Luis Castro e o Partido Liberal- Sousa Jamba



Luís de Castro, líder do Partido Liberal e meu sobrinho  de Katchiungo, anda a fazer uma coisa simples, quase antiga, e por isso mesmo rara: política. Não a política como espectáculo, nem a política como feira de ambições, nem essa opereta fatigada de carros, rumores e fidelidades alugadas; política, sem adornos, no seu sentido mais austero, mais terreno, mais difícil. À sua volta, como era de esperar, levantou-se a fauna habitual do comentário oblíquo: quem o move, quem o paga, quem o usa, quem o sopra por detrás da cortina. Mas tudo isso pertence ao reino do acessório, ao nevoeiro em que os ociosos se entretêm para não verem o essencial. E o essencial é isto: a política começa verdadeiramente não onde se cochicha, mas onde o povo espera; não nas mesas onde se conspiram intrigas, mas no chão áspero onde a dignidade comum é diariamente posta à prova.


Foi isso que Luís de Castro fez ao expor a situação daqueles cidadãos obrigados a passar a noite ao relento diante do posto de passaportes, na esperança, tão modesta quanto humilhante, de conseguirem atendimento no dia seguinte. Não falou à distância. Não se refugiou na cómoda indignação de gabinete. Foi ao local, viu, filmou, comentou, e disse o que num país minimamente decente nem sequer precisaria de ser dito: que não é normal, nem aceitável, nem moralmente tolerável que cidadãos durmam no passeio para exercer um direito administrativo elementar. O seu gesto teve a limpidez das coisas irrefutáveis. Não foi apenas uma denúncia. Foi a colocação de um espelho diante do Estado.


E esse espelho devolve uma imagem pouco lisonjeira. Porque o que ali se vê não é uma simples desorganização, nem um episódio curioso da nossa eterna desordem pública, desses que a resignação popular transforma em anedota para poder suportá-los. O que ali se vê é uma forma de violência administrativa. Fria. Metódica. Quase sem ruído. Sem sangue, é certo, mas não sem crueldade. Obrigar um cidadão a dormir no passeio para alcançar um balcão significa dizer-lhe, da maneira mais brutal e mais silenciosa, que o seu tempo nada vale, que a sua dignidade conta pouco, que os seus direitos dependem menos da lei do que da sua capacidade de resistir ao cansaço, à intempérie e à degradação.


Em Benguela, a cena foi de outra natureza, mas da mesma família moral. Uma rua inteira interditada porque uma alta figura ali tomava o pequeno-almoço. Há episódios em que a arrogância do poder toca um ponto tal que quase resvala para o cómico. Quase. Porque, neste caso, era um cómico azedo, daqueles que arrancam primeiro um sorriso incrédulo e logo depois uma vergonha funda. Há qualquer coisa de obscenamente revelador num Estado que suspende a vida normal de uma cidade para garantir a digestão tranquila de um só homem. O gesto podia parecer risível; mas o seu ridículo era, no fundo, uma forma de diagnóstico. Mostrava uma cultura de autoridade que há muito se habituou a pensar o incómodo dos muitos como preço natural do conforto dos poucos.

É aqui que se mede a diferença entre oposição verdadeira e oposição cenográfica. Muita gente imagina, com uma pobreza de imaginação quase enternecedora, que fazer oposição é copiar os modos do poder até ao dia em que se herda a cadeira. Trocam a alternativa pela mímica. Julgam que basta reproduzir a frota, o cortejo, o fato bem talhado, o exército de aduladores, o barulho vazio dos que confundem importância com aparato. É uma concepção infantil da vida pública, mas largamente difundida. Como se o objectivo não fosse corrigir os vícios do regime, mas apenas redistribuir os privilégios entre actores novos.


Só que a oposição séria raramente é brilhante aos olhos do público viciado em espectáculo. É cansativa. É poeirenta. Faz-se em estradas longas, em conversas repetidas, em escutas pacientes, em visitas a lugares onde a câmara oficial não chega. Exige atenção aos factos pequenos, às humilhações miúdas, às dores sem retórica, àquilo que não produz manchetes gloriosas mas compõe a matéria real da vida nacional. É um trabalho áspero, sem música de fundo, sem fanfarra e sem sedução fácil. E é esse trabalho, justamente esse, que Luís de Castro tem vindo a fazer: percorrer o país, não para recolher adoração, mas para reunir evidências; não para se deixar venerar, mas para mostrar; não para encenar grandeza, mas para devolver visibilidade aos que vivem esmagados pela rotina da negligência.

Quem sofre percebe esta diferença com uma exactidão que os comentadores, do alto do seu conforto verbal, raramente alcançam. O homem que dormiu no passeio à espera de passaporte percebe. O enfermeiro deixado numa unidade sem meios percebe. O cidadão retido numa rua fechada para que um poderoso desayune em paz percebe. Quem vive em baixo reconhece imediatamente quem apenas o invoca ao longe e quem, pelo contrário, desce até ao lugar exacto da sua aflição. E essa memória, em política, tem um peso particular. Não é teórica. Não é ideológica. É quase física. Fica no corpo. Fica na lembrança. Nas próximas eleições, muitos recordar-se-ão menos das intrigas sobre quem financiava Luís de Castro do que do facto simples de ele ter aparecido quando o seu sofrimento ainda cheirava a pó, a cansaço e a abandono.


A política digna começa precisamente aí: na capacidade de fazer a costura moral daquilo que o poder separa. Ligar a fila do passaporte à linguagem abstracta do orçamento. Ligar o enfermeiro exausto ao conforto térmico dos gabinetes ministeriais. Ligar o posto remoto perdido no mato aos relatórios limpos que chegam à capital sem uma partícula da poeira humana que lhes deu origem. Ligar a rua bloqueada em Benguela a essa velha pedagogia do privilégio segundo a qual o cidadão comum deve, uma vez mais, aprender a parar, esperar e calar. 


Quando a política faz esta ligação, a dor deixa de ser mero lamento e passa a ser exigência: mais pessoal, melhor remuneração, medicamentos, formação, retenção de quadros nas zonas rurais, e sobretudo uma reforma moral da própria autoridade, para que o poder volte a caber dentro das fronteiras da república.

Só por esse caminho a política recupera a sua nobreza perdida. Só assim deixa de ser um mercado de apetites para voltar a ser uma disciplina severa de reparação pública. Só assim o Estado, forçado enfim a contemplar aquilo que preferia manter fora de campo, pode recordar a sua razão primeira: não humilhar, não protelar, não abandonar, não transformar a necessidade dos cidadãos numa via-sacra burocrática, mas servi-los.


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