Crónica: A Nação da Reunião- Ademar Rangel



Bem-vindo à gloriosa República das Reuniões, onde o hino nacional podia muito bem começar com: “Convoco-te, ó reunião, pátria amada…” 

Aqui… reúne-se. É quase religião. O milagre não está no pão e no vinho, mas sim na acta e no PowerPoint.


O sistema é simples. O topo reúne e dá instruções. O problema é que, em Angola, toda a gente é topo de alguma coisa. O motorista é topo do volante, o chefe de secção é topo da mesa, o director é topo do carimbo. E cada topo tem o dever patriótico de reunir também, para discutir o que o outro topo já discutiu. Resultado: passamos dias inteiros a transferir ideias como se fossem carregadores de telemóvel que nunca encaixam.


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Chegamos ao executor. A pobre alma. Ele faz o que quase ninguém faz: lê o que está escrito. Coisa rara, quase exótica no país. Cumpre as instruções, entrega o trabalho… e recebe de volta uma tempestade de opiniões vindas dos níveis intermédios que não leram nada, mas juram que sabem tudo. Alterar, alterar, alterar. Uns até opinam só para justificar a própria existência — se não disserem nada, o chefe pode até esquecer que existem. E assim o trabalho vira novela mexicana: nunca termina, apenas muda o enredo.


Finalmente, a obra sobe outra vez ao topo. O topo, claro, detesta. Não é nada do que imaginou! Até que o executor, já com olheiras tão pretas quanto a faixa da bandeira, mostra ao topo a primeira versão. Milagre! É exactamente o que o topo queria desde o início. Palmas, selfies e discurso: “Foi um processo de construção colectiva.” Colectiva coisa nenhuma: só o executor é que leu as instruções.


No fim do dia, o contribuinte paga a conta. Um projecto que custava 10 sai por 100 ou 1000. O topo fica feliz porque a sua “visão” foi respeitada, o intermédio gaba-se das dez reuniões que teve (porque, no imaginário nacional, trabalhar muito é igual a reunir muito), e o executor… esse ganha umas moedinhas para pagar a psicóloga e uns cafés extras.


E o país? O país já está na reunião, workshop ou colóquio seguinte.


Conclusão: o verdadeiro sucesso do país virá no dia em que produzir mais riqueza do que actas.


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