A deputada da UNITA, Valentina Sapalalo, proferiu uma frase que muitos decidiram ouvir pelo pior ouvido; reconheceu o desajuste, pediu desculpa e, desta vez, o mínimo de equidade é singelo: aceitar a retratação, como se aceita a água quando alguém, enfim, a estende. Em tom assumidamente irónico, afirmou que Angola parece ser o único país onde até os kunangas se investem da autoridade de especialistas, opinando com destreza sobre matérias complexas no Facebook. A frase, arrancada ao seu registo de troça e exposta ao tribunal instantâneo das redes, foi lida como afronta aos desempregados; e, a partir daí, derramou-se sobre ela uma cólera antiga, como se uma ironia mal medida pudesse, de súbito, servir de recipiente às frustrações acumuladas.
O nó, porém, é antes de mais etimológico e cultural; e talvez só quem cresceu entre o mato e a sala de aula improvisada, como Valentina, o consiga desfazer sem rebentar o fio. Em umbundu do Bié, o verbo okunanga aponta para a teimosia de recusar trabalho; no mundo rural, designa quem foge aos campos, se esquiva ao esforço comum que sustenta a segurança alimentar, vive à custa do labor alheio e, por isso, é censurado como peso morto. Valentina nasceu no Kuito, em 1970, num tempo em que Angola ardia e se reinventava. Cresceu em território controlado pela UNITA, onde a palavra kunanga tinha a nitidez de uma sentença: quem não lavrava, não comia; e quem não comia não tinha, sequer, o conforto de se queixar. A censura era moral porque a economia era de subsistência; e, na subsistência, não há margem para o voluntariamente ocioso.
No espaço urbano, contudo, a palavra sofre mutação decisiva. “Desempregado” já não é, necessariamente, quem se recusa; é, muitas vezes, quem procura e não encontra. Deixa de ser vício moral para se tornar condição económica, imposta por falhas estruturais do próprio Estado. Entre o mato e o asfalto, a mesma sílaba muda de peso; a mesma etiqueta muda de alvo. Foi nessa travessia de sentido que a expressão resvalou. A deputada, que carrega nos ouvidos o umbundu Bieno, usou o termo com uma carga que a cidade já não reconhece. Pediu desculpa pelo efeito produzido. Isso deve contar.
Mas o episódio expõe também um retrato mais amplo, e menos lisonjeiro, do nosso espaço público. Quando chega a hora de atirar a primeira pedra, quase ninguém hesita. Primeiro vem o impulso; depois, a certeza; por fim, a condenação. E, lançada a pedra inaugural, instala-se o circo: acusações em cascata, leituras maliciosas e aquela satisfação perversa de ver alguém reduzido a boneco de feira. As redes não julgam: enxameiam. E o enxame, quase sempre, não distingue o culpado do disponível.
Importa ainda dizer o que muitos ignoram, ou preferem omitir. Valentina Sapalalo nunca foi criatura mimada. Conheci-a em Portugal, quando a tratávamos por Bela. Lembro-me de madrugadas frias em que se levantava antes do sol para limpar casas, juntando cada euro que depois pagaria propinas e despesas básicas. Não havia atalhos. Havia trabalho, disciplina e uma inteligência rara, medida não pela ostentação, mas pela persistência silenciosa de quem constrói sem testemunhas. Recordo o dia em que a encontrei num centro comercial em Lisboa, já gerente de uma grande loja de produtos naturais; para uma estudante de Economia, era a prova de que o esforço das madrugadas não se dissolvera no frio.
Mais tarde, regressou a Angola quando muitos preferiram a distância. Concluiu uma pós-graduação em Economia Monetária e Financeira, tornou-se docente e formou quadros durante mais de uma década nas em Luanda e noutros pontos do interior. Foi nesse período que mantivemos longas conversas sobre desenvolvimento e ambiente. Ela ensinava em Luanda; eu encontrava-me no Bailundo, ligado ao projecto Camela Amões. Ao telefone, discutíamos como integrar tradição e racionalidade económica. Num desses diálogos, com argumentos límpidos, levou-me a reconsiderar o ambiente, não como sentimentalismo verde, mas como variável estrutural do crescimento; muito antes de qualquer mandato parlamentar. Era já, então, uma convicção funda: a de que o mundo rural angolano exige paixão, método e pensamento estruturado.
Hoje, economista por formação, professora por vocação e deputada por mandato popular, Valentina move-se entre a planilha e a assembleia, entre o debate orçamental e a mobilização comunitária. Num contexto político tantas vezes refém de slogans fáceis, traz para o hemiciclo não apenas opinião, mas conhecimento estruturado; activo que não se fabrica com likes nem se destrói com hashtags.
Por isso, convém insistir no básico, mesmo quando o básico parece fora de moda: um pedido de desculpa não é salvo-conduto para reincidir; mas também não deve servir de pretexto para o apedrejamento ritual. Quem transforma cada deslize numa fogueira acaba por incendiar a própria linguagem. E, quando a linguagem arde, o que sobra não é justiça. É fumo.
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