Potencial de Angola- Sousa Jamba



Não surpreende que a fotografia da recém-eleita dirigente da ala feminina do MPLA, Carlota Dias, e de Casaltina Culanda, líder da organização feminina da UNITA, enlaçadas num abraço e selando-o com um beijo no derradeiro dia do Congresso da Organização da Mulher Angolana, tenha adquirido vida própria e circulado, célere, de telemóvel em telemóvel. 


Há muito que o país respira um cansaço antigo, desses que já não cabem em discursos inflamados e se denunciam antes num suspiro contido: o das mulheres e dos homens fatigados de trincheiras verbais, de dedos em riste, de epítetos arremessados como projécteis, de mensagens oblíquas dirigidas à claque e dessa erosão de cortesia que converte a política numa sala ruidosa onde ninguém pede licença e todos falam ao mesmo tempo.


Por isso, quando dois rostos adestrados no protocolo do antagonismo suspendem, ainda que por instantes, a liturgia da hostilidade, a imagem abre-se como janela inesperada. Não resolve o essencial. Mas areja. E, num país habituado à asfixia simbólica, o ar tem valor próprio.


Falo com a experiência singela de quem percorreu geografias diversas, escutou outras línguas e viu o seu país reflectido no olhar alheio. Sempre que pronuncio “Angola” fora de Angola, uma sombra recorrente me acompanha. No Japão, na África do Sul, nas ilhas do Pacífico, a pergunta não incide, de início, sobre a guerra ou o folclore; incide sobre o desnível. Sobre a distância entre o que poderíamos ser e o que persistimos em mostrar. Angola surge, com desconfortável regularidade, como caso de estudo da discrepância entre dádiva e obra, entre abundância e resultado, entre promessa e chão.


Escrevi-o em Fiji; repeti-o em solo africano, onde a frase ganha uma tonalidade mais grave, porque já não vem tingida de exotismo, mas de uma solidariedade fatigada. O que fere não é que nos designem como terra de potencial; é o subentendido que acompanha a expressão. Potencial como sinónimo de adiamento. Potencial como país que não aterra. Potencial como talento que não se disciplina em método.

Temos quadros formados, recursos vastos, matéria-prima suficiente para sustentar uma competitividade serena no concerto das nações. Contudo, persiste uma disposição mental que adia a combustão. Falta o gesto decisivo que converte a dádiva em realidade mensurável: fábrica que produz, estrada que liga, escola que ensina, exportação que cumpre padrão, cidade abastecida, agricultura com escala, Estado regido por disciplina. Enquanto essa ignição não se faz, a riqueza permanece promessa e raramente se traduz em produto.


Nesse horizonte, a fotografia de Carlota Dias e Casaltina Culanda, excede a curiosidade viral. É sinal discreto de um nó mais profundo. As nossas organizações carecem de aprender a falar umas com as outras e não apenas umas contra as outras. A diferença não é meramente retórica; é ética. Falar com supõe escuta. Falar contra supõe mira. E um país exausto de gritos necessita, antes de tudo, de uma pedagogia de diálogo, dessa arte exigente de sustentar a conversa sem a degradar em duelo.


Mas o diálogo não pode reduzir-se a coreografia de boas maneiras. Deve ganhar densidade, adquirir calendário, traduzir-se em solidariedade operativa. Pode começar onde ainda subsistem reservas de energia cívica: nas organizações de mulheres vinculadas aos partidos, nas associações nascidas no seio das igrejas, nos agrupamentos que brotam do pequeno comércio, das feiras, das cooperativas, dos bairros onde a economia não é abstracção académica, mas sobrevivência quotidiana. Se esses espaços aprenderem a cruzar-se sem se anularem, a partilhar causas antes de partilharem slogans, talvez se inaugure uma nova gramática pública, menos feita de injúria e mais feita de compromisso.


Há urgências que não consentem encenação: a pobreza que resiste, a fractura entre os que têm e os que não têm, visível na esperança média de vida; e, sob tudo isso, a questão delicada da identidade nacional, fio que deveria coser e tantas vezes rasga. Enfrentar tais desafios exige honestidade. Exige também humildade, essa virtude rara num país que se habituou à altivez defensiva. E requer algo que a política tende a tratar como ingenuidade, mas sem o qual nenhuma comunidade se ergue. Amor. Não o amor declamado em slogans, mas o amor traduzido em cuidado público, em recusa de humilhar, em vontade persistente de construir um “nós” que seja mais do que palavra.


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