Há um lado silenciosamente pedagógico nas eleições portuguesa que merece atenção. Em Portugal, onde já residem quase 100 mil angolanos, o acto eleitoral não é apenas um exercício institucional do Estado; é, para muitos imigrantes, uma experiência concreta de democracia vivida. Votar, acompanhar debates, distinguir programas partidários, compreender a diferença entre esquerda e direita, perceber o papel dos impostos e exigir serviços públicos não são gestos neutros. São práticas que moldam cultura política e elevam a consciência cívica.
Para quem cresceu num regime de partido único durante cinco décadas, a diferença é abissal. Em contextos autoritários como o de Angola, a política é frequentemente sinónimo de medo, silêncio e obediência. O cidadão é reduzido a estatística eleitoral ou a figurante em rituais de legitimação do poder. Já numa democracia funcional, o indivíduo conta, participa, questiona e influencia. Descobre que não é apenas governado, mas coautor do destino colectivo.
A participação política, neste sentido, não se resume ao voto periódico. Ela envolve envolvimento contínuo nos assuntos públicos, acompanhamento das decisões governamentais, participação em associações, sindicatos, organizações comunitárias e debates públicos. Em Portugal, muitos angolanos começam a perceber que a política atravessa o quotidiano: está na escola pública, no centro de saúde, no transporte, na autarquia local que gere o bairro e responde directamente às necessidades da população.
Aqui entram as autarquias locais como escola prática de cidadania. O poder local, quando efectivo, aproxima o Estado do cidadão. Permite fiscalização directa, participação em assembleias municipais, orçamento participativo e diálogo permanente. É a democracia em escala humana. Para um angolano habituado a um Estado altamente centralizado, essa proximidade revela que governar não é um privilégio distante, mas uma responsabilidade partilhada.
Essa vivência conduz à democracia participativa, conceito que vai além da democracia representativa clássica. Não basta eleger representantes; é preciso criar mecanismos para que os cidadãos intervenham na formulação, execução e avaliação das políticas públicas. Conselhos locais, consultas públicas, iniciativas legislativas cidadãs e participação comunitária são instrumentos que reforçam a legitimidade do poder e reduzem a alienação política.
Viver sob uma ditadura prolongada produz marcas profundas: normaliza a exclusão, naturaliza a corrupção e desmobiliza a sociedade. Em Angola, o MPLA confunde-se historicamente com o Estado, bloqueando a alternância política e enfraquecendo a cidadania activa. Contudo, a experiência democrática no exterior mostra que há alternativa. Que a mudança não é caos, mas possibilidade. Que a alternância não destrói o país; pelo contrário, oxigena as instituições e responsabiliza os governantes.
Não é por acaso que se torna relevante acompanhar, com atenção crítica, as eleições em Portugal e no Brasil. Esses processos oferecem licções concretas sobre pluralismo, fiscalização eleitoral, papel da imprensa, justiça eleitoral e participação cidadã. Para os angolanos da diáspora, devem ser laboratórios vivos de aprendizagem política.
A questão central que se coloca rumo a 2027 é simples, ainda que profunda: continuidade ou mudança? Persistir num regime marcado por práticas despóticas, corrupção sistémica e fechamento político, ou experimentar a alternância democrática como condição para reconstruir o Estado e devolver dignidade ao cidadão? A resposta não cairá do céu. Dependerá do envolvimento cívico, da organização política e da coragem de transformar consciência em acção.
A democracia não se aprende apenas nos livros. Aprende-se vivendo-a. E muitos angolanos, hoje, começam a descobrir isso fora de casa — com a esperança de, amanhã, levarem essa aprendizagem de volta para Angola.
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