A discussão que não tivemos- Sousa Jamba



Conheci Riquinho por volta de 2020, na Aldeia Camela Amões, no planalto central, perto do Bailundo. Fora ali ajudar a arranjar trabalho para os jovens, ocupação bastante mais difícil do que aconselhá-los a trabalhar.

A aldeia crescia. Segunda Amões, seu amigo e homem de uma imaginação que nem sempre esperava pela nossa compreensão, queria preparar as pessoas para a economia rural que aí vinha. O projecto era ousado e inquietava os que preferíamos conhecer o futuro antes de o aprovar. Morreu em Dezembro desse ano, deixando a muitos a tarefa de compreender o que outros mal tinham começado a discutir.

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O encontro com Riquinho foi breve. Percebi logo que sabia quem eu era. Durante anos, escrevera contra uma parte considerável da sua obra: trazer estrelas americanas a Angola por quantias que espantavam tanto quem as recebia como quem delas ouvia falar.

Eu estava então nos Estados Unidos e via a América olhar para nós. Os artistas regressavam com o dinheiro; as histórias ficavam connosco, e algumas faziam de Luanda uma cidade sem lei e do promotor um homem a quem seria prudente não contrariar.


Nas crónicas, fazia outras contas. Um só desses cachets, escrevia, daria estúdio e sala de ensaio decentes em várias capitais de província. Os aplausos acabavam no domingo; na segunda-feira, os músicos continuavam sem sítio onde ensaiar.


Ele lera-me. Vi-o na atenção com que me observou, a de quem tem coisas para dizer e ainda decide por onde começar. Mas havia jovens à espera na praça, e Riquinho foi ter com eles.

A nossa discussão ficou para depois, que é onde se perdem muitas conversas.


Agora que morreu, resta-me imaginar a resposta que não ouvi. O que se segue é reconstrução minha, a partir de posições que defendeu publicamente; não é transcrição. Procurei ser fiel aos argumentos. Quanto ao volume, suspeito que fica aquém do original.

«Senta-te, Sousa Jamba. Já escreveste as tuas crónicas. Agora ouve a minha.


Falas de estúdios. Em 1990 nem havia mercado de espectáculos privados; os concertos eram assunto do Ministério da Cultura. Pus um anúncio pago no Jornal de Angola e nem sabiam quanto cobrar. Tu querias construir uma indústria; eu ainda tinha de provar que havia quem comprasse um bilhete.


E quem trouxe primeiro? Angolanos: Paulo Flores, Eduardo Paim, Bonga, Waldemar Bastos, Don Kikas. Viviam lá fora, e eu queria-os a cantar cá dentro. Era preciso montar o palco, pagar o som, abrir os portões. Nada disso se fazia com um artigo de opinião.

Depois vieram os estrangeiros, e aqui começa a parte que te escapou. Por cada estrela de fora, punha cinco angolanos no cartaz. Onde iria um cantor desconhecido encontrar cinco mil pessoas? Vinham por Roberto Carlos e descobriam um dos nossos. Eu pagava a esse outro, mil dólares a quem nunca vira tal quantia. Pergunta-lhes.


Hoje vês Anselmo Ralph encher salas em Portugal, vês Yuri da Cunha cantar com Eros Ramazzotti, e parece-te que nasceram diante de uma multidão. Houve uma primeira vez, kota. Alguém os anunciou. Alguém lhes entregou o microfone. O estúdio guarda a voz; falta arranjar quem a queira ouvir.


Dizes que os americanos contaram histórias feias. Alguns contaram. Mas Roberto Carlos veio cantar pela nossa paz e milhões de brasileiros viram uma Angola onde acontecia mais do que a guerra. Põe isso no balanço.


Depois há o dinheiro. Eu ia ao banco e assinava. A dívida tinha o meu nome, e era desse nome que o banco se lembrava à hora de cobrar. Trabalhei também para o Estado: o Afrobasket, trezentas e cinquenta pessoas levadas à Alemanha a apoiar a selecção, tudo à vista de todos. Sempre disse que o Estado me devia mais do que eu devia ao banco. Que me pagasse, e eu pagaria aos outros. Ainda sobraria troco.


Não escondi fortuna na Suíça. Talvez por isso tivesse dívidas que todos conheciam e não contas que ninguém encontrava.


E se nunca me pagarem? Uma parte já recebi, kota: as pessoas sabem o que fiz. Não paga os juros, concedo-te. Mas também conta.


Dizem que a esperança é a última a morrer. A minha, pelo menos, não morreu antes de mim.»

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