O Movimento Popular de Libertação de Angola (MPLA) fundado em 1956 a partir da fusão de dois grupos anticoloniais: o Partido da Luta Unida dos Africanos de Angola (PLUA), fundado em 1953, e o Partido Comunista Angolano (PCA), fundado em 1955. Posteriormente, uniram-se ao MPLA: o Movimento para a Independência Nacional de Angola (MINA; fundado em 1958) e o Movimento para a Independência de Angola (MIA). Tais grupos unidos formavam correntes distintas dentro do movimento, que lutavam pela predominância, que acabou ficando com a corrente do PCA, liderada por Lúcio Lara (marxista-leninista) e Viriato da Cruz (maoísta).
O Manifesto do MPLA, redigido por Viriato da Cruz entre 1955 e 1956, é um dos textos fundadores mais importantes da história contemporânea de Angola. Ele não apenas anunciou a emergência de um nacionalismo moderno, urbano, revolucionário e culturalmente enraizado, mas também antecipou as linhas ideológicas que moldariam o Movimento Popular de Libertação de Angola (MPLA). Embora seja um documento essencialmente angolano, profundamente marcado pela experiência colonial portuguesa e pela criatividade intelectual de Viriato, é impossível ignorar a inspiração internacional que o atravessa - entre elas, a influência da Revolução Chinesa e do pensamento maoísta.
A década de 1950 foi um período de intensa circulação de ideias anti-coloniais entre Ásia e África, especialmente após a vitória da Revolução Chinesa em 1949 e a Conferência de Bandung em 1955, onde a República Popular da China emergiu como símbolo da resistência ao imperialismo. Para jovens intelectuais africanos, sobretudo aqueles empenhados em construir movimentos de libertação ainda incipientes, o exemplo chinês apresentava um modelo convincente: a vitória de um povo colonizado sobre uma potência estrangeira, a defesa da mobilização das massas e a centralidade da cultura como arma política.
É neste contexto que se deve compreender a elaboração do Manifesto de Viriato da Cruz. A visão de um movimento que não se limitava a elites urbanas, mas buscava transformar-se numa força nacional, abrangendo camponeses, trabalhadores, intelectuais e a juventude urbana, tem afinidades claras com a estratégia maoísta de “revolução desde as massas”. A ênfase no protagonismo popular - e não apenas na vanguarda intelectual - aproxima Viriato da Cruz da ideia chinesa de que a libertação só seria possível pela participação ativa e consciente do povo oprimido.
Além disso, a linguagem do Manifesto - direta, politicamente assertiva e profundamente moral - carrega traços do nacionalismo revolucionário que caracterizou a China entre 1949 e 1955. O uso da cultura como instrumento de identidade e resistência também ecoa a valorização maoísta da literatura, da poesia e da educação popular como motores de transformação social. Não é por acaso que Viriato, poeta de excelência, concebeu a luta não apenas como um processo militar ou político, mas como um renascimento cultural de um povo historicamente silenciado.
Contudo, a influência chinesa não anula a originalidade do Manifesto, nem reduz o seu carácter autenticamente angolano. O texto nasce da realidade colonial portuguesa, do racismo estrutural, da exploração económica e da humilhação social que marcaram a vida dos angolanos. A contribuição da China - ainda indirecta, via Bandung, via circulação de ideias revolucionárias e via diálogos do Terceiro Mundo - ofereceu uma moldura intelectual que Viriato soube adaptar às circunstâncias de Angola.
O efeito desta inspiração maoísta tornou-se evidente na formação ideológica do MPLA. O movimento viria a adoptar uma postura progressista, internacionalista, alinhada com as lutas anti-coloniais globais, e aberta à cooperação com países socialistas, incluindo a China. A defesa da unidade nacional, a aposta nas massas, o ideal de justiça social e a recusa da opressão imperial são elementos que entraram no ADN político do MPLA desde as suas origens.
É verdade que, ao longo das décadas seguintes, a relação entre o MPLA e a China conheceria aproximações e distanciamentos, influenciada pela Guerra Fria e por reconfigurações geopolíticas internas ao campo socialista. Mas a semente plantada pelo Manifesto - e nutrida pelo clima político de Bandung e pela ascensão da China maoísta - permaneceu: a ideia de que a independência só tem sentido quando acompanhada da transformação social, da emancipação das massas e da valorização da cultura nacional.
Hoje, ao revisitar o Manifesto de Viriato da Cruz, compreendemos que ele foi mais do que um documento político; foi um manifesto civilizacional. Um texto que traduziu a experiência angolana de opressão, mas que dialogou com ventos revolucionários que corriam da Ásia para a África. A influência chinesa esteve lá - não como imposição, mas como inspiração para um povo que buscava encontrar o seu próprio caminho para a liberdade.
Num momento em que Angola revisita a sua história e projecta o seu futuro, vale recordar que as grandes revoluções nacionais são sempre, também, parte de movimentos mais amplos. Viriato da Cruz soube ler o mundo para pensar Angola - e é essa capacidade que continua a fazer do seu Manifesto uma obra intemporal.
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