ANGOLA : ENTRE GOLPES IMAGINADOS E AMBIÇÕES REAIS- Hitler Samussuku



Em quase meio século de independência, Angola jamais viveu um golpe de Estado consumado. No entanto, são inúmeras as vezes em que a narrativa do golpe foi evocada como instrumento de intimidação, manobra política ou cortina de fumo para rearranjos internos no seio do próprio regime. O caso mais emblemático continua a ser o de 27 de Maio de 1977 — uma das mais sangrentas repressões da história contemporânea de África, que o regime rotulou como “tentativa de golpe de Estado”, mas que muitos historiadores e sobreviventes classificam como um expurgo político dentro do MPLA. Foi, acima de tudo, um massacre com selo de Estado.


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Décadas depois, em 2015, um grupo de jovens activistas — conhecidos como 15+2 — foi acusado de “tentativa de golpe de Estado” por… estarem a ler Gene Sharp e sonhar com uma democracia real. Eram jovens com livros, não armas. Mas bastou isso para o regime ativar o seu velho argumento de sobrevivência: a paranoia do golpe.


A verdade nua e crua é que nunca houve um golpe de Estado em Angola porque o próprio sistema foi arquitetado para que isso jamais ocorresse. As Forças Armadas, os Serviços de Inteligência e os aparelhos de repressão foram moldados sob uma lógica de fidelidade total ao Presidente, com generais estrangeiros — oriundos de Cabo Verde, São Tomé e outros países — estrategicamente integrados e promovidos ao topo da hierarquia. Foram acolhidos, protegidos e premiados com privilégios inatingíveis para a maioria dos angolanos. Um golpe seria, para eles, como cuspir no prato onde sempre comeram.


Mas há algo que começa a fugir do controlo.


João Lourenço, hoje acuado por contradições internas, vê-se ladeado por duas figuras com histórico de ambição e protagonismo. De um lado, Fernando Garcia Miala, chefe dos serviços de inteligência, que em 2006 foi acusado de tramar contra José Eduardo dos Santos e, por isso, caiu em desgraça. Do outro, Francisco Furtado, ex-Chefe do Estado-Maior General das FAA, que após ser afastado, regressou ao seu país de origem, Cabo Verde, onde até manifestou o desejo de concorrer à presidência. Dois homens que conhecem os meandros do poder, dois homens que já provaram que têm agenda própria. E hoje, curiosamente, são os braços direito e esquerdo do próprio João Lourenço.


A sombra de Higino Carneiro também assusta. O general, político e ex-governador não esconde mais o seu desconforto com os “Lourencistas”. Para muitos, ele é o único dentro do MPLA capaz de fazer frente ao actual chefe do Executivo. E o mais inquietante: ele tem aliados, recursos e memória longa. O espectro da vingança ronda o Palácio da Cidade Alta como nunca antes desde a transição de 2017.


As especulações sobre um golpe deixam de ser apenas teorias conspirativas quando se tornam instrumento de cálculo e autopreservação. E se houver golpe, este não virá da oposição. Virá de dentro. Não será feito por tanques nas ruas, mas por telefonemas, exonerações, detenções e mortes suspeitas.


A oposição liderada por Adalberto Costa Júnior, até aqui, mantém-se na linha institucional, clamando por eleições justas, reformas e alternância. Mas seria ingênuo tirá-la da equação. Num país onde a legalidade é manipulada ao sabor dos interesses do poder, até mesmo os pacíficos podem ser empurrados para os cantos escuros da repressão.


A evocação constante do golpe é, na verdade, o último argumento dos regimes fracos. Foi assim na Turquia, com Erdogan, que usou uma tentativa real (ou simulada) de golpe para prender milhares, silenciar adversários e consolidar um poder absoluto. Em Angola, um “golpe interno” pode ser o pretexto ideal para instaurar um Estado de terror legalizado, suspender direitos, fechar a Assembleia e eternizar um grupo que já não governa com legitimidade — apenas com medo.


Mas a história ensina: golpes alimentam ciclos de vingança. O que Angola precisa não é de mais uma ruptura brutal, mas de uma transição pacífica, responsável e negociada. Precisamos romper com o ciclo de perseguições, onde as mágoas pessoais se sobrepõem ao interesse nacional. A alternância não é um risco — é a única saída.


Angola não precisa de um golpe. Precisa de coragem para mudar sem matar.


Hitler Samussuku


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