Quando se começa a perder antes do jogo começar/ Ademar Rangel



Quando o líder da UNITA, Adalberto Costa Júnior, fala num “pacto de transição” um ano e muitos meses antes das eleições, ele não está apenas a propor diálogo político.

Está a fazer algo muito mais sério: condicionar o resultado antes do voto.

Em política, nada é inocente. E a palavra transição nunca surge por acaso.

Transição pressupõe ruptura.

Pressupõe fim de ciclo.

Pressupõe que o processo normal — eleições — não é suficiente.

Ora, se ainda nem entrámos em campanha e já se fala de transição, a mensagem implícita é clara:

Se o resultado não nos agradar, o problema não será o voto — será o sistema.

É aqui que a estratégia se revela.

Ao lançar esta ideia agora, a oposição constrói uma narrativa preventiva:

   - se perder, já tem o argumento preparado;

   - se ganhar, apresenta-se como quem “salvou a democracia”;

   - e, no processo, vai minando a confiança pública nas eleições antes mesmo de elas acontecerem.

Isto não fortalece a democracia.

Isto desloca o centro do poder do eleitor para os acordos políticos de bastidores.

O voto passa a ser quase um detalhe. O essencial passa a ser o “pacto”.

E há um risco maior, raramente dito em voz alta:

quando líderes políticos começam a sugerir que eleições só são válidas se houver garantias extra-políticas, estão a dizer ao cidadão comum que o seu voto pode não bastar.

Isso é corrosivo.

Isso gera abstenção.

Isso alimenta tensão pós-eleitoral.

A oposição tem todo o direito de exigir transparência, fiscalização, reformas eleitorais e garantias institucionais.

Mas transformar eleições futuras num processo já sob suspeita antes de acontecerem é um jogo perigoso.

Porque, no fim, se as equipas entram no campo a dizer que o árbitro é ilegítimo, o problema já não é o resultado.

É o campeonato inteiro.

Democracia não é um pacto entre elites.

É um acto de confiança colectiva.

E confiança não se constrói a anunciar a derrota antes do apito inicial.


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