Salas Neto, jornalista, escritor, bon vivant e orgulhoso morador do Rangel, pertence àquela espécie rara de repórteres que, dentro em pouco, só se verão em vitrinas de museu, ao lado das velhas linotipias e dos telefones de disco. Na tribo dos jornalistas há, desde sempre, um parentesco clandestino com os romancistas de imaginação, espécie de primos afastados que esticam as noites em mesas pejadas de copos, que elevam o mexerico à categoria de género literário, que levam ao extremo os prazeres da mesa e das mulheres, não por simples vício, mas por uma fé obstinada na exuberância da vida. São criaturas empurradas para o excesso, que espremem o quotidiano até à última gota, que conservam um bom humor quase indestrutível, que se antecipam à chacota alheia rindo primeiro de si próprias e para quem a solenidade absoluta inspira sempre desconfiança. Salas Neto encarna esse espírito com a naturalidade de alguém que parece ter nascido já com a gargalhada pronta e o caderno de notas arrumado no bolso do peito.
Creio tê-lo conhecido por volta de 2005 ou 2007, talvez um pouco antes; as datas esbatem-se como fotografias antigas, mas o cenário mantém-se nítido. Eram os anos dourados do Semanário Angolense, quando uma fauna brilhante de jornalistas se reunia em torno daquele título e em que fazer jornal era também uma forma de festa colectiva. À frente da redacção estava Graça Campos, combativo, por vezes feroz, convencido de que havia que praticar um jornalismo com ambição cosmopolita; queria um jornal feito para ser lido em Luanda, em Lisboa ou em Joanesburgo, sem perder a dignidade. Quando eu vinha a Luanda, instalava-me muitas vezes no seu gabinete; ele não se importava que eu ocupasse a sua secretária, desde que, em troca, eu derramasse sobre o jornal crónicas em bom ritmo, como se a página tivesse fome.
Salas Neto ocupava uma mesa na sala grande, mergulhada no ruído contínuo dos telefones, em cinzeiros cheios e em pilhas de papel que ameaçavam desabar. Surpreendeu-me encontrá-lo quase tímido, de voz baixa, depois de anos a admirá-lo pela escrita incendiária e pela prosa densamente trabalhada. Eu construíra na cabeça a figura de um erudito de laço ao pescoço e cachimbo de madeira; encontrei um homem de calças chino e camisas polo, descontraído, com ar de quem aprecia vinho e cerveja, conversa simples e um pé firmemente assente na terra batida. Esse contraste entre o homem real e a prosa olímpica tornou-se, desde logo, parte essencial do seu encanto.
Um dia fomos almoçar às barracas improvisadas junto a um parque infantil abandonado, resto enferrujado de uma antiga feira de promessas. Aqueles fogareiros ao ar livre eram então novidade em Luanda, como se a cidade descobrisse ali a possibilidade de comer bem fora dos circuitos oficiais, longe das toalhas engomadas e dos aparelhos de ar condicionado. Quando o funge chegou, ainda a fumegar, Salas traçou uma cruz com a colher, ele próprio, que se declarava ateu convicto. O gesto, vindo de um céptico militante, comoveu-me de forma inesperada, como se a liturgia da infância fizesse uma breve visita à idade adulta antes de se afastar de novo para as sombras.
Enquanto comíamos, aproximavam-se vendedores com pastas cheias de “CDs de jindungo”, gravações clandestinas que prometiam atiçar a imaginação e incendiar a reputação de meio mundo. Recusávamos, entre o riso e o embaraço, e eu pensava que aquela pequena cena: funge, cruz, ateu, cozinheiras, vendedores de segredos e fumo a subir devagar, resumia a contradição luminosa de Luanda, cidade em que o sagrado, o profano e o comércio se sentam à mesma mesa.
Tive também a honra de ser convidado para os famosos almoços em casa de Salas Neto, no Rangel. Ele vive na mesma casa há décadas e gosta genuinamente daquele bairro, com a lealdade de quem escolhe não apenas um endereço, mas uma pertença. É difícil imaginá-lo em Talatona, entre condomínios fechados, portões eléctricos e jardins de catálogo. A sua geografia afectiva é o Rangel, com o rumor constante das esquinas, os vizinhos antigos que sabem de cor a história uns dos outros, um equilíbrio precário entre improviso e memória que nenhuma urbanização vigiada consegue reproduzir.
A casa é comandada pela mulher, bela e excelente cozinheira, anfitriã perfeita que fala pouco, deixando a palavra para o marido, mas cujo rosto transmite a cada convidado a mensagem silenciosa de que ali está em casa. Salas tem uma única filha adulta, facto que surpreende num homem do seu carisma, habituado a noites de redacção, bares, encontros e desencontros; outro qualquer teria descendência espalhada pelos bairros de Luanda; ele preferiu, contudo, um núcleo familiar austero e coeso. Numa das visitas, a alegria era maior porque acabara de nascer o segundo neto; falava do bebé com um orgulho sereno que suspendia por instantes o ironista profissional e deixava ver o avô desarmado.
Tendo deixado Angola em criança, nunca dominei bem o português escrito. Os meus textos chegavam à redacção com um certo sotaque inglês, com frases desajeitadas e tropeções de sintaxe, e muitas vezes era Salas quem os resgatava. Era um mestre absoluto da língua; dançava com as frases, distinguia num ápice entre voz activa e voz passiva, alinhava paralelismos com leveza, manejava preposições como quem joga pingue-pongue num pátio cheio de miúdos. Amava o português e o ofício com uma paixão artesanal. E, no entanto, nada nele se apresentava como literário: o mesmo passo tranquilo pelo bairro, as mesmas roupas simples, o mesmo ar de quem podia ser mais um entre tantos. Na rua, parecia um luandense comum; só ao abrir o jornal se percebia que aquele homem aparentemente banal regia a página como maestro exigente, atento a cada violino e a cada pausa.
A sua biografia pessoal, como a de muitos da sua geração, é também uma cartografia de querelas públicas, capítulos sucessivos de um romance de costumes angolano. Teve um longo contencioso com William Tonet por pagamentos nunca regularizados; desentendeu-se com Riquinho, esse empresário de gestos teatrais; e guarda até hoje um ressentimento íntimo contra a UNITA, a quem acusa de ter sabotado, nos anos oitenta, a bolsa que lhe permitiria estudar Direito em Coimbra, alegando que alguém terá plantado uma falsidade no processo. A exactidão minuciosa dos factos pode discutir-se, como em quase todas as histórias angolanas desse período, mas a narrativa é dele e revela a cartografia interna com que organiza lealdades, rancores e guerras escolhidas.
O fim do Semanário Angolense foi abrupto e amargo. O jornal mudou de mãos; a nova direcção era composta por jovens depouco mais de vinte anos, recém-chegados de Lisboa, provavelmente no primeiro emprego, mais fascinados pelo poder simbólico do título do que pela responsabilidade que ele trazia. Salas Neto tornou-se diretor numa situação quase impossível. A nova propriedade não desejava jornalismo, desejava sobretudo abafar uma voz demasiado independente. Antes de silenciar, era necessário construir a narrativa de que o jornal já vinha doente, fatigado, sem remédio. Vi-o, nesses meses finais, tentar salvar não apenas o jornal, mas também a dignidade do projecto, num barco em que lhe serravam, com método, as tábuas por baixo dos pés. Foi nesse período que o meu respeito por ele cresceu sem limites.
Entretanto, Salas foi perdendo a visão. Um dia disse-me, com uma simplicidade desarmante: «Vou ficar cego, é isso.» Não havia queixume, apenas a constatação seca de quem anota um facto no bloco de repórter. A história da sua quase cegueira é também a história da coragem com que a suporta. Não perdeu o humor, nem a paixão pela escrita, nem a curiosidade pelo mundo. Continua irreverente, mordaz, traquina, obcecado pelo jornalismo até ao excesso, sempre pronto a transformar uma conversa de esquina numa pequena investigação sobre o estado do país.
É de figuras assim que a profissão precisa: lembretes vivos de que vale a pena insistir, de que ainda há nobreza neste ofício de perguntar, duvidar, escrever. Quem cruza o seu caminho arrisca contagiar-se com um vírus benigno, um “vírus do sempre” que impede de desistir de olhar, pensar e narrar o que vê. Entre as muitas personagens que conheci no jornalismo, Salas Neto permanece, para mim, uma das mais fascinantes e inesquecíveis.
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