No Huambo, conheci malianos que não falavam apenas português, mas também umbundu, como se a própria terra lhes tivesse ensinado a língua. Amanhã, os antepassados do Planalto Central erguer-se-ão como vento a atravessar a relva; haverá Katita; haverá Lombendo, haverá sawaya— danças outrora escondidas pela vergonha, agora libertas no sopro da liberdade. África mover-se-á nos seus membros, o património a arder como um batuque. Dançarão de alegria — sim, dançarão de alegria — porque Salif Keita, o nobre filho do Mali, a voz gigante do nosso continente, irá cantar. E isso é tão gratificante, porque algumas das nossas grandes vozes do Planalto ( como a mui amada Edna Mateia e outros) também serão lançadas ao mundo, para que a grandeza e a complexidade estratificada de cada palco nosso sejam mostradas para além das nossas colinas.
Descobri Salif nos anos 80, quando era estudante em Londres, numa época em que a música africana tinha de súbito se tornado um pulso na rádio, um espetáculo na televisão, uma revelação no palco. Trabalhei durante algum tempo numa empresa de relações públicas que promovia a música africana; comecei a escrever sobre concertos, entrando nos bastidores com o meu amigo, o fotógrafo Adrian Arbib. A sua câmara abria portas, e eu encontrava-me entre músicos cuja arte não era mero entretenimento, mas vocação, tradição e destino. No Oeste Africano, aprendi que a música nunca é ligeira; é o fardo do griot — a canção como arquivo, a melodia como história. Entre nós os Bantus, também, os guardiões da memória eram aqueles que cantavam o passado para o tornar presente. Esse saber dava aos músicos uma gravidade, um poder, que impunha respeito.
Vi Salif em Paris; vi-o em Londres; vi-o nos Estados Unidos, em palcos onde os aplausos caíam como tempestade. Mas o que mais me impressionou foi a sua compostura: em todo o esplendor permanecia imperturbável, levando a música com uma seriedade que não deixava espaço para vaidades, nem para os floreados vazios que adornam tantos intérpretes mais jovens. Era sempre a música em primeiro lugar — a voz de um povo, a dignidade da tradição, o pulso de África levado sem frivolidade, sem concessões.
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A singularidade de Salif Keita reside na sua capacidade de se tornar fusão viva de tradições musicais. Se ouvirmos com atenção os seus primeiros álbuns, escutamos ecos entrelaçados: a inflexão árabe, o toque clássico ocidental, o espírito do jazz, a dor do blues.
Todos estes fios convergem em algo
surpreendentemente novo, algo inconfundivelmente africano, mas aberto ao mundo. Por vezes, parece que a percussão cubana irrompe com o seu trovão, apenas para Jimi Hendrix atravessar com o seu fogo eléctrico, e logo uma kora maliniana ou uma linha de guitarra a unir todos esses mundos. Nada destoa; tudo flui. A fusão é sem costuras, as transições suaves, o resultado um som ao mesmo tempo ancestral e futurista — uma voz que transporta continentes dentro de si.
Tudo isto floresceu, em parte, dos seus anos em Paris, quando actuava em pequenos clubes depois de deixar Bamako, convivendo com músicos de todos os cantos. Paris, nos anos 80, fora moldada deliberadamente como refúgio onde os artistas africanos eram valorizados, onde as culturas floresciam e onde as portas de bons estúdios e de músicos exímios estavam abertas. Recordo-me dele mais tarde no Queen Elizabeth Hall, em Londres, ao lado do extraordinário Richard Bona no baixo — um momento que mostrou até onde esse cadinho parisiense o tinha levado. Ali construiu um público europeu fiel, que o acolheu sem as barreiras e suspeitas que poderiam ter surgido noutros lugares. A verdade é que os europeus podem ser surpreendentemente abertos quando se trata de música; essa abertura, aliada ao cultivo deliberado da arte africana por parte de Paris, ajudou a catapultar Salif Keita até às alturas que viria a alcançar.
A mesma riqueza e aclamação poderiam tê-lo retido na Europa, como aconteceu a tantos outros, mas Salif regressou a África. Escolheu o continente em vez do exílio e, ao fazê-lo, aprofundou o seu papel não apenas como músico, mas como voz de consciência. Sendo ele próprio albino, foi incansável na sua campanha contra a discriminação e a violência sofrida pelas pessoas com albinismo. A sua música tornou-se mais do que arte; tornou-se testemunho, desafio, afirmação luminosa de que a diferença é dignidade, de que aquilo que a ignorância despreza pode ser exaltado pelo canto.
E num país onde o ruído tantas vezes se disfarça de música, onde medíocres completos sem talento são empurrados para a ribalta como intérpretes, é um dom termos um verdadeiro músico — um homem com alma, com talento — a erguer-se diante da multidão para inspirar a juventude.
Demasiada da música popular do nosso país tornou-se lixo: vulgar, vazia, celebração da baixeza em vez do espírito. Talvez não se compreenda cada palavra que Salif canta, mas através da sua voz brilha a pureza, a dignidade e a grandeza da própria África. Espero sinceramente que a juventude do Huambo esteja presente, porque isto é história em movimento — um verdadeiro renascimento, um despertar cultural do Planalto Central. E devemos inclinar-nos em gratidão a todos aqueles que trabalharam para tornar possível esta nobilíssima iniciativa. (Fotos: Alexa Tomás).
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