Nasceu uma estrela no Bié- Sousa Jamba



Ontem à noite, no Fly Podcast, nasceu uma estrela. E ninguém precisou de astrónomos para confirmar o fenómeno: bastaram uma câmara, um microfone e um homem do Bié absolutamente convencido de que Michael Jackson continua entre nós, embora com algumas adaptações locais.


Chama-se, inevitavelmente, Michael Jackson do Bié.


No fim da noite, o público já lhe tinha oferecido mais de dois milhões de kwanzas. Há artistas que passam vinte anos a construir uma carreira. Michael Jackson do Bié precisou de uma entrevista. O talento é importante, evidentemente, mas a inocência, quando aparece acompanhada de convicção, pode ser uma forma particularmente eficaz de génio.

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Ele imita Michael Jackson. Ou, para sermos rigorosos, imita a ideia que o Bié formou de Michael Jackson. E é aí que começa a maravilha.


Canta as canções do astro americano procurando reproduzir o inglês original. O problema, que é também o encanto, está no facto de o inglês não colaborar inteiramente. Michael Jackson do Bié acredita sinceramente que está a cantar em inglês. O inglês, se pudesse ser consultado, talvez apresentasse uma opinião diferente.


O resultado é uma terceira língua. Não é inglês, não é português e certamente não é umbundu. É Michael-Jacksonês do Bié, idioma que parece possuir gramática própria, fonética independente e um único falante conhecido.


Há nele, curiosamente, qualquer coisa do Michael Jackson verdadeiro, sobretudo do Michael Jackson anterior às grandes transformações físicas. O rosto lembra-o vagamente. Mas é sobretudo a voz que provoca aquela estranha sensação de reconhecimento.


O Michael Jackson americano falava com uma voz leve, alta, quase soprada, de uma delicadeza que parecia pedir licença antes de entrar numa frase. Era uma voz surpreendente num homem que, cinco minutos depois, subia ao palco e comandava multidões com enorme potência vocal e rítmica. Ao cantar surgiam os soluços, as respirações bruscas, os famosos hee-hee e shamone, toda aquela pequena artilharia vocal que transformava uma canção numa assinatura.


O Michael Jackson do Bié também fala num registo agudo e delicado. Ficamos sem saber se estamos perante uma imitação levada até às últimas consequências ou simplesmente perante a sua voz natural. Talvez seja melhor não investigar demasiado. Há mistérios que sobrevivem precisamente porque ninguém teve a imprudência de os esclarecer.


Mas o verdadeiro triunfo de Michael Jackson do Bié não está na semelhança. Está na personalidade. Tem já uma frase que devia ser registada antes que alguém em Luanda a transforme numa marca de camisolas:


“Sinceramente, mano Fly…”


Quando ele diz “Sinceramente, mano Fly”, sabemos que vem aí alguma coisa. Não sabemos exactamente o quê, e suspeitamos de que ele também não, mas vem com uma solenidade irresistível. É introdução, argumento, conclusão e certificado de autenticidade.


E ele é genuinamente engraçado porque não parece fazer qualquer esforço para o ser. Há humoristas que trabalham semanas para fabricar espontaneidade. Michael Jackson do Bié possui o problema inverso: é espontâneo ao ponto de produzir comédia enquanto tenta apenas explicar-se.


Mas houve outra razão, talvez mais profunda, para tanta gente se reconhecer nele. Reconhecemo-nos também nas suas dificuldades económicas.


Michael Jackson do Bié não chegou ao Fly Podcast vindo de uma carreira artística, de um estúdio de gravação ou de uma agência de talentos. É vendedor ambulante de roupa feminina. Anda a vender as suas peças, tentando ganhar a vida numa economia em que cada kwanza parece ter recebido instruções para desaparecer antes do fim do mês. Vive numa casa pela qual paga cinco mil kwanzas de renda mensal.


É uma quantia pequena quando pronunciada por quem tem muito e uma quantia perfeitamente real para quem tem pouco. Talvez seja precisamente aí que a sua história deixou de ser apenas divertida. Por detrás das canções desafinadas e daquele inglês que não consta de nenhum dicionário, apareceu uma vida que milhares de angolanos conhecem: vender hoje para comer amanhã, fazer contas pequenas porque o dinheiro também é pequeno, improvisar uma existência sem nunca lhe chamar improvisação.


E, apesar disso, o homem parece extraordinariamente bem-disposto. Não há nele a amargura que seria perfeitamente compreensível. Há bonomia. Ri-se. Conversa. Canta. Faz os seus gestos de Michael Jackson. Diz “Sinceramente, mano Fly” como se a vida, apesar de tudo, continuasse a merecer uma explicação cordial.


Talvez tenha sido isso que comoveu tanta gente. Ontem à noite, milhares de pessoas riram. Mas não estavam propriamente a rir-se dele. Estavam a rir com ele.


Viram um homem cantar desafinado numa língua inventada sem saber que a tinha inventado. Viram-no tentar reproduzir um dos maiores artistas da história da música popular e produzir, pelo caminho, uma versão tão exclusivamente sua que a imitação acabou por se tornar original.


E muitos viram-se nele. Viram o vendedor ambulante. Viram o homem da renda de cinco mil kwanzas. Viram o angolano que não domina inglês mas não permite que esse pequeno detalhe administrativo o impeça de cantar em inglês. Viram alguém com poucos recursos e uma quantidade quase indecente de alegria.


Depois começaram as contribuições. Cem mil aqui. Duzentos mil acolá. Mais dinheiro. Mais promessas. Até ultrapassar dois milhões de kwanzas.


E há uma ironia maravilhosa nisso: o homem que provavelmente começou o dia preocupado com pequenas vendas terminou-o milionário em kwanzas, pelo menos em comparação com a vida que levava algumas horas antes. Mas recebeu algo talvez ainda mais raro. Ficou famoso numa noite.


Ontem era um vendedor ambulante do Bié que imitava Michael Jackson. Hoje há milhares de pessoas que sabem quem ele é, repetem as suas frases e esperam provavelmente pela próxima aparição.


É fácil rir de um homem que canta fora do tom. Mais difícil é perceber por que razão milhares de pessoas não conseguiram parar de o ouvir. Talvez porque, por detrás da imitação, encontraram autenticidade. Por detrás da pobreza, alegria. Por detrás daquele inglês impossível, uma voz absolutamente reconhecível.


O mundo já teve Michael Jackson. O Bié, prudentemente, decidiu fazer o seu.


E, sinceramente, mano Fly, o nosso talvez nem precise de aprender inglês. Se dois milhões de kwanzas e milhares de pessoas já compreenderam perfeitamente o que ele queria dizer, para que estragar tudo com uma tradução?

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