OS CABRITOS AMARRADOS NA AGT COMEM E LAMBUZAM À CUSTA DA MISÉRIA DO POVO

 


Em Angola, onde a fome continua a ser uma realidade diária para milhares de famílias e onde a pobreza se tornou uma paisagem social quase banalizada, uma revelação recente expôs de forma brutal a distância entre o Estado e os cidadãos. Durante o julgamento do chamado “caso AGT”, veio a público um dado que chocou a opinião pública: um jovem funcionário ligado à Administração Geral Tributária teria pago cerca de sete milhões de kwanzas por uma única relação sexual.


A cifra, por si só, não é apenas um escândalo moral ou um episódio de ostentação grotesca. Ela levanta uma pergunta mais profunda e inquietante: quem são estes jovens? E, sobretudo, como chegaram aos cargos que ocupavam dentro da máquina do Estado?


Num país onde a realidade política é partidocrática, a ascensão de muitos quadros não resulta necessariamente de concursos transparentes, mérito técnico ou experiência profissional. Na maioria dos casos, a proximidade política, a fidelidade partidária ou a proteçcão de estruturas superiores parecem pesar mais do que qualquer outro critério institucional. Assim, jovens ligados ao poder acabam por ocupar posições estratégicas na administração pública, muitas vezes protegidos por redes de influência que funcionam como verdadeiros escudos políticos.


Esse ambiente cria uma perigosa sensação de impunidade. Quando o poder político e o aparelho do Estado se confundem, alguns funcionários passam a agir como se os recursos públicos fossem uma extensão dos seus próprios interesses privados. O episódio revelado no processo da AGT parece ilustrar precisamente essa lógica: dinheiro público que deveria servir para financiar serviços essenciais — saúde, educação, combate à pobreza — acaba associado a luxos privados, festas, bebidas e relações de ostentação.


Mas a AGT é apenas um caso entre muitos. O problema estrutural que ele revela é mais amplo: a ausência de transparência na gestão da coisa pública. Em Angola, a prestação de contas continua a ser um dos grandes défices institucionais. O governo não  é submetido a mecanismos de escrutínio, e as instituições que deveriam fiscalizar o exercício do poder enfrentam limitações políticas, institucionais ou estruturais.


Nesse contexto, o Estado começa lentamente a confundir-se com uma propriedade privada. Os cargos públicos deixam de ser vistos como responsabilidades perante os cidadãos e passam a ser encarados como oportunidades de acesso a recursos. Como se costuma dizer no provérbio popular angolano: “o cabrito come onde está amarrado.” Cada dirigente, cada responsável público, acaba por retirar benefícios conforme o nível do cargo que ocupa.


Ministros, governadores, embaixadores, secretários de Estado, administradores — a percepção social que se instalou é a de que cada um extrai do sistema aquilo que a sua posição lhe permite.


Nos primeiros anos do mandato do Presidente João Lourenço, o combate à corrupção foi apresentado como uma das principais bandeiras do novo ciclo político. A narrativa oficial prometia romper com práticas antigas e inaugurar uma era de maior responsabilidade pública. No entanto, esse processo acabou por revelar contornos selectivos, atingindo sobretudo determinadas figuras ou redes de poder associadas a equilíbrios políticos anteriores.


Enquanto isso, a percepção pública permanece praticamente inalterada: a corrupção continua visível, normalizada, caminhando pelas ruas de Luanda e por outras províncias como se nada tivesse realmente mudado.


Sem transparência, sem prestação de contas e sem instituições capazes de exercer controlo efectivo sobre o poder político, o país corre o risco de aprofundar ainda mais as desigualdades sociais. Os muros entre uma pequena elite que vive na abundância e uma maioria que luta pela sobrevivência tornam-se cada vez mais altos.


E quando isso acontece, o escândalo dos tantos milhões de kwanzas deixa de ser apenas uma história sobre jovens funcionários e  noites de luxo. Passa a ser um símbolo de um sistema inteiro — um sistema em que o cabrito continua a comer tranquilamente onde está amarrado, enquanto milhões de cidadãos permanecem à espera de um Estado que ainda não chegou plenamente até eles.


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Por- Hitler Samussuku

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