Estamos numa tarde de inverno de Julho de 2007. Percorremos cerca de 40 Km de estrada até a cidade de Joanesburgo idos de Pretoria, dando resposta ao convite de comemoração de aniversario de uma personalidade africana. A Responsável do protocolo que na noite passada telefonou-nos para reconfirmar a nossa presença recebe-nos amavelmente e dirige -nos para o anfiteatro. Vários membros do Governo Sul-africano e figuras de elite daquela nação estão presentes. Um grupo de elementos fisicamente bem constituídos vestidos de pretos dispersam-se discretamente no local que é uma das salas de conferencia da Universidade de Wits. No verso das suas camisolas, em letras amarelas, pode ler-se: “Presidencial Security” (Segurança Presidencial). Algumas luzes se acendem. O silencio domina a sala. Pela porta de frente, ao auditório, entra devagarzinho alguém apoiado a uma bengala. Os olhares estão nele concentrados. Era o carismático líder da luta contra o apartheid, Nelson Mandela acompanhado da esposa Graça Machel.
Ninguém quer falar para não interromper o silencio. Desligamos voluntariamente os telemóveis sem sermos solicitados a faze-lo. Foi um sentido disciplinar incrível. A cada passo que o velho dá levanta o braço saudando os convidados. Olhava como se pretendesse identificar alguém. A sua frente, há uns 3 metros de distancia esta Jacob Zuma, o actual Presidente do ANC sentado ao lado do empresário Tokyo Sexwale. Mandela aponta o dedo a Zuma e com um ar sorridente diz: “preciso falar contigo”. A audiência solta-se em gargalhadas quebrando então o silencio. Parecia que desejava dar- lhe um puxão de orelha. É que na altura o ANC estava a viver um período de tensão a volta dos preparativos para o congresso que se realizaria em Dezembro do mesmo ano em que Zuma seria eleito numero um da hierarquia partidária.
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Naquele momento de emoção era visível que mesmo dirigentes como Tokyo Sexwale com quem Mandela privou cerca de 10 anos na cadeia não disfarçava o entusiasmo por estar diante do antigo colega de cela. Do nosso lado, a emoção não se coibiu.
O antigo prisioneiro do Apartheid prossegue com os passos lentos dirigindo-se ao assento que lhe foi reservado. Embora gozando de boa saúde, notamos que o velho esta fisicamente fraco provavelmente devido a idade avançada, deduzimos. A esposa Graça Machel ajuda-o até a cadeira, virada frontalmente para a plateia. Portanto, há outro dois lugares juntinho ao casal Mandela. Um para a Senhora Nani Annan de nacionalidade Sueca e outro para o seu esposo Kofi Annan que neste dia foi o convidado especial para festejar o aniversario do Ex chefe de Estado Sul africano. A Fundação Nelson Mandela, instituição promotora do evento convida anualmente uma figura de prestigio internacional para tal comemoração. O Premio Nobel de literatura Wole Soynka, e o ex Presidente norte americano Bill Clinton foram os convidados nos anos anteriores.
Entretanto, minutos depois de Mandela estar acomodado no seu acento, o Presidente da Fundação de que é patrono chama-o para proferir algumas palavras. Diante disso víamos um Mandela psicologicamente forte. Um Preletor possuidor de uma oratória que deixa o publico encantado. Parecia um jovem ativista encarnado no corpo de um velho. Impressionou-nos ainda por ter estado concentrado alguns minutos de pé apoiado a tribuna falando com uma firmeza enorme sem manifestar cansaço físico.
Nelson Mandela suspeita que muitos dos convidados terão atendido ao convite da sua fundação somente para o verem: “Vocês não vieram aqui para ver como se parece um velho de 89 anos mas para ouvir o que tenho para dizer” disse Mandela. A sala soltou-se novamente em gargalhadas. No nosso entender, estas eram palavras de alguém que nos deseja transmitir que o mais importante não é o mensageiro mas o teor da sua mensagem. Uma concepção que é contrariada em alguns países africanos onde os mensageiros são humilhados por causa das suas mensagens.
O orador fez uma incursão sobre alguns projectos transmitindo-nos as motivações que o levaram a juntar-se a um restrito grupo de antigos Estadistas renomados (James Carters, Clinton e etc) que passarão a dedicar a causas internacionais.
Num gesto que expressou honra para o continente africano, Nelson Mandela apresentou, mais adiante, o convidado especial: “Kofi Annan é uma figura internacionalmente distinguida e filho do nosso continente. Ele será lembrado como um dos defensores do multilateralismo.” Disse orgulhosamente Mandela com a sua oratória quase que rouca. Minutos depois chamou o convidado a tribuna para uma preleção. Kofi Annan fez uma frontal intervenção repudiando certos atropelamentos a democracia em África citando certos líderes africanos adeptos a praticas que retardam a democracia para se eternizarem no poder, segundo o seu ponto de vista. Na manha seguinte as palavras de Kofi Annan ecoaram as principais páginas dos jornais sul africanos.
Enquanto isso o carismático Mandela permanecia concentrado no seu lugar atento as palavras do único negro que chegou a chefia máxima da ONU a quem trata-o por “Boss”. Com a plateia atenta a Kofi Annan, este antigo Secretário Geral da ONU revela que ao ser recebido em casa de Mandela chegou a perguntar o seguinte ao antigo Chefe de Estado Sul africano: “Como é que eu posso ser teu Boss?” e Mandela respondeu-lhe “Tu dirigiste uma organização multilateral que te mantinha em viagem constante pelo mundo.” Mandela sorria mas mantendo-se totalmente concentrado sem denunciar sinal de cansaço de estar sentado por mais de uma hora. Não movia. Não pestanejava. Não cabeceava. Era algo impressionante para a idade avançada.
Terminada a preleção o programa prosseguiu com um jantar bastante requintando. Porem, antes de deixarmos a sala onde atendemos a lição verificamos que de baixo do canto, dos braços, das nossas cadeiras pousava uma sacola de papel distribuída pela Fundação do aniversariante contendo brochuras sobre o seu legado. Ao abrirmos algo desperta-nos a atenção: era um papel grosso parecido a um cartão postal, no meio de outros papéis trazendo a seguinte mensagem: “Continuarei a lutar pela liberdade até os últimos dias da minha vida”. Mais abaixo esta assinado, Nelson Mandela.
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