É reconfortante ver uma selecção africana guiada por um africano. Não apenas pelo talento que se mede em metros e segundos, mas pela matéria mais rara: carácter, serenidade, a recusa obstinada de ceder ao pânico.
No caso do Senegal, essa impressão não nasce de um brilho ocasional. Nas últimas duas décadas, a equipa construiu uma reputação de constância, dureza mental e disciplina táctica; chega muitas vezes ao lugar onde os jogos se decidem em silêncio, por um detalhe, por um gesto, por um nervo bem contido. Não é uma selecção dependente de espectáculo, nem de um génio solitário; é uma selecção que confia na estrutura, no treino, na capacidade de resistir quando o jogo endurece e o estádio empurra contra.
Na final da CAN de 2025, em Rabat, Senegal e Marrocos empurraram o futebol para esse limite em que o desenho já não chega e começa a prova. Com o marcador preso no zero, apareceu o penálti; apareceu o tumulto; apareceu, sobretudo, a tentação de transformar a indignação numa retirada. E foi aí que Sadio Mané, aos 33 anos, fez o que nem sempre se vê num relvado: ficou. Ficou para segurar os seus; ficou para recolocar a equipa na linha; ficou para dizer, sem teatro e sem pregação, que a injustiça do minuto pode existir, mas a resposta pertence a quem não abdica.
O penálti foi defendido por Edouard Mendy, com a frieza de quem apaga um incêndio sem levantar poeira. Depois veio o prolongamento. E o Senegal manteve a cabeça: ganhou com um remate que entrou como uma decisão tomada a tempo. Ali, o carácter não foi figura de estilo; foi método.
Esse método não nasce na noite de uma final. Nasce muito antes, numa ideia quase teimosa de que o futebol é assunto sério e, por isso mesmo, exige escola. Enquanto outros se deslumbram com betão e cerimónia, o Senegal parece preferir o trabalho invisível: identificar talento cedo, educá-lo com rigor, encaminhá-lo para servir um projecto colectivo, em vez de o deixar perder-se em acasos e vaidades. Há uma aposta deliberada na formação doméstica, mesmo sabendo que muitos desses jogadores acabarão em clubes europeus; a lógica não é prendê-los, é formá-los bem o suficiente para que, quando saírem, saibam sempre para onde voltar.
Por trás da equipa principal há uma engenharia paciente. Academias que funcionam como oficinas de alto rendimento e, ao mesmo tempo, como lugares de formação; campeonatos jovens que criam hábitos de jogo e de responsabilidade; futebol na escola, não como ornamento, mas como instrumento pedagógico e de integração; campos e estruturas que se repetem no mapa, para que o talento não dependa apenas do bairro certo ou do padrinho certo. E há uma federação que, quando acerta, trata a pirâmide inteira, do feminino às bases amadoras, como quem percebe que a elite é sempre o topo de uma construção longa.
Aliou Cissé, no comando desde 2015, é parte dessa continuidade. Não é um técnico de fogo de artifício, nem um teórico viciado em novidade; é um homem de gestão fina, que conhece os jogadores, lê temperamentos, constrói confiança, e entende o peso emocional de representar uma selecção com memórias difíceis e expectativas enormes. Sob a sua direcção, o Senegal ganhou a CAN de 2022, a primeira; em 2025 voltou a fazê-lo, provando que a vitória inaugural não foi acidente, mas capítulo de um percurso.
Esse percurso tem rosto concreto. Kalidou Koulibaly, Idrissa Gueye, Ismaïla Sarr saíram de academias senegalesas ou de clubes locais antes de se tornarem referências internacionais; regressam à selecção com a sobriedade de quem se lembra do ponto de partida, um campo poeirento em Dakar ou Thiès, um treinador sem glamour, mas com método. Não há romantismo fácil nisto. Há, sim, a confirmação de uma regra simples: o sistema funciona quando há consistência, quando há investimento sério, quando o futebol é tratado como indústria cultural e não como circo de ocasião.
Claro que nem tudo é limpo nem linear. A federação senegalesa já conheceu escândalos, disputas políticas, má gestão financeira. Ainda assim, quando se compara com outras federações africanas onde o caos administrativo mata qualquer projecto a médio prazo, o Senegal conseguiu preservar uma linha de coerência que se vê no relvado. Não é um modelo exportável para todo o continente, porque cada país tem as suas limitações e as suas urgências; é, no entanto, um lembrete teimoso de que se pode construir excelência sem depender de mercenários estrangeiros, nem de injecções extravagantes de dinheiro.
Por isso, ao falar do Senegal, convém olhar para além do heroísmo de uma noite. A serenidade que se viu em Rabat não foi improviso; foi a face pública de um projecto com camadas, continuidade e trabalho miúdo. Estilo, no fundo, é isto: a selecção consciente dos meios, a disciplina que produz unidade sem esmagar a variedade.
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