eleitores da UNITA se afastem ainda mais, ou pretende que se aproximem, que se tornem simpatizantes, militantes ou quadros, isto é, pessoas recebidas com dignidade à porta, em vez de serem repelidas pela violência com que se fala do partido que antes as representava?
Se o objectivo é o segundo, e presume-se que seja, pois nenhum partido governante declara publicamente preferir humilhar a convencer, então o excesso de zelo deixa de ser lealdade e passa a ser sabotagem. Não porque exista necessariamente a intenção de sabotar, mas porque o efeito, independentemente da intenção, é precisamente esse: cada humilhação pública devolve à UNITA aquilo que nenhuma campanha eleitoral lhe conseguiria oferecer de graça, a dignidade política da vítima. E a vítima, ao contrário do adversário derrotado, não perde eleitores: ganha-os.
É, por isso, perfeitamente possível, e aqui reside a ironia central deste episódio, que o senhor Kalupeteka, sem o desejar e certamente sem alguma vez ter pedido cartão de militante, se esteja a revelar um dos mais eficazes recrutadores da UNITA naquela região. Quanto mais intolerante, depreciativo e inflamado for o discurso contra os adversários, mais facilmente estes adquirem, aos olhos de quem escuta, uma dignidade política que nenhum comício conseguiria outorgar-lhes por si só.
A lição, despida de floreados, é simples e, precisamente por isso, incómoda: em política, destruir um adversário é uma arte delicada, quase cirúrgica. Há formas de ataque que, precisamente por serem demasiado eficazes como oratória, se revelam desastrosas como estratégia.
Às vezes, o pior modo de matar um inimigo político é atacá-lo demasiado bem.
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