Acredito na feitiçaria. Mas não em tudo o que se diz dela- Sousa Jamba



Entrei na secção de medicina tradicional do mercado de Saurimo por curiosidade, essa forma aparentemente inocente de entrar em lugares de onde saímos com perguntas que não levávamos connosco. Saí de lá não exactamente convertido, nem exactamente tranquilizado, mas com algo mais incómodo: uma tese.

À entrada, ouvi dentro de mim uma voz antiga, formada por catecismos, sermões e medos herdados: «Como cristão, devias manter-te afastado.» Logo surgiu outra, menos piedosa e mais impertinente: se aquilo fosse uma ervanária em Londres ou Paris, com raízes trituradas em cápsulas e rótulos verdes onde figurassem palavras como natural e wellness, eu entraria sem receio, pagaria com cartão e sairia convencido de ter cuidado da saúde. Comecei a suspeitar de que parte do meu desconforto provinha não da substância, mas da apresentação; não do remédio, mas do recipiente. A aparência possui esse extraordinário talento: apresenta-se como prova sem nunca se ter submetido a exame.


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Também não quis cair no erro inverso e romantizar o mercado apenas porque era africano e antigo. A antiguidade não absolve, assim como a modernidade não certifica. Havia partes de lagartos e cobras, raízes retorcidas, pós de composição incerta. Os vendedores, entretanto, interessaram-se sobretudo pela minha vida sexual. Ignoro que diagnóstico fizeram ao contemplar-me, mas concluíram, com impressionante unanimidade clínica, que eu precisava de afrodisíacos. A medicina moderna pede análises; no mercado de Saurimo, bastou a minha cara.


Mostraram-me ainda o Kachilingui Chimue, expressão que me traduziram por «nada acontecerá». Se um homem casado, tendo um filho pequeno, cometer adultério, explicaram-me, a criança poderá adoecer; o amuleto interromperia essa cadeia invisível entre desejo, culpa e doença. Achei a solução admirável pela sua eficiência teológica. Não impedia o pecado nem reformava o pecador: protegia terceiros das consequências. O pecado, afinal, tinha seguro.


Foi ali que formulei uma posição que durante anos permanecera confusa: acredito na feitiçaria porque a feitiçaria existe; não acredito, porém, que o facto de existir demonstre todos os poderes que lhe atribuímos. O medo existe, o curandeiro existe, o amuleto existe, a doença existe; falta estabelecer a ponte causal que transforma a sucessão em explicação. E o raciocínio deve cortar para os dois lados, caso contrário passa a ser preconceito vestido de lógica. Um comprimido não se torna eficaz por vir numa caixa branca; uma raiz não se torna inútil por ter sido arrancada da floresta por uma velha sem diploma. A modernidade também conhece a arte da encenação: tem os seus rituais, as suas vestes, os seus altares de vidro.


Precisamos, portanto, de critérios. Primeiro, segurança. Tradicional não significa inofensivo, assim como natural não significa benigno: há plantas capazes de matar naturalmente, há charlatães, há amuletos vendidos para alimentar a dependência de quem teme adoecer. Depois, utilidade. Durante gerações, muito antes de existirem laboratórios, homens e mulheres observaram plantas, febres, feridas e partos; descobriram folhas que diminuíam dores e cascas que favoreciam a cicatrização. A floresta foi farmácia antes de a farmácia possuir letreiro. O problema é que esse conhecimento nos chegou entrelaçado com observação e mito, remédio e ritual, ouro e poeira na mesma trouxa.

É aqui que a ciência introduz uma das suas ideias mais civilizadas: a obrigação de desconfiar de si própria. Aquilo que funciona em Saurimo deve funcionar em Lusaka e continuar sujeito a contestação em Tóquio. A força do método não reside em proclamar-se infalível; reside em organizar a possibilidade da própria derrota. A feitiçaria raramente a concede. Se o tratamento resulta, confirma-se o curandeiro; se falha, o espírito era demasiado forte. Se o doente melhora, acreditou; se piora, não acreditou suficientemente. Ora, uma teoria capaz de explicar com igual facilidade o êxito e o fracasso torna-se invencível; e aquilo que não pode perder dificilmente pode provar que ganhou.


Mas não chegamos a esta conversa de mãos vazias. Chegamos carregando séculos de cristianização e uma geografia moral aparentemente simples: o que vinha da Igreja pertencia ao sagrado; o que vinha dos antepassados corria o risco de ser pagão. Planta, ritual, iniciação e feitiço acabaram, demasiadas vezes, no mesmo saco. Em muitas famílias cristãs, os rapazes não iam à mukanda por receio das artes obscuras. O bom jovem regressava da catequese, não da floresta.

Há aqui uma ironia demasiado interessante para ser ignorada. 


O cristianismo que condenou tantas práticas tradicionais nunca abandonou a cura sobrenatural. Cristo cura. Rezamos pelos enfermos. Impomos as mãos. Esperamos milagres. Quando o curandeiro colocava folhas sobre o doente e pronunciava palavras, chamávamos-lhe superstição; quando o padre colocava as mãos e pronunciava palavras, chamávamos-lhe fé. Isto não significa que sejam práticas equivalentes; significa algo mais modesto e mais perturbador: que a fronteira, vista de fora, é menos nítida do que parece a quem está confortavelmente instalado dentro dela.


Da ciência, guardo o método. Da tradição, guardo o que merece ser investigado, porque séculos de observação não devem ser deitados fora por não chegarem embrulhados em linguagem científica. Da religião, guardo a esperança, a comunidade e o consolo, porque nem tudo o que o ser humano necessita cabe numa proveta. Resta uma saída mais difícil: conservar a curiosidade sem conservar a credulidade. 


Podemos entrar na floresta sem nos ajoelharmos diante de cada árvore.  Respeitar uma tradição não é poupá-la às perguntas; é considerá-la suficientemente séria para as suportar. Porque aquilo que merece sobreviver não deve recear a pergunta.

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