É, de facto, triste que o nosso mais-velho Makuta Nkondo tenha escolhido falar, com minúcia e sabor de praça pública, da saúde de Mano Abel Chivukuvuku. Quase sempre há excesso quando a doença alheia é narrada ao microfone: a frase dilata-se, o pormenor inflama-se, e o que deveria ficar no domínio da reserva degrada-se em espectáculo. Dizer que alguém estava tão fraco que, para se manter de pé, se apoiava nas esposas de outros não é informação. É caricatura, e da mais rasteira.
Há aqui um princípio elementar, desses que dispensam diploma. Quem não é médico, quem não pisa o chão da clínica, não deve improvisar diagnósticos de ouvido, nem descrever um corpo como quem comenta um jogo de futebol. A saúde de outrem não é moeda de conversa, nem arma de ocasião. É matéria sensível, com consequências reais.
Dito isto, há uma ironia difícil de contornar. O que mais inquieta, nesta cena, não é a fragilidade atribuída ao nosso Mano Abel; é a perda de medida revelada por quem fala. Não complete a ninguém, fora da medicina, colar rótulos clínicos a comportamentos públicos. Compete-nos, sim, reconhecer sinais morais e sociais: a ausência de pudor, o impulso de ferir com graça fácil, a pressa que troca prudência por aplauso imediato.
Um homem de experiência, de leitura, de cultura, formado na gramática bantu da contenção, sabe que certas fronteiras não se atravessam. Sabe que há temas que pedem silêncio, não por hipocrisia, mas por higiene colectiva. Expor, com ligeireza, a intimidade física de uma figura pública não é coragem. É descuido. E o descuido, quando ganha palco, vira exemplo.
Não surpreende, por isso, que a direcção de comunicação do PRA-Já Servir Angola tenha sentido a obrigação de emitir um desmentido. Quando a palavra se torna irresponsável, a instituição é forçada a repor o chão. A saúde, mesmo quando frágil, não deve ser convertida em espectáculo degradante. Não faz bem ao visado, nem à comunidade que assiste e aprende.
Há ainda uma razão mais funda. As sociedades precisam de estabilidade simbólica. Precisam de figuras que representem continuidade, compostura e um mínimo de confiança no tecido comum. Quando essas figuras são tratadas como matéria de anedota, a comunidade adoece um pouco com elas, sobretudo num tempo já saturado de suspeita e insegurança. Quem viveu o suficiente sabe-o.
Vê-se, aliás, a fragilidade psicológica quando o próprio narrador se expõe, com insistência quase confessional, descrevendo as condições em que diz viver. Fala de precariedade extrema; conta que obter água para tomar banho é, quando acontece, uma luta penosa; diz que as paredes da casa não foram pintadas; acrescenta que não se alimenta bem; afirma, sem pudor, que está esmagado por dificuldades financeiras. O público é convocado, outra vez, para um lugar que não lhe pertence: o de testemunha íntima, como se a miséria declarada fosse argumento, como se a queixa repetida pudesse substituir a sobriedade.
Eu, francamente, não creio que seja exactamente assim. Um homem que passou pelo Parlamento, recebendo durante anos um salário regular e, em princípio, suficiente para assegurar o mínimo de ordem doméstica, dificilmente estaria reduzido a um cenário de penúria absoluta. Pode haver aperto, desgaste, declínio. Mas a pintura por fazer e a água transformada em epopeia quotidiana soam menos a retrato fiel do que a dramatização de si mesmo.
O que se desenha, então, é outra coisa: um homem dominado por autocensura feroz; uma autoflagelação pública, insistente, quase compulsiva. Não é apenas desabafo. É um modo de existir diante dos outros que pede atenção, pede amparo e, sobretudo, pede contenção. Quando a autodepreciação se torna hábito, deixa de ser gesto ocasional e começa a parecer sintoma.
Há ainda um ponto, mais subtil, mas decisivo. Especular sobre a saúde dos outros pode produzir um estranho efeito terapêutico, quase perverso: ao ver o poderoso, o privilegiado, o proeminente reduzido à fragilidade do corpo, o cidadão comum encontra um consolo amargo. Se até eles caem, talvez devamos agradecer a nossa saúde relativa, o nosso levantar discreto, o nosso caminhar sem drama.
Mas aqui não é isso que se sente. Não há espírito público, nem cuidado, nem pedagogia humana. Há maldade. Há um gosto frio em descrever o abatimento alheio; uma crueldade miúda disfarçada de franqueza. E isso perturba, sobretudo por vir de alguém tido como ponderado e respeitável, alguém que deveria conhecer o peso de uma palavra e a ferida que ela abre quando é lançada sem necessidade.
Ninguém, de fora, deve fazer diagnósticos. Mas a família, os próximos, os que conhecem sem microfones, fariam bem em olhar para isto com seriedade e cuidado. Porque há momentos em que o que parece bravata é, na verdade, um pedido de ajuda. E há homens que precisam menos de palco e mais de terapia.
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