Os disparates de Norberto Garcia, típicos dos altos quadros do MPLA, têm uma face positiva: tornam evidente a urgência de reescrever a história angolana. Recontar Angola é um acto de justiça histórica, uma forma de devolver aos angolanos o direito de conhecer e celebrar a sua verdadeira origem, longe das sombras coloniais e perto da luz da sua própria dignidade.
Norberto Garcia – director do Gabinete de Estudos e Análises Estratégicas (GEAE), um órgão de assistência ao Presidente da República de Angola – resolveu dizer uns disparates sobre Diogo Cão – o primeiro português a chegar à foz do rio Congo – e a corrupção em Angola. A coisa correu-lhe especialmente mal e Norberto tornou-se alvo de chacota generalizada. Como é habitual nos altos quadros do MPLA, entrou em contradições e esqueceu-se de que o seu próprio governo homenageia Diogo Cão, por exemplo dando o seu nome a uma rua no Lobito.
Contudo, a ignorância atrevida de Norberto Garcia tem um aspecto positivo: põe em evidência a necessidade de rever e reescrever a história de Angola.
Fisioterapia ao domicílio com a doctora Odeth Muenho, liga agora e faça o seu agendamento, 923593879 ou 923328762
Durante séculos, a história de Angola foi na perspectiva colonial, centrada na chegada dos portugueses e na suposta “descoberta” de terras que já eram habitadas por povos organizados, com culturas ricas e sistemas políticos consolidados.
Essa narrativa, profundamente eurocêntrica, ignora o facto de que, quando Diogo Cão chegou ao rio Congo em 1482, já existiam reinos poderosos e sociedades estruturadas no território que hoje conhecemos como Angola. O Reino do Kongo, por exemplo, era uma entidade política sofisticada, com uma capital – Mbanza Kongo – que impressionava pela sua organização administrativa, religiosa e comercial. Este reino mantinha relações diplomáticas com outros povos africanos e, mais tarde, até com a Europa, mas sempre a partir de uma posição de soberania.
Além do Kongo, existiam outros reinos, como o Ndongo. Todos tinham estruturas próprias, lideranças locais e sistemas de governação que não só resistiram à penetração europeia como também influenciaram profundamente a dinâmica da região.
A ideia de que Angola foi dominada por Portugal durante 500 anos é um mito que precisa de ser desconstruído. Na realidade, durante grande parte desse período, a presença portuguesa esteve confinada às zonas costeiras, com incursões esporádicas e frequentemente contestadas no interior. Só entre 1920 e 1960, depois de intensas campanhas militares, com o avanço da administração colonial e a intensificação da exploração económica, é que Portugal conseguiu exercer um controlo mais efectivo sobre o território angolano – e, mesmo assim, enfrentando resistência constante por parte dos povos locais.
A resistência angolana à ocupação estrangeira é uma das dimensões mais negligenciadas da historiografia tradicional. Figuras como a Rainha Nzinga Mbandi, que liderou os reinos de Ndongo e Matamba contra os invasores portugueses, são exemplos de liderança africana, estratégia política e diplomacia que desafiam a narrativa de passividade frequentemente atribuída aos povos colonizados.
A história de Angola é, portanto, uma história de luta, de afirmação cultural e de resiliência.
Hoje, há uma necessidade urgente de reescrever a história de Angola a partir de uma perspectiva africana, em que a angolanística seja valorizada, assente nas fontes locais: a oralidade, os saberes tradicionais e as evidências arqueológicas.
Tal como se está a fazer com a história da Pérsia – que durante séculos foi contada apenas a partir da visão grega, reduzindo os persas a meros antagonistas atrasados, coisa não eram de todo –, também Angola precisa de recuperar a sua voz histórica. A nova historiografia angolana deve apostar em métodos multidisciplinares, que vão além da escrita colonial e que integrem linguística histórica, antropologia, arqueologia e estudos culturais africanos.
É tempo de acabar com os mitos. Angola não nasceu da colonização, mas sim da força dos seus povos.
A história angolana não é um apêndice da história portuguesa – é uma narrativa própria, complexa, plural e profundamente africana. Recontar Angola é um acto de justiça histórica, uma forma de devolver aos angolanos o direito de conhecer e celebrar a sua verdadeira origem, longe das sombras coloniais e perto da luz da sua própria dignidade.
Portanto, deixem o Diogo Cão em sossego e estudem o que havia antes, e que continuou. Esta devia ser uma das prioridades dos 50 anos da independência actual de Angola, em vez das palhaçadas a que temos assistido, como o jogo de futebol Argentina-Angola, um exemplo acabado de falta de bom senso e de exibicionismo pornográfico das camadas dirigentes.
Maka Angola
Siga o canal do Lil Pasta News clicando no link https://whatsapp.com/channel/0029Vb4GvM05Ui2fpGtmhm0a
Lil Pasta News, nós não informamos, nós somos a informação



0 Comentários