Nova Ditadura Africana



Ibrahim Traoré, do Burkina Faso, entrou no imaginário africano com a rapidez com que, hoje, se fabricam heróis: uma farda jovem, um discurso de rectidão, a promessa de pôr ordem onde a fadiga pública já se confundia com resignação. Para muitos jovens do continente, tornou-se símbolo de integridade, de firmeza, de uma espécie de solidez africana que não pede licença para agir. Há, nisso, uma sede legítima: a vontade de ver dirigentes que não pareçam alugados ao cinismo, nem rendidos ao saque.

Hoje, porém, o retrato ganha outra espessura, mais inquietante. Traoré avança para a dissolução dos partidos políticos, argumentando que os partidos dividem e que o país precisa de uma arquitectura de acção “unificada”. A ideia soa simples. É precisamente por isso que seduz. Mas África conhece bem esta música e conhece, também, o seu refrão final.

Traoré nasceu em 1988. Dois anos antes, em 1986, um outro jovem líder chegava ao poder no Uganda com uma proposta aparentada: o chamado sistema do Movimento, em que, na teoria, toda a sociedade caberia numa única estrutura política, com o chefe no topo, acima das “divisões” partidárias. A promessa era ordem e unidade. O resultado, com o tempo, foi o que costuma acontecer quando se fecha a porta ao plural: a competição não desaparece, apenas muda de forma. Reaparece na clandestinidade, na diáspora, em redes subterrâneas; reaparece em lealdades compradas e em punições exemplares. E o Estado, para manter a ficção da unanimidade, passa a viver de vigilância.

Há um limite físico e moral para essa engenharia. Não se prende toda a gente. Não se cala um país inteiro sem que o silêncio se transforme em rancor, e o rancor em hábito. Se a energia do governo se gastar a vigiar e intimidar, a multiplicar serviços de informação, a converter vizinhos em delatores, o tempo da construção morre. A vida pública encolhe. O talento foge. A economia aprende a mentir. E o país corre o risco de virar vitrina de força, troféu de disciplina, em vez de oficina de prosperidade.

Também não encontro, no capitão Traoré, nada de verdadeiramente original. Vejo, antes, um guião antigo, com variações de farda e de slogan: a promessa de ruptura que depressa se torna suspeita do contraditório; a ideia de “unidade” convertida em pretexto para concentração de poder; a divergência tratada como ameaça. E, por baixo, a velha tentação de baptizar “democracia centralizada” aquilo que, na prática, serve para justificar autocracia.  

O que torna este ciclo mais perigoso, hoje, é o brilho novo que o envolve. Traoré não governa apenas com decretos e discursos. Governa com um coro digital. Tem legiões de admiradores espalhados pelo continente, prontos a fabricar legendas com inteligência artificial, cenas heroicas, pequenos filmes de propaganda onde o país aparece transformado por milagre, como se a realidade obedecesse ao entusiasmo. Nessa atmosfera, a leitura torna-se dispensável; a escuta vira fraqueza; a dúvida passa por traição. E a distância, essa higiene mental que separa um homem do próprio mito, desaparece.

Suspeito, com franqueza, que Traoré lê pouca história. Não por falta de inteligência, mas por falta de disciplina interior. Quem lê história aprende cedo que quase nada do que parece “novo” é novo, e que tudo o que começa por “unificação” acaba, mais cedo ou mais tarde, a pedir polícia para se manter. Quando um líder é aplaudido a toda a hora, confunde aprovação com verdade. Acredita que a História está do seu lado porque o algoritmo está do seu lado. E, se ninguém lhe disser “não”, se ninguém lhe lembrar limites e consequências, a política deixa de ser uma tarefa dura e colectiva e passa a ser encenação permanente.  

E então surge a pergunta central, brutal na sua simplicidade: o que espera ele, exactamente, do seu povo? Que viva de pé, em sentido, como plateia. Que transforme cada pensamento dele em publicação, cada frase em legenda, cada silêncio em prova de fidelidade. Que troque, no fundo, cidadania por adoração.

Todos os sinais apontam para isto: está-se a fabricar um novo ditador. Não necessariamente por crueldade consciente, mas por um processo mais banal e mais perigoso, feito de aplauso, imunidade e certeza. Já vimos homens que, embalados pela adulação, começam a ver-se como salvadores, quase como semideuses. A partir daí, cada ideia vira dogma; cada capricho, política; cada crítica, traição. O líder passa a acreditar que é a própria solução e, por isso, tudo o que o limita lhe parece inimigo: imprensa, sindicatos, intelectuais, conversas livres na rua.

Um país, quando entra nesse regime, deixa de trabalhar para crescer e passa a trabalhar para obedecer. A energia pública é sugada pelo teatro da lealdade. Os melhores recuam ou partem. Os prudentes calam-se. Os oportunistas sobem. No fim, sobra um Estado musculado e uma sociedade frágil, com medo de falar e sem espaço para corrigir o erro.

Isto costuma acabar mal. Não porque os povos africanos “não saibam” democracia, mas porque a lisonja produz uma cegueira activa e, quando essa cegueira se instala no topo, transforma qualquer nação num laboratório de desastre. O Burkina Faso não precisa de um homem a ser aplaudido. Precisa de instituições que não dependam do humor de um homem, e de cidadãos que não sejam reduzidos a figurantes na biografia de um suposto salvador.  

Sousa Jamba


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