As bandeiras e a difícil arte de pertencer- Sousa Jamba



Se as bandeiras servirem de indício, e convém recordar que uma bandeira ainda não aprendeu a preencher um boletim de voto, a UNITA tem na Lunda Norte uma presença popular muito forte.


Tenho visto nas aldeias desta província mais bandeiras da UNITA do que vi no Huambo ou em Benguela; no Bié, encontrei também muitas do MPLA. Não comparo a Lunda Norte com um deserto político onde apenas uma cor tenha sobrevivido, mas com províncias onde a simbologia partidária se encontra exposta.

Seria pouco sério transformar postes, árvores e telhados num instituto de sondagens: uma bandeira não revela quantas pessoas votarão, nem com que convicção. Mas existe uma diferença entre não exagerar um sinal e fingir que ele não existe. Negar que a UNITA tem raízes aqui seria pedir à realidade a delicadeza de não contrariar a nossa opinião.


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A política tem este defeito desagradável: por vezes, acontece diante dos nossos olhos.


E essa implantação pode representar, para o partido, menos uma oportunidade eleitoral do que uma responsabilidade nacional. Ganhar votos é uma atividade respeitável; ajudar a formar cidadãos é uma ambição mais rara. Quem percorre a Lunda Norte percebe depressa que esta é uma região de identidade muito vincada: as línguas, as autoridades tradicionais, as famílias, as terras, as memórias.


Vista de longe, essa identidade confunde-se com orgulho excessivo: quando uma comunidade possui uma identidade que não pediu autorização à capital para existir, aparece sempre alguém disposto a diagnosticá-la como regionalismo.


Uma nação segura de si não precisa de empobrecer as suas regiões para parecer unida. A unidade que exige o desaparecimento das diferenças não é unidade: é decoração administrativa. A questão não consiste em enfraquecer o sentimento de pertença local, mas em alargá-lo.


É possível ser profundamente da Linda Norte ou Tchokwe  e profundamente angolano; respeitar o soba e reconhecer a autoridade da Assembleia Nacional; pertencer à aldeia sem deixar de pertencer à República. Uma identidade não precisa de morrer para que outra nasça: apenas os Estados inseguros exigem essa viuvez emocional.


E é aqui que a UNITA, por ter criado raízes nesta região, pode desempenhar uma função cívica: servir de ponte entre a autoridade próxima, conhecida pelo rosto e pelo nome, e a autoridade nacional, que chega à aldeia sob a forma de um documento, de um funcionário ou, pior, de uma ordem.  Em muitas comunidades, por cá, o universo político continua local: o soba, os mais velhos, a linhagem, o município. Possui legitimidade concreta porque pertence à experiência quotidiana; a Constituição e os tribunais parecem realidades bastante mais distantes.


Mas o Parlamento não pertence aos deputados: pertence, por representação, ao camponês, ao professor e à mulher de uma aldeia que talvez apenas conheça a Assembleia Nacional pela televisão. A democracia torna-se real no dia em que essa mulher compreende que a República é dela.  E a tarefa mais interessante de um partido da oposição não consiste em ensinar os cidadãos a votar na UNITA; seria demasiado modesto. Consiste em ensiná-los a compreender o país: para que serve uma Assembleia Nacional; que direitos possui um cidadão perante a polícia; como se aprova uma lei e se fiscaliza um orçamento; por que razão uma autoridade tradicional e uma autoridade administrativa não são necessariamente rivais; e, sobretudo, que o Estado não é propriedade do partido que circunstancialmente o governa.


Um dos grandes problemas das democracias jovens é precisamente esta confusão entre Estado, governo e partido. Quando os três parecem indistintos, o cidadão que não pertence ao partido governante começa a suspeitar de que também não pertence ao país. É uma perversidade silenciosa: converte a divergência política em exílio psicológico.  Um partido da oposição pode corrigi-la, dizendo ao cidadão da Lunda Norte que é possível discordar do governo e continuar dono da República; votar contra quem governa sem votar contra Angola; amar a sua terra e a sua língua sem diminuir a sua nacionalidade.


As bandeiras que vejo aqui significariam então algo mais do que uma contagem antecipada de votos: identificação partidária convertida em educação cívica, identidade regional em participação nacional, oposição política em pertença republicana.  Seria um belo paradoxo: um partido que chega ao poder ajudando primeiro os cidadãos a compreender que o poder nunca pertence inteiramente a partido algum.

E talvez seja assim que se constrói uma nação. Não pedindo às pessoas que esqueçam quem são, mas convencendo-as de que o país também lhes pertence.

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