Já aqui estivemos. Nos anos setenta, quando a equipa do Zaire, luminosa e irreverente, se aventurou no Mundial e, aos olhos de muitos, inaugurou a verdadeira presença africana no grande palco, os seus primos zambianos, rivais de sempre, apressaram-se a explicar aquele êxito não com treino, tática ou talento, mas com feitiçaria, como se a bola obedecesse menos ao pé do jogador do que a forças ocultas convocadas na penumbra. Meio século depois, mudam os nomes dos estádios, mudam as camisolas e as transmissões em alta definição, mas a tentação de recorrer ao invisível para justificar o que não se quer compreender permanece teimosamente de pé. Foi o que se viu no jogo contra a Nigéria.
Eu próprio vi o jogo, do primeiro ao último minuto, sem me ausentar nem no prolongamento emocional que são os penáltis, e segui com atenção a análise do comentador britânico, um desses profissionais que conhecem o jogo por dentro, sabem de cor a genealogia tática das grandes selecções, a história dos clubes, o percurso dos jogadores. No cômputo geral, e em inteira honestidade, a conclusão impunha-se com uma clareza quase desconfortável: a República Democrática do Congo praticou o futebol mais consistente, mais consequente, mais adulto. A Nigéria esteve bem, teve instantes de brilho, lembrou por momentos a sua própria tradição de grande potência africana; mas os seus rivais foram melhores, mais organizados, mais calmos nos momentos em que o nervo costuma trair até os mais experientes. Não foram derrotados por feitiçaria; foram derrotados por uma equipa que, naquela noite, foi simplesmente superior.
Uma das coisas por que deveríamos estar sinceramente agradecidos, quando olhamos para o panorama atual do nosso futebol, é precisamente a exposição de tantos jogadores africanos às grandes competições internacionais, ao convívio diário com planos táticos de primeira linha e com equipas técnicas que trabalham com um rigor quase clínico. Muitos destes rapazes crescem hoje em academias onde o treino se mede em dados, em cargas de trabalho, em sessões de vídeo, em minúcias de posicionamento que, há algumas décadas, seriam vistas como esoterismo. Há um vaivém discreto entre o jogador que actua numa liga europeia e o colega que ainda dribla nos relvados irregulares de uma cidade africana; nessa circulação de hábitos e referências, muita da mitologia que alimentava o futebol de aldeia ou de bairro, com o quimbadeiro a “preparar” espiritualmente a equipa, vai sendo empurrada para o território anódino da anedota.
Se quisermos conservar a metáfora, o feiticeiro de hoje é o técnico adjunto que passa horas a rever o jogo anterior, o analista que regista movimentos, o seleccionador que decide, com frieza, quem entra e quem sai. A cabana cheia de fumos e rezas cede lugar à sala onde se projetam imagens e se discutem linhas de pressão, temporização, coberturas. Vemos isso na RD Congo e em várias outras selecções africanas que, com todos os limites estruturais que ainda carregam, começam a tratar o jogo como aquilo que ele é: um exercício de inteligência, de disciplina, de coordenação colectiva. A verdadeira “bruxaria” passa a ser a capacidade de manter a cabeça fria quando o estádio inteiro ferve.
Não deixa, por isso, de ser revelador que, durante muito tempo, a própria RD Congo tenha sido, no imaginário de muitos, um ator secundário, quase folclórico, no teatro do futebol africano; não por falta de talento, que sempre houve, mas pela desorganização crónica da sua federação, pela incapacidade de transformar gerações promissoras em projetos sustentados. Essa realidade começa a mudar, ainda que de forma desigual, e é precisamente essa mudança que alguns parecem incapazes de aceitar. Para quem se habituou a ver a RD Congo como sinónimo de caos, torna-se quase inverosímil que a selecção apareça agora compacta, concentrada, competitiva. Incapazes de reconhecer o trabalho paciente e invisível que está por detrás dessa transformação, refugiam-se na velha explicação confortável: “só podem estar a usar feitiço”.
O mais inquietante é que esta narrativa não circula apenas entre os que repetem, na esquina do bairro, o que ouviram dizer na véspera; encontra eco, muitas vezes, em gente altamente escolarizada, em comentadores e dirigentes que, teoricamente, deveriam ser os primeiros a defender a ideia de que o mérito, a organização e a preparação mental contam mais do que qualquer superstição. Ao preferirem a tese da feitiçaria à análise das falhas táticas, das oportunidades desperdiçadas, das desconcentrações em minutos decisivos, prestam um duplo desserviço: roubam à RD Congo o mérito da vitória e privam a Nigéria da oportunidade de aprender com a derrota. Onde se invocam espíritos, suspende-se o exame crítico; onde não há exame, não há progresso.
O respeito, em futebol como na vida, pertence a quem o conquista, não a quem o reclama por direito adquirido. A RD Congo conquistou-o, minuto a minuto, lance a lance, até chegar a este resultado histórico. A sua qualificação é mais um sinal de que o futebol africano avança, lenta mas firmemente, por via de investimento, método e formação de talento, e não pelo folclore de narrativas mágicas que tantos repetem sem as interrogar. Aceitar essa evidência implica também exigir mais de nós próprios, dos nossos dirigentes, dos nossos treinadores, dos nossos comentadores. Honrar o jogo significa olhá-lo de frente, reconhecer quem foi melhor, admitir o que falhou, aprender e recomeçar. Tudo o resto, por mais vistoso que pareça, é ruído que só serve para encobrir aquilo que mais precisamos de ver.
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