Há, hoje, na África anglófona, um fenómeno que me prende pelo contraste e pela ironia: o surgimento, quase em surdina e com uma eficácia que por vezes envergonha o Estado, de colégios privados de altíssimo nível. Durante décadas, certas famílias africanas de grande fortuna enviavam os filhos para internatos britânicos ou para liceus selectos dos Estados Unidos; procuravam disciplina, rede social, um certificado com valor simbólico. Agora, porém, o mundo endureceu. A xenofobia tornou-se mais ruidosa, a insegurança mais difusa, e o desconforto de expor adolescentes a climas hostis tornou-se palpável. Em vez de continuarem a exportar a adolescência, muitas dessas famílias preferem trazê-la de volta; não para a escola pública fatigada, mas para ilhas de excelência erguidas em Nairobi, Lusaca, Joanesburgo ou Harare, onde o silêncio é também um recurso pedagógico. 
O que aí se encontra não é uma “escola”, no sentido simples da palavra. É um pequeno reino. Campos impecáveis; relvados que parecem penteados; o rugby como rito de pertença, herança de um imaginário britânico transplantado para o planalto africano. Laboratórios, bibliotecas de verdade, teatros, piscinas, residências organizadas por casas, cada uma com o seu housemaster, atento ao comportamento, ao sono, ao rendimento, às pequenas rebeldias. A pedagogia aproxima-se do trabalho de relojoeiro: turmas pequenas, acompanhamento tutorial, avaliação constante, uma vigilância académica que segue o aluno como se cada semana contasse.
Também o corpo docente mudou. Durante anos, o prestígio destes colégios dependia do professor importado, com currículo e sotaque como selo. Hoje, há cada vez mais professores africanos com formação internacional, atraídos por salários que superam os de muitos docentes universitários. Em certas áreas, sobretudo nas ciências, encontra-se o que antes pareceria improvável: doutorados a ensinar conteúdos elementares a crianças de doze anos.
À primeira vista, alguém diria que é desperdício: um PhD em Matemática a ensinar álgebra. Mas é precisamente aí que se percebe o mecanismo íntimo da excelência. Quem passou pelo doutoramento ensina com memória do edifício inteiro; ao trabalhar aritmética, vê já o horizonte do cálculo; ao insistir numa regra simples, conhece a tempestade conceptual que essa regra ajudará a atravessar mais tarde. Não se despeja matéria; constrói-se chão. E há ainda o outro ingrediente, menos contabilizável e mais transformador: a paixão genuína. Um verdadeiro especialista, quando é também verdadeiro professor, torna o rigor contagioso. Aos doze, aos quinze anos, a mente é porosa; absorve fórmulas, sim, mas absorve também entusiasmo, método, prazer da prova, respeito pela pergunta bem feita. Cinco anos num ambiente assim deixam marcas. No fim, muitos desses jovens estão prontos para competir sem complexos nas melhores universidades do mundo; não por milagre, mas por treino.
Este desnível, porém, não fica sem consequências. A curto prazo, pode parecer apenas diferença de recursos: de um lado, bibliotecas que funcionam, laboratórios equipados, professores bem pagos; do outro, ensino público esmagado pela falta de materiais, por turmas enormes, por salas onde o ruído, o calor e o cansaço fazem parte do currículo. Mas, com o tempo, acumula-se algo mais perigoso do que a desigualdade material: a desigualdade de linguagem, de confiança, de instrumentos mentais. Quando a escola pública se transforma numa linha de montagem, empurra alunos para a frente como quem faz passar caixas numa passadeira rolante. Cumpre-se calendário, coleccionam-se testes, conclui-se o ciclo; e ninguém garante, com seriedade, que a criança saiu com a proficiência indispensável. Sem avaliação que diga a verdade, o sistema produz diplomas como quem produz recibos. Dois jovens com a mesma idade e o mesmo direito à esperança passam a habitar planetas diferentes. Quando se encontram na mesma universidade, no mesmo concurso, no mesmo mercado de trabalho, a comparação torna-se cruel; parece individual aquilo que é estrutural.
É por isso que a educação em África me deixa tantas vezes perplexo. Trata-se de um processo intelectual: trabalha-se com a mente, com hábitos de raciocínio, com a lenta transformação de curiosidade em método. E, no entanto, em demasiados países, o sector é governado como se fosse apenas papel, carimbo e reunião; dominado por funcionários que administram calendários e formulários com a solenidade de quem gere um armazém, sem a mínima consciência do que está em jogo. Basta fazer perguntas simples a quem lidera estes sistemas. Existe uma estratégia clara para o que se quer que um aluno saiba aos oito, aos doze, aos dezasseis anos? A formação de professores é coluna vertebral do sistema, ou mero ritual de certificação? Existem indicadores de desempenho que não sejam propaganda? Há mecanismos de garantia de qualidade que detectem falhas cedo e corrijam trajectórias antes de ser tarde?
Por vezes, tenho a impressão, quase absurda, de que é mais fácil arrancar uma resposta clara a um praticante de feitiçaria do que a certos responsáveis pelo aparelho educativo. No primeiro caso, ao menos existe uma lógica interna, um ritual, uma narrativa. No segundo, encontra-se com frequência segredo e arrogância: portas semiabertas, linguagem de poder, frases polidas que não dizem nada.
E isto é particularmente grave porque o tempo mudou. Estamos a entrar numa fase em que a educação deveria ser a grande máquina de alinhamento: alinhar a imensa população jovem de África com a revolução tecnológica que já está a redesenhar o trabalho, a cidadania e as formas de pensar. Feita com lucidez, essa transição poderia dar ao continente uma vantagem comparativa rara. A matéria-prima existe. O relógio, porém, não espera.
A pergunta final é simples e dura: há estratégia? Existe uma estratégia articulada, com prioridades nítidas, metas mensuráveis e continuidade que sobreviva a um ministro? Estão os actores todos à mesa; professores, universidades, sindicatos, sector privado, sociedade civil, especialistas em currículo e tecnologia, empresários que conhecem o mercado e alunos que conhecem o sistema pela pele; não como figurantes de uma consulta pública para inglês ver, mas como co-autores do desenho? Sem esse esforço colectivo, o discurso sobre “juventude” vira slogan e a tecnologia, em vez de ponte, torna-se mais um fosso. A revolução digital não perdoa improvisações. Exige bases fortes, professores bem formados, currículos actualizados, avaliação que diga a verdade. O resto é teatro. E o teatro, por mais bem ensaiado, não ensina ninguém a pensar.
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