Insulto Geografico- Sousa Jamba



Ao que parece, no Parlamento voltou a surgir uma referência a Jamba, quase sempre no registo mais pejorativo, aquele em que a geografia é usada como arma e o mato se torna sinónimo de defeito. Foi isso que levou o Deputado Adriano Sapiñala, com a sobriedade de quem reconhece a injustiça antes de a explicar, a fazer o que muitos evitam porque dá trabalho: devolver a conversa ao plano da decência. Perguntou, com simplicidade afiada se a Jamba não fazia parte de Angola. A pergunta, assim colocada, desarma a pose. Obriga a explicitar a premissa escondida, essa superstição social segundo a qual a geografia determina o valor de um ser humano.


O que se viu ali não foi apenas um deslize de linguagem. Foi um mecanismo. Quando alguém não consegue competir no terreno das ideias, procura um atalho que dispense leitura, estudo e coragem. Em vez de responder ao que foi dito, tenta ferir quem o disse. E, como nem sempre pode atacar o conteúdo, ataca a origem. O mato, pronunciado com desprezo, funciona como rótulo e como sentença, como se uma aldeia fosse prova de incompetência e como se a cidade, por milagre, produzisse virtude.


A mesma coreografia, com outra música, repete-se noutros palcos. Nos Estados Unidos, a congressista Jasmine Crockett foi visada pelo vice‑presidente JD Vance com a expressão rapariga da rua, como se essa palavra bastasse para lhe retirar o direito à seriedade. Falamos de uma mulher com formação jurídica, trajecto profissional consistente e presença política num Estado exigente como o Texas. Perante esse tipo de brilho, há quem não discuta. Procura baixar o teto. E o caminho mais rápido é escolher um insulto que condense, ao mesmo tempo, misoginia e desprezo social, sobretudo quando o alvo é uma mulher negra.


O que salvou o momento foi a resposta dela, mais inteligente do que a indignação automática. Em vez de fingir que a rua é um esgoto moral, reconheceu a existência de mulheres que ali sobrevivem e afirmou, com elegância e firmeza, que a dignidade não depende do endereço. Não se deixou humilhar e, ao mesmo tempo, não humilhou as outras. Esta dupla recusa, a de não aceitar o rótulo e a de não cuspir em quem vive na margem, é uma lição de humanidade.


É precisamente aqui que Jamba regressa, com a sua injustiça antiga. Há pessoas que falam do lugar como se falassem de um nada: um ponto sem história, um nome que serve apenas para piada. Não leram uma página séria sobre a região. Não conhecem as dissertações e os livros, muitos deles escritos por académicos estrangeiros, com vocabulário técnico, notas de rodapé, mapas, arquivos e entrevistas. É difícil imaginar alguns desses moralistas de ocasião a atravessarem, com paciência, essas páginas densas, onde o mundo real exige atenção e método.


Como não lêem, inventam. E, como inventam, desdenham. Preferem a facilidade do preconceito, leve, rápido e cruel, à disciplina do conhecimento, lenta e humilde. Assim, qualquer pessoa ligada a Jamba fica, no imaginário deles, carimbada como do mato e, por isso, ignorante; por isso, inferior. E quando surge alguém cuja lucidez contraria essa fantasia, não revêm a ideia. Elevam a voz. Recorrem à arrogância, ao sarcasmo, ao tom de quem manda, e a essa mesquinhez que raramente se assume como medo, mas que dele nasce.

Há, porém, um ponto que importa encarar com maturidade. Está na hora de olhar Jamba pelo prisma da História, não pelo funil das guerras partidárias nem pela etiqueta confortável das nossas trincheiras. Jamba não é propriedade simbólica de ninguém. Houve pessoas na Jamba que hoje não pertenceram à UNITA, tal como houve pessoas em Kinkuzu que hoje têm pouco ou nada a ver com a FNLA. Uma terra não é um cartão de militância. É uma casa plural, feita de famílias, de ofícios, de rotinas, de perdas, de sobrevivências, de vidas que não cabem na propaganda.


É aqui que entra a imaginação histórica, que é também uma forma de respeito. Sem ela, não compreendemos. Sem ela, não escutamos. Precisamos de empatia que não pergunte apenas de onde vens, mas também o que viveste, o que te aconteceu, que memórias te ficaram no corpo. É pelo respeito às narrativas e pela atenção às experiências concretas de pessoas concretas que se constrói uma comunidade moral minimamente decente.

O contrário também é evidente. A arrogância, a vida em torres de marfim, os delírios de grandeza, o desprezo cultivado como distinção: tudo isso não produz futuro. Produz ruído. E o ruído, quando se torna hábito, transforma‑se em discórdia, depois em ressentimento e, por fim, em ruptura.


No fundo, o insulto geográfico é uma confissão. Diz: não sei discutir contigo. Diz: não tenho instrumentos para te enfrentar. Então agarro‑me ao teu lugar de origem, como quem recolhe uma pedra para atirar, esperando que a poeira faça o trabalho que o pensamento recusou. É por isso que a defesa de Sapiñala importa. Não porque transforme Jamba em símbolo, mas porque recusa que, numa república, a ignorância tenha direito a título de nobreza.


Publicidade 


Lil Pasta News, nós não informamos, nós somos a informação 

Postar um comentário

0 Comentários