“Montei a empresa para escoar o produto das empresas portuguesas.” A frase é de Carla Castelo Trindade, ex-professora de José Leiria, antigo PCA da AGT e actual secretário de Estado para os Assuntos Tributários. Na segunda parte desta investigação, o Maka Angola segue o rasto das facturas emitidas em Portugal, de duas máquinas de algodão-doce que o gerente angolano diz nunca ter recebido e das centenas de milhares de euros transferidos de Luanda para Portugal.
Lei primeira parte (https://www.makaangola.org/2026/10/o-algodao-doce-da-agt-parte-1/)
“Montei a empresa para escoar”
Entretanto, a “Cidade dos Kandengues Tributários” fora incluída no Plano de Comunicação da AGT para 2024, levado a concurso público (https://www.makaangola.org/2026/09/agt-atribui-tres-mil-milhoes-a-empresa-que-ajudou-a-fazer-o-proprio-concurso-parte-1/) em Novembro de 2023, por mil milhões de kwanzas. Em mensagens a que o Maka Angola teve acesso, Carla gabou-se de ter participado na elaboração do concurso e na sua manipulação para garantir a vitória da In Pressionante Kianda. A participação activa da direcção da AGT na defraudação do concurso está devidamente documentada (https://www.makaangola.org/2026/09/agt-atribui-tres-mil-milhoes-a-empresa-que-ajudou-a-fazer-o-proprio-concurso-parte-2/). O contrato foi assinado a 22 de Abril de 2024.
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Do orçamento global, 222,3 milhões de kwanzas foram destinados a mais quatro feiras infantis.
Antes da assinatura do contrato, Carla já explicara a Salvador Pascoal a função da sociedade angolana. A 27 de Fevereiro de 2024, escreveu-lhe: “Montei a empresa para escoar o produto das empresas portuguesas.”
Era esse circuito que as facturas seguintes iriam alimentar.
“Explorem o OLX”
Em Abril de 2024, a procura de equipamentos continuava. No dia 14, Carla partilhou no grupo um anúncio do OLX de um insuflável usado, por 850 euros, e outro de “carrinhos pipocas e algodão-doce”, por 90 euros.
“Explorem o OLX”, instruiu. “É preciso correr as alternativas.”
No dia seguinte, Mário perguntou pelo “algodão e pipoca”. Carla avisou que “a Kianda está sem dinheiro”. A 16 de Abril, o grupo ainda discutia a compra ou o aluguer dos equipamentos. “Compramos? Alugamos?”, perguntou Mário. Às 19h01, ficou registada a resposta: “Compramos.”
No dia 17, a In Pressionante Unipessoal emitiu à Kianda a factura FT 2024A1/618, no total de 111.447,20 euros. Incluía um insuflável por 2.020 euros, uma máquina de pipocas por 1.050 euros e uma máquina de algodão-doce pelo mesmo preço. Declarava que os artigos e serviços tinham sido colocados à disposição da compradora naquele dia.
A factura estava pronta cinco dias antes da assinatura do contrato com a AGT e um dia depois da decisão de comprar os equipamentos.
No final de Maio e início de Junho, as cotações reunidas em Portugal indicavam uma máquina nova de algodão-doce por 300 euros, mais IVA, e uma de pipocas por 599 euros, mais IVA.
A 11 de Junho, surgiu a factura FT 2024A1/2, emitida por outra sociedade do grupo, a In Pressionante Wood & Metal. O total era de 391.798 euros. Entre dezenas de artigos, figuravam duas máquinas de algodão-doce, a 3.491 euros cada: 6.983 euros.
Com a unidade de 1.050 euros inscrita na factura de Abril, a Kianda tinha agora três máquinas de algodão-doce facturadas por 8.033,20 euros.
João dos Santos garante que recebeu apenas uma.
A factura e a transferência
A factura da Wood & Metal não ficou no papel. A 9 de Agosto de 2024, João dos Santos e Maria Filipa de Quadros assinaram uma ordem ao Banco Caixa Angola para transferir 352.618,84 euros, correspondentes a 90% do documento, a favor da sociedade portuguesa.
A 15 de Agosto, Tânia Ermitão, responsável financeira da empresa portuguesa, reiterou ao banco, com urgência, o pedido de transferência.
A 12 de Setembro, João dos Santos comunicou ao banco as divergências entre os sócios e pediu que fossem desconsideradas as autorizações de transferência para o exterior por si assinadas. No dia seguinte, a confirmação bancária registou a saída dos 352.618 euros.
Mas identificou como beneficiária a In Pressionante Unipessoal, não a In Pressionante Wood & Metal, que emitira a factura e constava da ordem assinada pelos gerentes.
O documento de cobrança incluía ainda 98 mil notas promocionais, 34 tablets e 16 televisores. João dos Santos afirma não ter recebido grande parte dos bens facturados.
Um levantamento elaborado pelo antigo contabilista da Kianda reúne cinco facturas das empresas portuguesas, emitidas entre Junho de 2023 e Julho de 2024, no valor de 662.231,82 euros. Inclui as facturas aqui descritas e outros fornecimentos: 140.587 euros em 2023 e 521.644,82 euros em 2024. Ao lado de cada uma, o contabilista registou a mesma observação: “Sem nota de desalfandegamento”.
Outro exemplo da forma como os fundos saíam da AGT está na factura FT 2024A1/68, de 18 de Julho de 2024, em que a In Pressionante Kianda cobrou 160 milhões de kwanzas por uma consultoria estratégica. “Como gerente da empresa, nunca assinei qualquer contrato com a AGT para prestar tal consultoria. É uma fraude”, afirma João dos Santos. Na mesma factura, no valor total de 470 milhões de kwanzas, cobravam-se também 160 milhões de kwanzas pela campanha Peça Factura. “Também nunca assinei contrato para essa campanha”, acrescenta.
O contrato de 22 de Maio de 2023 entre as duas In Pressionante, invocado para justificar as transferências bancárias, é claro: “A Kianda contrata a Unipessoal que aceita, para a prestação dos serviços no âmbito da produção, realização, montagem de feiras e fornecimento de material para a produção e realização das mesmas.”
Os contratos, entretanto, continuaram. A 28 de Julho de 2025, a AGT assinou a primeira adenda ao contrato de comunicação, por mais doze meses e 1,15 mil milhões de kwanzas. O contrato inicial e essa renovação somam 2,15 mil milhões de kwanzas. A 27 de Maio de 2026, a instituição promoveu nova renovação por doze meses, cujo valor não consta do ofício consultado.
A negação e as mensagens
Carla Trindade negou (https://www.makaangola.org/2026/09/direito-de-resposta-carla-castelo-trindade/) ao Maka Angola qualquer relação com a In Pressionante Kianda. A sua intervenção atravessa, porém, todo o percurso descrito. Apresentou as empresas ao presidente da AGT, trabalhou propostas, distribuiu tarefas, discutiu compras, negociou com dirigentes e apresentou-se ao banco como responsável pela parte financeira da sociedade.
Mais. O Maka Angola teve acesso a uma declaração emitida a 9 de Agosto de 2023, por Maria Filipa Teixeira de Quadros, na sua qualidade de gerente, cujo objecto era: “identificação do número de pessoas e perfis dos profissionais solicitados pela In Pressionante Kianda, Prestação de Serviços Lda para prestar os serviços de assistência técnica e de gestão”.
Da lista constam como gestores da empresa angolana: Mário Trindade Martins, sócio-gerente; Carla Trindade, directora financeira; Maria Filipa de Quadros, directora de marketing; Fernando Emídio Matos Silva, assistente administrativo e financeiro; e Ruben Pardal Ângelo, director de produção. A declaração foi enviada à AGT e ao Banco Caixa Angola, onde a empresa abriu conta, mas nunca fez parte do registo comercial da In Pressionante Kianda, nem constavam dos supostos trabalhadores registados no Instituto Nacional de Segurança Social (INSS), com excepção de Carla, que se apresentava como assessora.
A própria explicação de Carla a Salvador Pascoal resume o papel que assumia: “Montei a empresa para escoar o produto das empresas portuguesas.”
José Leiria, Nerethz Tati, Maria Filipa Teixeira de Quadros e a ministra das Finanças, Vera Daves, não responderam aos questionários enviados pelo Maka Angola.
Uma feira destinada a ensinar às crianças o valor dos impostos acabou por mostrar como os adultos tratam o dinheiro dos contribuintes. Nas facturas, três máquinas de algodão-doce. Na entrega descrita pelo gerente, uma. Entre Angola e Portugal, centenas de milhares de euros.
Depois das denúncias publicadas pelo Maka Angola sobre o assunto, o silêncio do Presidente da República, João Lourenço, que promoveu José Leiria a secretário de Estado para os Assuntos Tributários, do Ministério das Finanças e dos órgãos judiciais revela como a corrupção e a captura do Estado podem estar a ser promovidas pelas mais altas instâncias do país.
A leitura jurídica
Segundo o analista jurídico do Maka Angola, Rui Verde, “os factos descritos configuram um conjunto articulado de práticas que, à luz do ordenamento jurídico angolano, revelam indícios sérios da prática de crimes económico‑financeiros, violação grave dos deveres de probidade pública e captura institucional da Administração Geral Tributária (AGT)”.
Em primeiro lugar, Rui Verde sublinha a sobrevalorização de 2511% na aquisição das máquinas de algodão‑doce como “um indicador clássico de peculato por via de sobrefacturação, previsto e punível pelo Código Penal angolano”. A emissão de facturas sem correspondência material — como as facturas FT 2024A1/618 e FT 2024A1/2, que somam três máquinas de algodão‑doce quando o gerente afirma ter recebido apenas uma — “enquadra‑se ainda no crime de burla qualificada, agravado pelo facto de envolver recursos públicos e entidades contratadas pelo Estado”.
O analista nota ainda que “a articulação entre as empresas portuguesas e a sociedade angolana recém‑criada revela indícios de branqueamento de capitais, na medida em que a Kianda é utilizada como veículo para ‘escoar o produto das empresas portuguesas’, segundo a própria declaração de Carla Trindade”. Para si, a ausência de notas de desalfandegamento em todas as facturas reforça a suspeita de que parte dos bens nunca entrou fisicamente no país, funcionando as operações como meros instrumentos de transferência ilícita de fundos.
Para Rui Verde, o papel desempenhado por José Vieira Nuno Leiria, então presidente do Conselho de Administração da AGT e posteriormente secretário de Estado, é particularmente grave. A sua intervenção directa na apresentação das empresas, na facilitação das reuniões e na aprovação de propostas que antecederam a própria constituição da Kianda viola frontalmente os deveres de legalidade, imparcialidade, transparência e prossecução do interesse público consagrados na Lei da Probidade Pública. A relação pessoal e académica com Carla Trindade, que fora sua professora, orientara a dissertação de mestrado de um dos sócios angolanos e mantinha contacto privilegiado com o PCA, configura um claro conflito de interesses, não declarado e não mitigado, que contaminou todo o processo decisório.
Para o analista, a actuação de outros dirigentes da AGT – Nerethz Tati e Bráulio Assis – demonstra uma cultura institucional de subversão das regras de contratação pública, manipulação de concursos e utilização da máquina administrativa para favorecer interesses privados. A aprovação de projectos sem verificação material dos bens pagos, a pressão interna para evitar controlo financeiro e a utilização de epítetos depreciativos (“bruxa”, “bruxa má”) contra quem, como Roberta Malaquias, tentava exercer fiscalização revelam um ambiente de erosão ética profunda e de normalização da fraude.
Rui Verde considera ainda que o silêncio das autoridades políticas e judiciais – o Presidente da República, João Lourenço, a ministra das Finanças, Vera Daves, e os órgãos de investigação criminal – perante denúncias públicas de tamanha gravidade constitui, em si mesmo, um factor de deslegitimação do Estado. A ausência de reacção institucional demonstra a existência de uma captura vertical das estruturas de controlo, incapazes ou indisponíveis para actuar quando os suspeitos pertencem às altas esferas da administração tributária.
Por fim, Rui Verde aponta a drenagem sistemática de recursos públicos para o exterior, com pedidos de transferências de centenas de milhares de euros para empresas portuguesas, muitas vezes antes mesmo da entrada dos fundos na conta angolana, como uma prática estruturalmente lesiva da economia nacional.
A AGT, instituição responsável pela arrecadação fiscal em Angola, converteu‑se num canal de extracção de riqueza pública para benefício privado.
Na próxima investigação – “In Pressionante Vigarice da Kianda in Sana” – o Maka Angola revelará outro esquema egrégio de assalto à AGT, com a participação activa da sua direcção.
Maka Angola
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