Tudo indica que a Organização da Mulher Angolana (OMA) poderá aquecer as águas políticas logo no início deste Ano de 2026. Não por factores externos, mas por algo bem mais raro no sistema político angolano: a possibilidade real de uma disputa interna aberta e plural.
Criada em 1962, a OMA nasceu num contexto de luta política, com o objectivo de angariar apoio feminino para o então novo partido político, o MPLA. Desde então, consolidou-se como a sua organização feminina, com a missão de mobilizar, organizar e educar as mulheres para a realização dos ideais políticos do MPLA.
Embora integrada na arquitectura partidária, a OMA goza de autonomia organizativa, administrativa e financeira, rege-se por estatutos próprios e, desde sempre, ofereceu as melhores oportunidades para o activismo feminino em Angola, funcionando como espaço de formação política, ascensão interna e projecção pública de lideranças femininas.
O VIII Congresso da OMA, marcado para Fevereiro deste ano, surge, por isso, num momento politicamente sensível e potencialmente histórico. Ao contrário do que ocorreu em 2021, quando Joana Tomás assumiu a liderança num contexto de consenso praticamente fechado, como candidata única, o cenário actual aponta para múltiplas candidaturas, abrindo espaço a um verdadeiro teste à democracia interna.
Importa recordar que Joana Tomás assumiu a OMA após cerca de 22 anos de liderança contínua da sua antecessora, Luzia Inglês Van-Dúnem (Inga). Suceder a uma direcção tão longa e estruturante representou, desde logo, um desafio político e organizacional de grande envergadura, num contexto em que a organização se confundia, em larga medida, com a figura de quem a liderou durante mais de duas décadas.
Antes disso, a OMA conheceu também momentos marcantes da sua história. Em 1983, Ruth Neto, irmã do primeiro Presidente de Angola, foi eleita Secretária-Geral da organização, num processo que envolveu 53 membros do Comité Central, tendo sido reeleita a 2 de Março de 1988. Durante a década de 80, a OMA expandiu significativamente os programas de educação e alfabetização feminina, deixando uma marca estrutural no seu percurso histórico.
Voltando ao presente — porque é aqui que interessa esta análise —, Joana Tomás foi eleita em Março de 2021 com 94,5 % dos votos, o que lhe conferiu uma legitimidade expressiva, ainda que construída num ambiente de baixa competição interna. Hoje, o contexto é outro.
De acordo com o calendário do Congresso, as candidatas têm até ao dia 15 de Janeiro para formalizar oficialmente as suas candidaturas ao cargo de Secretária-Geral. Este dado é central, porque delimita o tempo político do debate e separa a especulação da decisão formal.
A primeira a avançar foi Emília Carlota, cuja iniciativa acabou por ser politicamente “engolida” pela morte de Fernando da Piedade Dias dos Santos, ocorrida no mesmo dia em que apresentou a sua candidatura, facto que acabou por ofuscar mediaticamente a sua intenção. Ainda assim, tornou pública e formalizou a sua vontade de suceder a Joana Tomás.
Num sistema habituado a sucessões discretamente negociadas, assumir publicamente uma candidatura é, por si só, um acto político relevante.
Fontes próximas do processo indicam que Lourdes Caposso e a jovem Graciete Sungua deverão também avançar dentro do prazo legal estabelecido. Se tal se confirmar, estaremos perante um cenário inédito: três mulheres, de gerações e percursos distintos, a disputar a liderança da mesma organização, perante o mesmo eleitorado interno.
Entretanto, Joana Tomás mantém silêncio quanto a uma eventual recandidatura. O silêncio é legítimo, mas politicamente significativo. Não apenas pelo peso institucional que carrega, mas porque, sendo jornalista, conhece melhor do que muitos a importância simbólica e prática do confronto democrático dentro das organizações políticas. Uma eventual recandidatura enfrentando adversárias internas seria, por si só, um sinal claro de maturidade política e institucional. Não se pode avançar só quando há apoio do líder do partido.
Outro elemento digno de registo é o facto de, até ao momento, o partido não ter assumido apoio explícito a nenhuma das putativas candidatas. E isso é positivo. Num país onde a escolha “a dedo” se tornou prática recorrente, permitir que o debate decorra antes de alinhamentos superiores é um sinal saudável — ainda que frágil — de abertura democrática.
O ideal seria que esta disputa fosse efectivamente livre, competitiva e baseada em propostas, e que vencesse a candidata capaz de convencer o eleitorado da OMA, não a que carregasse mais apoios silenciosos vindos de cima. Se isso acontecer, a OMA não estará apenas a escolher uma Secretária-Geral: estará a honrar a sua própria história e a dar uma lição política ao próprio MPLA.
Enquanto o partido-mãe, o MPLA, parece caminhar para sucessões cada vez mais controladas, a sua organização feminina pode mostrar, logo no início deste ano, que a democracia interna não enfraquece o poder — legitima-o.
Se 2026 começar com este exercício de pluralismo real dentro da OMA, talvez não seja exagero afirmar que uma das primeiras lições políticas do ano pode vir, uma vez mais, das mulheres. E isso poderá também demonstrar que talvez com uma mulher à frente do país Angola fosse mais democrática.
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